Você que me lê, me ajuda a nascer.

quarta-feira, junho 07, 2017

terça-feira, maio 30, 2017

... e lá vamos nós.

vlut 
vlat 
zum
eu sempre estou indo pra um lugar, algum

segunda-feira, maio 29, 2017

Sobre o amor que se pode ver (tocar, sentir, cheirar).

Sentei-me ao lado da van em que pude ver o marido da professora de natação e seu filhote lá do outro lado da rua, oito da noite, esperando-a chegar.
O menino de três anos corria para lá e para cá, serelepe, parecia certo de que aquela van trazia a mulher que lhe botou no mundo, mulher esta esperada por seu pai todos os dias, mesmo horário, mesmo lugar.
Senti a lágrima brotando no canto do olho sorrateira, no mesmo dia em que decidi pôr fim a uma ideia maluca de fazer dar certo um amor solitário por alguém descorajoso.

Ela não saiu, a lágrima. A professora me deu tchau, segui viagem, com aquela imagem na cabeça. Pai e filho que esperavam uma das mulheres de suas vidas. Não chorei, mas senti tanto aquela imagem que até agora posso ouvir os ecos e gritos do neném que apontava para a van, o pai de braços cruzados, sorriso no rosto, esperando, esperando. 

Um amor concreto, feito de esperas, de estradas com mato e última van. Um amor. 

sábado, maio 27, 2017

é só isso, acabou, não tem mais jeito

quinta-feira, maio 25, 2017

(Des)coragens.

Ele por fim falou o que é que acontecia consigo.
Disse tudo, assim, na lata, sem pestanejar.
Foi quando precisei de um pouquinho de atenção e cuidado e ele não apareceu que pensei que ele sabia como deixar o jogo sem precisar nem tirar a camisa. 

Mas ele enfim me disse, com todas as letras, algo honesto mas não por isso menos doído. 

Ele disse que não tinha coragem de deixar a vida dele, isso era aventura demais. 
E essa descoragem foi tomando conta de sua cara, seu corpo, coração, vida.
Nada mais era feito, por medo das consequências, medo de não dar certo, medo de não conseguir voltar para onde estava, medo do medo, só medo, medão.

E nada o demovia do medo, nada o fazia pensar diferente, pelo menos não até hoje. Aceitava as coisas como vinham e muitas vezes, por aceitar, nunca descobria como poderia ser melhor de verdade. 

Assim que foi definhando aos poucos e em poucos dias virou mais uma história pra contar. 

sábado, maio 20, 2017

A vendedora de quebra-queixos.

Ela entrou na van e eu olhei para ela, olhar cansado.
Passava das sete da noite, era noite. Estava escuro. Ela entrou, não há passagem para circular, a van muito apertada e ela para ali, na frente. 
Oferece o quebra-queixo. Para, espera que alguém compre. Não parece ter pressa.

E, nesse momento, entre o momento em que ela ofereceu o quebra-queixo pela primeira vez e até quando o primeiro moço que estava na cadeira de uma das primeiras fileiras da van levantou a mão e disse quero um, meu coração foi tomado de amor por ela, um amor miúdo, mas satisfeito, amor. 

Eu não sei o motivo, eu não entendo quando e porque isso acontece, só sei que acontece e meus olhos enchem de água assim, uma aguinha pouca, mas presente. Um sorriso me confunde os sentidos, eu estendo a mão, um pouco hipnotizada, quero um, eu disse. Comprei, ela procura o troco na sua pochete com moedas, me entrega. Repete o oferecimento, mais gentes compram, ela pede que alguém da van lhe troque vinte reais para que possa vender mais um, não sei o que acontece ela passou por mim, está atrás de mim, não vejo. Fico feliz por ela vender alguns quebra-queixos, fico feliz por entender sua pausa e sua espera, sua calma. É muito rápido, mas tudo naquela van parece acontecer muito devagar, como o rosto dela parado, esperando compradores, pensativa, na frente da van. 

Vê-la ali tão jovem, tão linda, tão pano na cabeça sem ser fashion, tão absorta em seus pensamentos enquanto esperava, tão doce, tão negra, tão mulher, tão do interior, tão... me deu tanta gana de continuar a viver que eu nem consigo terminar esse texto.

quinta-feira, maio 18, 2017

No corpo.

Ouço as mulheres falando.
Uma delas conta histórias de amor. 
Diz que foi a primeira mulher do seu novo namorado, ele com 32 anos. Que ensinou pra ele tudo que ele gosta.
Ela tem 49 anos e faz amor quase todos os dias, quase.

Disse que tem pressão arterial, diabete, é gorda, mas 

sente tanta coisa ainda naquele corpo que ainda não quer parar

Fiquei com essa frase na cabeça o dia inteiro.

Sente tanta coisa no corpo que ainda não quer parar

Tem mais poesia pra hoje?
Acho que não precisa. Ela me lembra Toni Morisson, quando diz sobre nossa carne e como ela precisa (e quer) ser amada.

segunda-feira, maio 15, 2017

domingo, maio 14, 2017

Adolescências.

Mais uma vez, eu em casa, passava da meia noite. Ouço uma cantoria. Levanto pra ver e na rua meninos negros jovens, tem entre 13-16 anos. Cantam:

deixa, deixa mesmo de ser importante
vai deixando a gente pra outra hora
vai tentar abrir a porta esse amor
[...]

Um deles, o que vai à frente, grava tudo. Este parece mais sério e compenetrado, olha para a câmera. Os outros, amigos, parecem fazer aquilo para ajuda-lo a dizer alguma coisa para alguém. Um deles me vê. Continua a descer a rua e cantar, me dá um tchauzinho e eu retribuo, sorrio para ele.

Acho uma cena tão linda. Meninos jovens negros cantando o amor numa cidade pequena do recôncavo baiano. Pode não ser nada mas, ainda assim, por também não ser nada, é tudo.

(porque quando eu vejo na TV' e em todos os lugares, esses meninos só são maus e perigosos, eles só aprontam coisas ruins e nada que preste, e eu vi, EU VI meninos negros cantando o amor e se declarando, ajudando o amigo a declarar o amor, eu sou feliz, eu acredito no amor e na vida, eu já disse isso)

Vidas negras importam, amores importam, declarações importam.

sábado, maio 13, 2017

do you believe in life after love?

[sim, eu acredito em vida e amor, nessa ordem e em outras]

sexta-feira, maio 12, 2017

I'm back man in a white world, Michael Kiwanuka.


Eu não sei quem me apresentou Michael (acho que foi um exnamorado, não tenho certeza), mas ele é meu novo Ben Harper. Ouvindo seguidamente, eu preciso de todos os cds.

Mães.

Sou mais feliz ouvindo mulheres pretas conversando na entrada da escola sobre como criar suas crianças, todos os dias.
Elas dizem
não segura ela, deixa ela chorar um pouco, senão você sempre vai ter que ficar com ela no colo
vai, deixa

Do outro lado da rua eu passo, dou bom-dia, sou feliz.
Trabalhar num lugar onde as mães das crianças já são amigas antes delas entrarem na escola e

eu levo ela hoje pra mãe, passo na frente da casa
eu vim aqui porque vi todo mundo saindo e não vi a mãe dele, eu levo, eu moro aqui do lado, depois ela pega ele lá

Me faz mais forte que antes, me faz acreditar um pouquinho mais naquele largo sorriso que minha vizinha que nunca me viu na vida me deu depois de um bom dia. 

quinta-feira, maio 11, 2017

Ficando velha.

Descobri que tou ficando velha quando chorei com isso.

terça-feira, maio 09, 2017

E fim.

24 horas depois, não há mais nada aqui.
Saudade de um tempo em que não pensei no que iria ser, só pensava em ouvir uma voz, um sorriso, imaginar um rosto.

24 horas depois, não há mais nada aqui.
Mas também não há nenhum vazio.
Uma sensação de paz... um sentimento de que ainda pode ser verdade.
De que a vida é mais, as pessoas são mais. 
O tempo é mais, o amor é mais. E o sexo (vulgo fazer amor)?

O sexo é tempo, amor, verdade, pessoas e vida.
Vou repetir de novo: o sexo é tempo, amor, verdade, pessoas e vida. 

Se não tiver isso, não é fazer amor. FAZER AMOR, tem expressão mais bonita que essa pra dizer de corpos que conversam? 

24 horas depois, não há mais nada aqui.


segunda-feira, maio 08, 2017

cê vai se arrepender de não abrir os braços para mim

Flor da noite.


Quando acabou, essa música surgiu na lista. Era pra ser assim. 

sábado, maio 06, 2017

Amizades, amores e que tais.

Ele me disse que

poxa, Migh, é que eu já te amo, eu não posso me apaixonar por você

Engraçado, sorrimos. Mas nos amamos mesmo. Gosto de quando nos falamos e ele me diz eu te amo, eu também o amo, eu também digo, eu repito. Amar é bom,

amor é remédio de louco pra recuperar a razão

Não sei o que seria de mim sem meus amores amizades. 



terça-feira, maio 02, 2017

eu lhe disse que não bulisse
você buliu, assanhou
essa menina quando se assanha [...]

segunda-feira, maio 01, 2017

Visagem.

Dia desses, em casa, ouvi aqui de dentro um barulho de berimbau. Espiei pela janela e do primeiro andar vi do outro lado um senhorzinho todo de branco tocando um. Parecia visagem, corri a mão na máquina de fotografia.
Era tarde da noite, só ele, a lua e o berimbau. Ele passou devagar, tocando.
E eu fiquei paralisada. Toda vez que me sento nesta poltrona, na janela, sinto o som do berimbau subindo a rua. Lembro do rosto do senhorzinho que me fitou de longe e logo continuou sua caminhada sem se importar comigo. 

Foi sumindo na rua, tocando o berimbau.
Não tirei foto nenhuma, mas a imagem não sai da minha cabeça.

Get on Up.


Benjamim Clementine.


Você, camarote. Eu, pipoca.

E foi no dia mesmo que eu disse que na metáfora do Carnaval ele era camarote e eu pipoca que outro homem me disse que não sabia explicar, mas sentia muita energia vinda de mim, que eu levava a vida de forma intensa e isso era empolgante. Li a mensagem sorrindo envaidecida, mas é realmente isso que eu acho de mim. Uma energia empolgante em forma de gente, principalmente apaixonada. 

Claro que ele não concordou com minha analogia carnavalesca e resmungou que eu era Barra e não Campo Grande. "Não mesmo", pensei comigo. Mesmo que eu não tenha sido a pessoa mais carnaval do mundo e nunca ter ido à Barra no carnaval, eu sei que não sou Barra, talvez também por nunca ter ido. 

Agora, a graça na vida está não quando vejo a banda passar. Quero fazer parte da banda. 

Crianças Black Panthers (Exposição Todo poder ao povo!)




(Quando você tem pessoas que te ama, você não precisa estar no lugar e nem ter smartphone legal. Elas lembram de você o tempo todo. Ere, meu amor)

Sem ar.

E numa manhã dessas, bem cedinho, eu disse tudo de uma vez:

Não te acho sonhador, te admiro por ser lutador, é diferente de ser sonhador. Tu não desistiu, não desistiu da vida, ama seu filho e vê nisso motivo de aguentar as coisas da vida que não gosta, lutador por guerrear mesmo com as poucas armas que tem e ao mesmo tempo é sensível para sentir - e expressar! - emoções tão profundas... eu te admiro por ser um homem comum e em sendo comum, és extraordinário, tu escapa às definições que existem para te classificar. Quem te vê aí no trabalho pode não conseguir saber como você é lindo dentro e é isso que me aproxima de você, essa luz e essa força, tão certa, mas tão escondida... Te vejo como uma pedra preciosa não lapidada, mas que não precisa ser lapidada para ser mais linda. Você só precisa de espaço e tempo para aparecer e brilhar. Essa sua luz, ao invés de ofuscar meu olhar, me hipnotizou



Pros outros, Paula Matos.


pros outros pros outros pros outros

sábado, abril 29, 2017

Frente a frente.

você me põe de frente comigo mesmo

Ele me disse de um jeito despretensioso, como se não fosse nada, como se pensar assim não fosse algo rebuscado e profundo. Eu agora fico repetindo que ele me disse isso para todo mundo, achei tão forte, eu só pensei que eu queria dar um beijo nele, apertando os lábios, não de língua, só apertar o meu corpo de encontro ao dele, sentir sua pele, seu calor, seu cheiro, respiração. Aquele momento em que a sinfonia acontece. 

Estou apaixonada. 

A late night kiss in Harlem (photo by George S. Zimbel): 1951

quinta-feira, abril 27, 2017

Run to you, senhora Withney Houston.



Que esse não seja o hino das mulheres negras.

Noname.


É possível ser linda e demais de linda por mais de uma vez e sempre?

segunda-feira, abril 24, 2017

Esperando o caminhão do lixo.

Ele, homem negro. Jovem. 
Fazendo o serviço que muitos e muitas de nós fazemos desde sempre. 
Passa na rua dia sim, dia não.
Usa um óculos escuros, tem sempre um fone de ouvido.

Sobe, desce. Leva o lixo das casas, mas não parece ter perdido a coragem.

Ela, mulher negra. Mais jovem ainda. Na hora que o caminhão passa em sua porta, se posiciona, parece feliz. Ele vem subindo, junto com o caminhão de lixo. Recolhe o que há na rua, acena para algumas pessoas, está de luvas.
É uma cena linda. Eu o vejo, ele subindo. Eu a vejo, ela esperando ele chegar. 

Então acontece. Ele passa em frente a porta dela, ela sorri, chega perto. Ele lhe dá um beijo na boca, com cuidado para não tocá-la. Ela balança o corpo daquele jeito que fazemos quando não conseguimos aguentar a felicidade dentro.

Conversam um pouco e eu que tudo observo, já lavo minha alma com essa dose de alegria de manhã cedo. Mais beijos, mais balanços, ele corre, há que se pegar o lixo e dar-lhe alguma atenção, ele tem cuidado para não tocar-lhe, mas ainda assim não desiste dos beijos. Ela respeita o limite da roupa e da luva, não avança, embora pareça desejar muito. Imagino que aquele balanço intenso é parte do controle que faz para não agarrá-lo.

Um código de corpo que só tem amor.

Ela é jovem e há tanta vida nela que eu remocei alguns anos só de vê-la apaixonada e feliz. Ela é tanto sorriso e balanço que dá para limpar a cidade inteira de desamor e pessimismo. Ele? Ele é quem limpa a cidade da sujeira toda mesmo, ele não é poesia, não, mas, ainda assim, é por ele que o amor se faz 

Toda a rua sabem quando brigam e quando fazem as pazes, ela está lá, ela não está lá, ele não tira os fones, ele não para. Ele e ela me fazem mais corajosa de viver minha própria vida, minhas escolhas. Sem vergonha nem medo.

Sou mais forte vendo o amor ali, esperando o caminhão do lixo. E descobri assim que, ao invés de esperar o caminhão do lixo, o que eu estou esperando agora é ver o amor acontecer, dia sim, dia não, do lado da minha casa. 

sábado, abril 22, 2017

Una.


Tank and the Bangas.


Uma coisa boa leva a outra boa que leva que leva leva 

Cold War, Kiah Victoria.


go, let it go, let it go

Conselhos e café.

No café da manhã, um homem me conta que não dá mais, não dá para continuar a conhecer aquela mulher, há problemas.
Ele me relata o que há, eu digo que não há. Falo que é possível, conto histórias, mostro como com vontade a coisa pode ir, se são esses os problemas que ele e ela têm, a gente resolve, dá pra resolver. 

Eu lembro de mim mesma e penso no que eu gostaria, mas também lhe digo que viver junto sempre tem lá suas coisas, mas é preciso querer. Acho que o difícil é saber se há querer. Mas se há, aqueles dois problemas não serão problemas. 
Ele fica em silêncio. Ele ouve. Ele diz

você tem razão

E suspira. Eu digo para mandar-lhe flores e não desistir. Ele sorri. Faz-se um silêncio, mas é de paz. Vou embora, ele aperta minha mão, tem o rosto sereno, cansado, mas sereno. 

Eu vou embora, falando de outras coisas. Quebrando o silêncio de paz, levando um pouco de amor.

sexta-feira, abril 21, 2017

Sentido.

Eu quero mais, mais do que ele poderia pensar que poderia me dar.
Ele não sabe a medida do que eu quero sentir (nem eu sei, vai saber).
Mas ainda está aqui. E diz querer aprender. 

Não vou ensinar.
Só vou fechar os olhos, respirar fundo e segurar na sua mão. 

Alguém assim.

eu fico feliz quando falo com você porque você é feliz com o que tem, é difícil encontrar alguém assim

Ele disse isso e depois me disse a verdade. Disse que não poderia segurar minha mão e nem estar comigo quando eu quisesse companhia para olhar o mar. Ainda assim, acreditei nele, porque eu sou feliz, mesmo sem ele aqui, mesmo só tendo conhecido ele e sorrido com o fato de ele ser ele, só isso.
 


quarta-feira, abril 19, 2017

A vida é leve.

Chove, eu tenho uma sombrinha e divido com a moça que desce comigo da van.
Há um homem e ele vai conosco conversando, tem o mesmo nome do primeiro menino por quem me apaixonei quando tinha seis anos.
Na viagem, passamos o tempo falando sobre a vida, ele me pergunta o que eu quero, eu digo, ele sorri, ele me agradece por fazê-lo sorrir num dia ruim. Eu digo "todos temos dias ruins" e ele sorri de novo, um sorriso meio amargo, parece lembrar do que não foi bom.
Está cansado, suspira. Me conta do que fez e não fez quando era jovem, ali naquela mesma cidade, que eu ainda estou por conhecer.
E me faz sentir o prazer de falar e ouvir, de saber sobre alguém que eu sei que não vai fazer parte da minha vida, mas foi inteira, enquanto esteve ali.

terça-feira, abril 18, 2017

Pão quente.


O amor pode estar longe, mas é sempre quente.
Quente como pão quente saído de um forno quente numa cidade fria.
Um pão quente que faz muçulmanos e cristãos sentarem-se à mesa e entenderem-se em línguas diferentes.
Mas, não é o pão quente.
É o amor (que também é quente).

Dias melhores já chegaram.

É quando o tempo não passa nem devagar, nem rápido que você imagina ter chegado num momento da sua vida em que você se sente extremamente feliz todo o tempo. O tempo de acordar cedo, fazer tantas coisas e sair para trabalhar, conversar com o vizinho, oferecer um pedaço de bolo.
Voltar em casa, almoçar. Ou ir na casa de alguém almoçar. Depois voltar para o trabalho e dizer para alguém que foi dormir sorrindo lembrando da cara dela.
O tempo passa, nem rápido, nem devagar.
Ele só passa, porque ele é rei, ele sempre passa.
Mas você sabe que você é feliz quando não espera mais sábado ou feriado para acordar cantando uma música que te faz bem.

sexta-feira, abril 14, 2017

quinta-feira, abril 13, 2017

Lost & Found.


Tenho vergonha por você ser quem me fez/ sentir como me sinto

Tudo tão muito e fim

O mais doído é que tantas gentes me machucaram
Tantas gentes me feriram
Tantas coisas me marcaram

E foram os silêncios que me fizeram sentir solidão

Stop where you are.


[Acenda uma fogueira onde você está]

Coisas bunitas, Sara Tavares.


Yolo yolo.


[Donald]

Ciclo.

E depois de sete anos, a imagem volta ao lugar de nunca deveria ter saído.
A imagem que me capturou, que me fez melhor, que me fez mais sorrir do que chorar.
A imagem que me aproximou agora é a que me afasta, que me entristece.

Melhor longe do que mágoa.

E o que era concreto, dissolveu-se na poeira.

Mundo novo.

As pessoas marcam, se marcam. Na história, pela vida. Se deixam levar, levam também. As pessoas nunca são só as pessoas. São coisas, bichos, plantas e lugares. As pessoas não conseguem deixar de ser.
Tem gente doída da vida mesmo, que te encontra e só quer paz. Mas isso não é coisa que se dá assim, que se compra. Demora para entender que dizer não, hoje não, já muda muito. Tem dias que eu não consigo dizer não. Mas tem dias que eu me admiro de gentes sem conseguir.

domingo, abril 09, 2017

É isso.


Trança.

- Você trança cabelo?
- Tranço, vem aqui.
- Quanto é?
(Silêncio) - Não sei, nunca cobrei. É como?


Flor da (cor) da pele.

Ando à flor da pele... não, danço à flor da pele.

Eu fechei a porta. Bati o pé, botei uma pedra. Não vou ficar aqui com nada que me faça mal.

Eu aceito que a gente sempre aprende, que a gente erra, que a gente pode se enganar. Eu aceito desculpas, eu peço, porque eu já sei, nessa idade, que não sei tudo. Eu tenho vergonhas, eu fico sem jeito, eu fico com raiva de coisas estúpidas, eu volto atrás, eu demoro, eu vou rápido. 

Mas, não. Não tudo, não sempre, não de todo mundo, não de quem você ouviu e leu eu te amo. Não, não agora, talvez depois. O que me entristece são os silêncios para sempre. Para sempre é tempo demais. Alguém que não te diz pelo menos não, agora não, eu não posso, está doendo, estou confuso, estou com medo. Eu fico triste de ter amado ou amar alguém que simplesmente some sem dizer nada, como se desse para ler nos silêncios as palavras todas que ela não consegue nem se ouvir dizer. Eu não quero ter más lembranças de gentes que eu amo.

Então, melhor fechar a porta.

Porque ela ficou aberta tempo demais e muita poeira entrou. E cobriu meu coração de terra, tanta terra que daria para enterrar o sentimento. Mas eu não quero enterrar nada. Eu quero continuar ouvindo uma música e sorrir um sorriso bobo, pensando em quando a gente dançou aquela música um dia.

Eu também tenho direitos. Um deles é escolher ser feliz e dizer não.

Que no fim das contas, pode ser um enorme sim.

Não me pegue, não/ me deixe à vontade


Confiança.


sábado, abril 08, 2017

Miudezas.

É quando o coração fica miúdo, moído, que se tem certeza que doeu.

Ele me escreveu, um e-mail com mais de duas frases, contou histórias. Não acreditei. Respondi, fui educada, mas não fingi um flerte, seria mentira.

Minha cabeça, meu coração, não quer passear entre os passados delirantes e felizes e nem pelos mornos e calmos, meu coração só quer bater, sem pensar, só bater. Quero ver, ser vista, amar, ser amada. Simples? Parece que não.

Eu chorei um monte de lágrimas, pelas incompetências todas que me ocorreram. Aquelas que não soube fincar pé e brigar, outras que eu tive preguiça. Mentira, nunca é preguiça, às vezes é só porque eu quero um colo. Chorei voltando para casa, na van. Não procurei esconder, todos viram. Não ligo de amar, de sentir. Ainda que de um jeito miúdo, sem alarde, mas amo. Um amor que espera, que não cobra, só ama. Não sei o que fazer com ele.

Vou dormir, então. 

Descontrário.

U-hu, eu nao quero você como eu quero. 

quinta-feira, abril 06, 2017

Mudança.

A gente se muda e a nossa escrita se muda com a gente.
Outros sons, barulhos, novos vizinhos, outros interesses.

E isso aparece na palavra, no texto, nos poros, na pele.

Sou feliz, assim.

A um passo do estrelato.


Definitivamente, documentário musical é o que eu mais amo na vida (depois de livros escritos por mulheres, crianças e comida).

quarta-feira, abril 05, 2017

Nomes.

Quero uma filha pra chamar de Lúcida.

terça-feira, abril 04, 2017

A cidade e o tempo.


O tempo é um bicho engraçado, fugidio, rasteiro.

Mudar de cidade e aprender os tempos do lugar é sempre um desafio gostoso de viver, dá agonia de saber como vai ser, mas quando acontece, a gente se perde (e também se acha).

Estou vivendo numa avenida de uma pequena cidade. Há o barulho dos carros, das motos. Das motos, das motocas, motocicletas, muitas. Sempre. Tantas.

Há as pessoas passando, aquelas que ficam com seu grito indescritível:


Ó o quiabo novinho, freguesa

Olha a poooooolpa!


E as pessoas que passam conversando alto, tomando parte de quem passa, de quem fica, de quem não voltou. Gesticulam, falam da vida, se espantam, chamam atenção, conversam, sorriem, puxam papo.

O moço me viu duas vezes, na primeira eu queria informação sobre carreto, na segunda perguntou se eu consegui mudar. Contei minha história, descobri que o moço do carreto era seu parente, me convidou pra uma festinha no final de semana. A mãe dele passava e chamou os dois, vem aqui, Miro, traz ela, comi arroz doce quando era quase meio dia. Mas não importa, amo arroz doce, amo casa dos outros, amo conhecer gente nova.

Ela é uma senhora, mas também tem uma moto. Me mostrou a moto, o capacete, riu da minha cara quando eu disse que não sabia guiar nem bicicleta. Disse que ia me ensinar, pra aparecer na pracinha que ela está ensinando a neta aos sábados pela manhã.

Vim embora sem querer vir. Só vim.

Como o tempo.

domingo, abril 02, 2017

Sem ar.

Queria poder abrir o peito, para respirar.
Por vezes tenho sonhos que quando me lembro no outro dia, tenho um mal-estar. Lembro e esqueço novamente mas, quando lembro, sinto como se o sonho, quando sonhei, estava sendo real.

Meu corpo não cabe em mim, preciso respirar.
Não saberia explicar a sensação melhor que isso.
Hoje acordei assim, vi um filme e, mesmo sem caber em mim, mergulhei mais para dentro. Há histórias que nos tocam e fazem a gente olhar pra dentro e para os lados. Às vezes, a gente não encontra ninguém. Para dizer o que somos, o que não somos. Que o amor vai vencer, que não somos perfeitas, mas elas estarão ali.

E a gente tem medo, ou se anestesia da vida, de sentir.

Não sei muito de mim, e descubro que sempre sei menos ainda, quando me sinto assim, sem ar. Penso nas coisas que eu fiz ou não fiz, porque fiz, se faria diferente... e não tenho certeza de nada.

Eu aprendi a falar menos, ouvir mais. Não consigo sempre, mas isso também dói. Falar menos, ouvir mais, também tem dores. Nada te livra dessa coisa chamada (con)viver. Mas é justamente aí, eu não quero que seja um fardo, quero que seja leve, mas não. Vejo que na maioria das vezes em que as pessoas relevam algo que acreditam ter doído nelas, aquilo ali fica, cresce, machuca mais. Não é 'deixa pra lá' e acabou. É 'deixa pra lá', mas ela mesma ainda está sentindo doer, e muito. E aí, quando outra coisa acontece, ela embola as coisas, mistura a zanga de antes com a atual, mistura as frustrações todas, não sara, não passa. Porque ela 'deixou pra lá'.

Uma vez, briguei com um amigo. Eu o amava muito, e nós ficamos sem nos falar. Ele lutou pela nossa amizade, e soube reconhecer que errou. Eu estava machucada, não me enganei. Não deixei pra lá, senti minha raiva, minha zanga. Quando me curei, voltamos a nos falar. Eu sei que ele é uma das pessoas que mais me ama no mundo.

Eu não estou dizendo que eu sou perfeita, não. Eu estou dizendo que gosto de mexer no que está quieto mesmo, porque desconfio que debaixo daquela calmaria toda tem um mar revolto. E esse mar é que não me deixa respirar. Só que esse mar revolto, só dá pra enfrentar junto. Se as pessoas não quiserem lidar com ele, não adianta a gente ir sozinha... e a gente vai, navegando nas águas paradas, com aquele mar revolto por baixo.

Mexer no que está quieto dói pra todo mundo, mas dói menos do que olhar para as pessoas com aquela coisa que você não consegue lidar e vai deixando lá no fundo, debaixo do tapete... e aquilo cresce, dói, eu não quero isso. 

Fences.


sábado, abril 01, 2017

Outro Milton (Nascimento).


legenda: Foto 3x4 de Milton Nascimento com aproximadamente 10 anos.
Rio de Janeiro, RJ, s/d.
personagem: Milton Nascimento
Retrato de Milton Nascimento com aproximadamente 10 anos. Apesar da foto ter sido feita no Rio de Janeiro, o menino Bituca (apelido extraído do nome “Botocudo”, tribo indígena) já residia em Três Pontas, MG, terra de seus pais adotivos.

Ciência-Poesia.



É de manhã e eu lendo ciência-poesia.

Para isso, é fundamental viver a própria existência como algo de unitário e verdadeiro, mas também como um paradoxo: obedecer para subsistir e resistir para poder pensar o futuro. Então a existência é produtora da sua própria pedagogia. (Milton Santos, Por uma outra globalização, Ed. Record, 2007, p. 116)

quinta-feira, março 30, 2017

Rede Extremo Sul.

Quer ver beleza e luta? Vem aqui, ó. Ah, e aqui.


quarta-feira, março 29, 2017

Era o Hotel Cambridge.


Leia para ela.

Recebi no email, achei uma lindeza:

Prezadas docentes e alunas,

A Pró-Reitoria de Graduação concedeu à Faculdade de Educação uma bolsa para aluno de pós-graduação com disponibilidade para atuar como ledora de textos para uma aluna com deficiência visual.  
A bolsa, no valor mensal de R$ 1.200,00 (hum mil e duzentos reais), será concedida de imediato, pelo período de 3 meses (abril, maio e junho)
Os interessados devem fazer sua inscrição na secretaria da Direção da Faculdade de Educação até 2a.feira, dia 3 de abril, informando: nome completo, CPF e RG; endereço, telefone e e-mail; curso de pós-graduação no qual está matriculado; e número USP. 
A todos que puderem colaborar, pedimos a gentileza de fazer rápida divulgação, pois a aluna precisa terminar sua licenciatura neste semestre.
Grata pela atenção.

domingo, março 26, 2017

Trovão.

Um código sem aviso
Suas batidas na parede
E a certeza do seu corpo, retorcido de desejo
Eu ali, pele e sorriso, a brasa

Ele trovão, eu terra
Na espera do encontro relâmpago
...

Entre nós, só luz (e lençóis brancos)





Maxixe, minha áfrica de amor.

quinta-feira, março 23, 2017

Não me conheço.

Eu prometo que vou tentar, fazer tudo certo.
Amar e só amar. Sem me perguntar os motivos todos.
Me deixar sentir, lavar a alma da mágoa e do medo.
Sorrir, viver, desfrutar, sorver.
Ser.
Eu prometo que vou tentar, fazer tudo certo.

(se eu sumir, é porque deu certo)

quarta-feira, março 22, 2017

Fenda.

Bem que eu queria
a viva voz
te anunciar o meu amor
e colocar na mesa dos teus braços
o meu destino.
Mas a timidez prende-me os gestos
do profundo apreço
congela-me os movimentos,
embaraça-me as palavras,
meu desejo se amedronta.
Emudeço.

Geni Guimarães, (Balé das emoções, 1993, p. 16)


segunda-feira, março 20, 2017

Pergunte a eles.

Os homens brancos não entendem. As mulheres brancas também não. Os homens negros, pergunte a eles.
Mas nós, mulheres negras, inventamos outros jeitos de viver essa vida sacana e nem sempre dá pra explicar com letras inventadas por outras pessoas que nem nos conhecem o que a gente fez para chegar aqui.
Se falamos, vitimismo.
Se calamos, soberba.
Se gritamos, loucura.
Se morremos, desistimos.


Por isso, eu só quero ser eu (com os outros). Às vezes, eu brinco de explicar, mas dá um trabalho danado. Porque eu sei as coisas que eu sei na carne, eu sinto elas. Eu nunca sei se expliquei, mas eu sei porque eu sinto. Você, nunca vai saber não sendo eu, nós, mulheres negras.

sábado, março 18, 2017

Carta.

Encontrei uma carta que escrevi para ele e não mandei. Não escrevi com essa intenção. Só precisava botar pra fora um monte de agonia que tinha dentro do peito.

Engraçado. Agora, de longe, reli e me deu paz.
A carta resume a nossa história até quase hoje. Me li e me vi, me entendi. Me libertei?

Melhor não mexer com o que tá quieto.

Sem sol.


sexta-feira, março 17, 2017

Saída (não há).

Não há saída.
Quando abro os olhos, quando olho bem, quando olho pra dentro, só encontro ele.
Eu não vou tentar, nunca mais.

Mas eu o amo, e eu sei disso como sempre soube.
Não é diferente agora.
A única certeza que eu tenho é que saída não há.
(e que a gente nunca mais vai se encontrar)



Outsider Within (na vida).

É noite, sua mãe ressona ao seu lado (você decidiu dormir com ela naquela noite, depois de conversas sobre família e amores) e você lê um texto de Patricia Hill Collins anos depois que ela o escreveu e acredita que se encontrou na vida. Nada de terapia nem conversa com psicólogo (homem e branco) isso me ajuda a me entender mais do que o conceito de outsider within.

Isso já aconteceu com você?

Lembro que quando estava terminando de escrever a dissertação foi outro texto, o de bel hooks, que me pegou, aquele que publiquei aqui, Intelectuais Negras. Eu andava às voltas com escritos e palavras, conceitos, definições, noites adentro pensando no que eu queria falar quando eu escrevia. Encontrei alento nas letras de hooks, hoje é Hill quem me liberta de mim mesmo, do peso de ser eu. Do peso de ser eu para a leveza de ser eu, ela me ensina que eu posso ser uma dentro-fora, porque ela também aprendeu com hooks que 

ao viver como vivíamos, na margem, acabamos desenvolvendo uma forma particular de ver a realidade. Olhávamos tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora... compreendíamos ambos (hooks, 1984: vii)

Collins fala de hooks, que me faz lembrar de mim e ... subitamente ouve minha mãe ressonar. Ela funga e diz:

é igual caranguejo na lata [uma metáfora para assuntos de família, coisa nossa]

E volta a dormir.
Durmo também, feliz por ser quem eu sou. Eu não queria estar em outro lugar.



Patricia Hill Collins

quinta-feira, março 16, 2017

Búzios do seu coração.


Lanchonete.

Na última semana, minha mãe mudou o endereço da  sua lanchonete. Um lugar maior e mais perto de casa. Agora, ao andar por aí, encontra as pessoas que conviveram com ela por treze anos, no endereço antigo. 

Um amiga porém, de longa data, havia se chateado com ela e não ficava mais por lá. Passava direto, sem nada dizer. Minha mãe e ela, duas tinhosas, não se aguentam juntas por muito tempo. 

Hoje, nas andanças pelo bairro, mainha encontrou mais uma dessas amigas, que também conhecia a outra tinhosa. Disse que certo dia, ao esperar o sinal fechar em frente à lanchonete, avistou-a, em frente à lanchonete, alisando o portão do estabelecimento, como em sinal de respeito à amizade que tinha com minha mãe por tantos anos mas que, por infortúnio, não poderia dessa vez ser reatada, já que ela não sabia para onde ela tinha ido. Ao alisar o portão de ferro, olhava para amiga de mainha que fingia nada ver, mas que, com certeza, por dentro, não via a hora de fazer a fofoca. 

As duas estão por aí, pelo bairro. Se encontrarão e farão as pazes, qualquer dia desses. Ainda assim, mesmo ser ter visto, a imagem dela alisando a porta da lanchonete não sai da minha cabeça. 

quarta-feira, março 15, 2017

Fugaz.

1h52
Anteontem, solteiro, me paquerou
Pediu número de telefone, fixo, Skype, Twitter
Eu não tenho nada disso, não teve como se apaixonar por mim
Em um dia, o perdi

2h49
Conheceu outra, hiper conectada
Celular, instagram, whattsapp', enfim
Ontem mesmo saíram, namoraram, fizeram juras de amor

19h37
Hoje, terminaram, ele descobriu que ela não era tão legal assim
Me ligou, eu sorri feliz
Nem sabia que nesses dois dias passados ele já tinha quase casado de novo

23h59
Eu ainda estou suspirando pela mensagem carinhosa de bom dia de anteontem
Eu, velha demais para a rapidez desses amores

(em homenagem às minhas paixões de adolescente que demoraram anos para me dizerem sins e nãos)

terça-feira, março 14, 2017

Ajudar (posso) não.

Mais uma vez: começo de semestre, um rapaz branco me pergunta se eu trabalho na biblioteca. Respiro fundo e ele parece perceber a merda que fez; se afasta antes que eu termine de lhe responder. Eu lhe digo 

com certeza, não

Mas arremato:

só posso ser funcionária para te ajudar? eu poderia fazer isso sendo estudante, porque conheço aqui. mas, pra você, não

(porque não tem nenhum problema em ser funcionária da USP, há realmente muitas pessoas negras lá, o problema é a abordagem, o estereótipo)

Ele já vai longe, envergonhado, parece. Algumas pessoas se tocam só depois que já perguntaram. Eu, respiro fundo de novo, me desconcentro um pouco. Era mesmo sobre escravização o livro que eu procurava e não achei.

Engraçado de constatar, mas essa pergunta rola mais comigo na FFLCH, onde supostamente há cursos em que se estuda relações raciais... vai entender.

100% Womanista.



"Minha fragilidade não diminui a minha força", MC Carol diz, eu repito.
Já ouvi de namorado "você não é tão forte quanto parece", em conversas em que eu me expus, falei de mim, do que sentia.
É isso mesmo. Mas essa letra responde tudo. 

segunda-feira, março 13, 2017

São Francisco do Conde.

10h51.
Na estrada, um bar.
Três mulheres negras dividem uma cerveja.
É segunda-feira.

Não se escondem, estão à frente. Olham a estrada. Não conversam.
Eu estou sentada num ônibus, elas não me veem.
Eu as vejo.
E tenho absoluta certeza que estou no caminho certo.



127 horas.


quinta-feira, março 09, 2017

Não.

Não.
Eu não vou aceitar menos, não posso, não quero.
Meu corpo não aguenta, eu não quero.
Meu amor é mais, eu não poderia fazer isso com ele.

Não.
Eu não vou ser sem você, eu não quero sem as outras pessoas
Só se for inteira, só se for todo mundo.
Se não, não.

Vai, não posso dizer que não vou chorar.
Mas vou ficar, me amando, abraçando minhas lágrimas.

domingo, março 05, 2017

Eu tenho um entojo de umas invenções. 
Vejam vocês, agora todo mundo falar de descolonizar isso, descolonizar aquilo... A colonização é um fenômeno que não deveria ser banalizado. Eu entendo ele como um processo de dominação e exploração bastante violento para ser transformado num adjetivo e caber em qualquer coisa. Aí, que acontece? A colonização deixa de ser esse monstro e acaba nomeando práticas menos ofensivas da relação entre as pessoas. Tem gente que fala, por exemplo, em 'descolonizar a infância'. Nunca entendo direito o termo: os adultos colonizam as crianças, é isso? Nós as dominamos e as exploramos? Como vamos viver num mundo onde não sabemos diferenciar colonização de 'adultocentrismo', 'etnocentrismo', 'racismo'?

Empoderamento é outra palavra que dá nos nervos. Talvez não tenha sido criada com essa intenção que vemos sendo usada hoje, mas o fato é que tem gente que realmente acredita que é empoderada - cheia de poder - e pode empoderar alguém. O lance todo é que esse papo é furado e a gente já sabe a muito tempo que o poder não é algo que você tem, ele circula, ele é exercido, logo, você não se empodera; no máximo, você pode ter, em determinadas situações, ações, táticas e estratégias que te façam chegar em determinados espaços e tal. Se a gente ficar com essa ideia de que somos empoderadas quando conseguimos alguma coisa, não demora e a gente toma uma queda bem grandona. A ideia de empoderamento, além de individualizar as conquistas, fazem a gente achar que elas são estáveis. Que nada. Ter auto-estima, por exemplo, não é ser empoderada, ter auto-estima é ter auto-estima. E isso é massa, mas não, não é ter poder.   

Rapaz [moça], hoje em dia, até o que é sólido está desmanchando no ar.

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Cordeiros


Documentário de Amaranta César e Ana Rosa Marques.

Em tempos de Carnaval, não custa nada lembrar que

o carnaval que está gravado em mim não é colorido, misturado e alegremente desordenado

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Balada de amor ao vento.


Desses livros que tu lê e entende o título. Balada de amor ao vento, que "título lindo", disse uma amiga. Eu não tinha me atentado, mas é mesmo. E é a história de amor de Sarnau e Mwando que atravessa países, ódios, tristezas e o tempo... ah, o tempo.

- Tu foste para mim vida, angústia e pesadelo. Cantei para ti baladas de amor ao vento. Eras para mim o mar e eu o teu sal. Nunca encontrei os teus olhos nos momentos de aflição. No abismo, não encontrei a tua mão. O meu preço para ti é inacessível? (p. 166)

Comecei a lei ainda além-mar, mas não consegui acabar, é daqueles livros que eu não quero que acabe e fico lendo bem devagar, voltando páginas, lendo de novo... levando aqui e ali, mostrando às pessoas. Uma de minhas escritoras preferidas, Chiziane não deixa por menos nesse romance e me faz feliz de novo.
Quem diria, aprender sobre mim numa história de amor. É assim que a gente descobre o que é escrever bem. 

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Do fundo do meu coração.


Encontros.

A gente nunca deve sair da vida de quem a gente já viveu junto. 
É assim que eu penso. Claro, tem gente que te machuca demais, demais mesmo. Aí, sim, né, não força a barra, vai. Mas, fora isso, eu brigo até o fim pra ficar do lado de quem eu tive uma história.
Pode ser que demore, mas eu entro em contato, procuro. E dou corda, procuro de novo, gosto de saber que não deu certo mas podemos ser amigos, amantes, colegas, irmãos... cunhados, parentes... qualquer coisa assim. 
Devagar e sempre. Dizer oi e o que sente, conversar de novo, namorar de novo, tudo isso vale. Só não vale sumir da vida, tem que ter amor, pra continuar a viver e acreditar.

Uma vez disse pra um amigo que adorava que meus ex me cantassem a música de Chico:

Olhos nos olhos, quero ver o que você faz, ao sentir que sem você eu passo bem demais

Ele disse que eu era ótima de querer que a pessoa fique bem, na maioria das vezes as pessoas querem é se estrangular... mas eu acho que é triste desejar o mal com alguém que você já dividiu a cama, a conta, a cara amassada... eu acho.

Não tem dado certo sempre, mas a vida não é assim, toda certinha. Mas eu gosto de viver junto. Não com uma pessoa, com um monte mesmo, novas e velhas. 

Vamos nos permitir.



sábado, fevereiro 11, 2017

Flashlight.

Nos últimos dias, ele achou essa música que eu procurava há tanto tempo! Arrumando as malas e ouvindo essa música direto, nem era pra ser, mas acabou sendo a música que me lembra ele. 

Donald, you are my flahslight (through the night)


sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Conselhos.



Ele falou numa roda de capoeira, mas eu pego pra vida. Mestre Bimba, o bamba:

Olha, meus filhos, quando vocês estiverem andando na rua pela madrugada fiquem atentos, não dobrem a esquina junto à parede, dobrem pelo meio da rua, pois o malandro pode estar esperando do outro lado; não passem debaixo de árvore polpuda, pode ter alguém escondido na árvore lhe esperando com um paralelepípedo; se alguém lhe convidar para dormir na casa de desconhecido, durma de barriga para cima, um olho aberto e outro fechado, contando as telhas até de manhã; não demonstre para seus amigos e colegas fora da capoeira seus progressos; é muito melhor apanhar na roda do que apanhar na rua; quando for brigar com alguém não diga que vai bater nele, se aproxime conversando fiado quando estiver bem junto bata primeiro e certo; correr também é golpe; em lugares públicos não sente de costa para a entrada, não fique de bobeira para a surpresa, mantenha o olhar vigilante; e vale mais um aluno regular treinado do que um excelente capoeirista fora de forma.


CAMPOS, Hellio. Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba. Salvador: Edufba, 2009, p. 131.

Estrada.

Hoje, de novo, mais uma vez
A vida começa aos trinta e seis
Vou começar de novo (e desta vez, sem você)

E eu que achei que a gente ia ser pra sempre
Porta-bandeira e mestre-sala de um desfile chamado amor...


quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Expectativa.

Eu sofro com expectativas. Por isso mesmo, decidi retirar da minha vida essa sensação. De coisas, pessoas, de mim mesma, de lugares. Mas não é fácil. Vira e mexe ela me ronda. Eu luto com ela, briga feia mesmo.
Eu sei que vou sofrer quando espero por alguém. Eu fico com raiva de sentir raiva de alguém que eu deveria só amar, por causa da danada da expectativa. Poderia ser uma espera ativa, mas no fundo a gente sempre para no tempo, na vida, no amor, pra esperar. 
O corpo dói, meu coração também. Não quero esperar e nem imaginar coisas, ninguém merece esse sofrimento de uma resposta. Ninguém merece não saber que você tá com medo ou não sabe o que quer. As pessoas merecem ser felizes. 
A expectativa me faz mais descrente também, por isso não gosto dela. 

Prefiro ler um livro, ouvir música ou comer pipoca. 

Do fundo do meu coração.


(não volte nunca mais pra mim)

terça-feira, fevereiro 07, 2017

Aurora, Kiah Victoria.




Tente ouvir e não flutuar.
Música perfeita para fim de tese. Ouvindo pela casa, andando à noite, apertando o travesseiro, com raiva, com amor.
We can be aurora

Mestre Bimba - A capoeira iluminada.


segunda-feira, janeiro 30, 2017

J.

Sete anos, me ensinando a viver. Me ouviu falar "olha, tem uma menina preta ali", e me olhou e disse:
- Ai, ai, ai, ai...
Notei que ela falava "ai, ai" pra palavra preta. Perguntei porque e ela disse que isso era racismo. Expliquei pra ela que a palavra preta não era racismo, mas poderia ser, dependendo de como era usada.
- Se for de um jeito carinhoso, pode não ser racismo. Mas se for usada como xingamento, aí sim, é.
- Difícil de saber...
- É, é difícil mesmo... mas se eu disser assim: Jaine, você é uma pretinha linda, você entende que é diferente de "sua" preta?
- Eu entendo, né?
- Pois é isso...
- Mas continua difícil...
- É, o racismo é coisa difícil mesmo...

Sete anos e me ajudando a aprender como dizer coisas. 

The Fits.


domingo, janeiro 29, 2017

Adoção.

Sempre achei essa palavra linda, adoção. 

Por algum tempo, me perguntei se eu queria ser mãe e se queria ter uma criança saindo da minha barriga. Uma amiga disse que quer ficar grávida porque quer curtir isso e ver como o corpo responde e muda, quer sentir no corpo as transformações. Achei bonito, mas ainda assim acho que não estou completamente convencida de que terei um bebê da minha barriga. Ainda tenho tempo para pensar nisso. Até lá, adoção é um bom começo nessa estrada de ser mãe. 

Acho que também sempre tive um pouco de medo dessa responsabilidade. Achava que eu não teria tempo, que eu teria de abdicar de coisas para fazer isso, achava que não dava, não dava. Mas agora, é tudo ao contrário

Me sinto pronta para isso agora, com 36 anos. Sinto que agora, as coisas que quero viver comportam uma criança do lado. Uma ou mais. Quero viajar, conhecer lugares, mas tudo bem se puder fazer isso com uma criança junto. Quero ir ao cinema - ou desistir de ir - porque tenho ela na minha vida. Me peguei pensando que, no fim das contas, eu quero ter filhas e filhos mas não quero que pensem que eles dependem de mim. Eu quero que tenham a certeza que eu também dependerei da minha relação para ser feliz e uma pessoa melhor. Nesse sentido, ser mãe não é fazer pelo filho ou filha, é fazer pelos dois. Assim como os filhos e filhas também fazem pela gente. 

Li essa cartilha e vi que é bem mais fácil do que parece. Fiquei feliz só de pensar numa criança na minha vida. Isso deve querer dizer alguma coisa. 
Não tenho problemas com idade e até adotaria um casal de irmãos (adotaria até mais, se dinheiro tivesse!). 

Vamos ver o que acontece. Estou animada e pensando em muitas coisas novas que acontecerão depois que eu der o primeiro passo.