Você que me lê, me ajuda a nascer.

segunda-feira, novembro 28, 2016

quinta-feira, novembro 24, 2016

domingo, novembro 13, 2016

Mãe solteira.

Fizeram as mulheres pretas acreditarem que ser mãe solteira é uma vergonha. Fizeram a gente acreditar também que somos mães solteiras porque somos enjeitadas, mas ninguém nos conta que, não faz muito tempo, no Brasil, as mulheres pretas ficavam solteiras também porque não eram consideradas gente para ter acesso ao casamento como as mulheres brancas. Sem casamento, éramos consideradas incapazes de cuidar das crias e estas eram retiradas de nós. Quem conseguia ser 'mãe solteira', na verdade, empreendia uma luta ENORME para conseguir continuar junto das crias. Por isso, da próxima vez que quiserem te fazer se sentir mal por ser 'mãe solteira', responda dizendo "sou mãe solteira com orgulho, muitas antes de mim fizeram mil coisas para que hoje eu conseguisse ser uma mulher preta vivendo com minha cria. Se isso é 'pouco' para você, que passou a vida tendo tudo, quem deveria estar mal aqui não sou eu".

Nossas histórias são outras, nada de replicar por aí as narrativas alheias, bora descobrir nosso jeito de fazer e de sentir.


A 13ª Emenda.



Um filme sobre encarceramento em massa, um filme sobre racismo, um filme sobre capitalismo.

sábado, novembro 12, 2016

Homens pretos, se amem, nos amem (como antes, para sempre)

                                                                                                    Jaxyn e Benny Harlem
"Torna-se particularmente interessante a participação nada desprezível de muitos pais tutelados, que procuravam agir no sentido de atender às exigências legais para terem seus filhos de volta, ou ao menos vê-los em companhia de alguém de sua confiança. De acordo com a legislação da época, mulheres solteiras pobres (ou viúvas pobres) eram passíveis de terem seus filhos tutelados por outros, dada sua condição de 'incapaz' para bem criar e educar os filhos.

Ao que tudo indica, muitas dessas mulheres, de cujos cuidados eram tirados os filhos menores, eram solteiras somente no aspecto legal, pois muitos de seus companheiros - e pais das crianças tuteladas - apareciam em processos posteriores, requerendo a guarda dos filhos e buscando comprovar a paternidade, quer apresentando documento de perfilhação - nos quais reconheciam juridicamente a paternidade dos filhos - quer comprovando uma legítima união através de certidão de casamento, ou até mesmo casando-se legalmente com suas companheiras. Em alguns casos, padrastos assumiam a paternidade de seus enteados, na expectativa de assumir famílias dispersas"
PAPALI, Maria Aparecida Chaves Ribeiro. Escravos, libertos e órfãos: a construção da liberdade em Taubaté (1871-1895). São Paulo: Annablume: Fapesp, 2003, p. 185.

quarta-feira, novembro 09, 2016

O poder da tradução.




Eu não falo bem inglês. Há mais ou menos um ano, eu encasquetei que eu deveria aprender pelo menos a ler em inglês, pela importância que tinha para minhas aulas de pós-graduação.

Eu tinha uma péssima relação com a língua e já falei disso aqui. Mas comecei a me familiarizar, alguns namorados e amigas me ajudaram a querer falar um pouco mais e... agora, comecei a conseguir ler alguns textos em inglês e comecei a me surpreender. Em primeiro lugar, porque alguns textos que eu considerava possuir alguma informação valiosa, não passam de textos muito ruins, que em português eu nem me daria o luxo de ler além do resumo. Alguns textos em inglês, muito atuais por sinal, escrevem como a se a realidade fosse daquele jeito – por exemplo, ao estudar crianças de 03 anos, a autora diz de maneira imperativa: “As crianças de 03 anos não sabem isso ou sabem aquilo” – algo que em textos brasileiros tem sido execrado há muito tempo. Eu particularmente tenho dificuldade em gostar de textos assim, mas talvez esse seja um problema da língua, me expliquem os tradutores. Em segundo, porque percebi que nós não estamos produzindo nada abaixo ou aquém do que muita gente que escreve em inglês tem feito e, inclusive, ao ver muito dos nossos problemas de análise e interpretação em outra língua, senti que não perdi tanto. Aliás, a gente tá sintonizada com essa galera até porque, assim como eu agora, muita gente já lê inglês faz tempo.

Minha área de pesquisa não tem uma vasta produção em inglês. Assim como em espanhol, português e italiano, poucos são os livros sobre infância e relações raciais escritos em inglês, com uma perspectiva que tenha relação com o meu trabalho atual. Não estou dizendo que não existem livros interessantes. Claro que há, mas eles também existem no Brasil e para mim, me servem mais, porque alguns partem do ponto de vista que eu pesquiso. Ler em inglês só me fez confirmar que saber inglês não é incondicionalmente importante para minha produção "intelectual" (inclusive as autoras que li em inglês mais bacanas são as que dizem que devemos olhar mais para nós mesmas!). Hoje, eu tenho à minha disposição mais material pra ler – o que inclui muita porcaria – mas talvez isso só me faça ter mais problemas para eleger que caminho seguir. Seria ótimo poder saber mais para escolher melhor mas, às vezes, isso é inviável em quatro anos.

Mas aí me dizem, ah, a internacionalização. Ela é feita em inglês e é importante que mais pessoas saibam mais que você está fazendo. Eu concordo em parte com isso. Para mim, só é importante que mais gente saiba o que eu estou fazendo se não for para que o estudo que eu faço vire “regra” ou uma generalização de determinado fenômeno ou grupo social. Não quero escrever para dizer que é como eu sei, escrevo para entender as coisas, é isso. Desse modo, pensar que a internacionalização por si só justifica esse poder conferido ao inglês é uma resposta muito superficial à questão que, no Brasil, envolve relações de poder, acesso e oportunidade.

Sou a favor da internacionalização, mas eu nunca entendi porque é que nas universidades não há um investimento pesado em áreas de tradução para o inglês, já que faz parte do tal compromisso com a sociedade a coisa da divulgação. Todos os departamentos deveriam ter sua secretaria de tradução, com gente trabalhando para botar o bloco da universidade na rua, garantindo assim que tanto a professora massa que sabe muito mas não teve acesso ao inglês desde criança seja estimulada a escrever, assim aquelas pessoas que sabem muito o inglês. Aproveito para falar que os congressos internacionais precisam de tradutores, ponto. A gente paga um absurdo nesses eventos, mas se talvez houvessem secretaria de tradução, estas também pudessem colaborar com os congressos. Mas taí. A universidade não se ocupa disso e favorece o que eu chamo aqui de “o poder da tradução”.

Sim, há um valor agregado – e ele é alto – para as pessoas quem sabem inglês. Não qualquer outra língua, mas inglês, visto que ela é tida por muita gente como a língua universal. Eu prefiro chamar de a língua do mundo do trabalho. As pessoas que sabem inglês acabam sendo beneficiadas apenas por saberem inglês. A gente quem mais facilmente tem acesso ao inglês no Brasil pertence a um certo grupo de classe média e alta que estudam em escolas bilíngues ou pagam cursos particulares às crianças desde a tenra idade, ou mesmo aqueles que, casados e casadas com gringos, falam com seus filhos e filhas em inglês desde que eles nascem, porque sabem o poder que há em saber inglês. Não, eu não estou desmerecendo as pessoas que são pobres e correm atrás e acabam aprendendo de algum jeito. Eu acho isso massa, mas eu estou dizendo que essas pessoas tem que cortar um dobrado para aprender um tipo de conhecimento super valorizado em nosso país,

Saber inglês e o poder que isso tem, isso não é novidade aqui. O que eu chamo atenção é como, na universidade, as pessoas que sabem inglês muita vezes não tem mais nada a dizer além da tradução. Elas conseguem se sobressair em qualquer lugar porque detém o poder da tradução, o que faz com que muita gente vire refémdo que elas dizem. Certas vezes até mesmo professoras e professores de longa data que não dominam o idioma acabam por, por necessidade mesmo, favorecer quem fala e entende bem o inglês! O poder da tradução acaba por colaborar para que ela realmente acredite que apenas com ele vai conseguir o que deseja, já que muitos cursos de pós-graduação tem peneirado os/as estudantes a partir do conhecimento de uma língua e não a partir dos projetos de pesquisa. Não preciso nem citar quais os programas que fazem isso, basta abrir os editais dos processos seletivos para entrada nos mestrados e doutorados para ver a penca de programas que colocam o domínio da língua como etapa eliminatória. Muitas vezes, uma enxurrada de bons projetos vão embora nessa levada, mas a universidade não parece querer saber como resolver isso.

O sistema todo é tão perverso que faz com quem não domine o inglês diga sim para textos em inglês e simplesmente passe todo o semestre ignorando o texto, sem assumir nem para si mesmo que não entende patavinas do que está escrito. Claro que num espaço tão excludente como a universidade, as pessoas morrem de vergonha de dizer que não leem - eu mesma, nas primeiras vezes em que fui perguntada, disse que sim! -, mas o que mais deprime são pessoas que, mesmo não lendo inglês, aceitam seminários com textos em inglês - ou francês, muitas vezes! - sem nada dizer ao professor e nem ao colega do seminário, que pode muito bem ajudar com a tradução! Não é vergonha não saber inglês. Se você não sabe, provavelmente faz parte de um grupo que não teve acesso a esse conhecimento e quem deveria ter vergonha disso somos todos nós, uma sociedade que ainda não conseguiu oportunizar a todas as pessoas a mesma educação. Mas eu entendo que é difícil dizer não, eu não sei ler em inglês, quando às vezes até o professor também lê mal mas mesmo assim, põe o texto pra debate (lendo uma tradução que ele tem de algum amigo da época da faculdade).

O ponto central desta questão diz respeito a algo que eu considero mais grave do que mentir que entende inglês (considerando que a mentira não começa no/a estudante, mas sim no sistema, que permite certas aberrações em torno da língua): agora, mais do que antes, quando eu não lia nada em inglês, tenho ido para eventos e reuniões em que as pessoas que sabem inglês precisam falar sobre um texto e tudo o que elas fazem é apenas resumir a ideia central, coisa que aprendi na oitava série (sim, eu aprendi a resumir na oitava série, numa escola pública num bairro de periferia em Salvador, com uma professora branca que elogiava meus textos), mas não há críticas ao texto, não há relações com outros textos. Muitas vezes, não conhecem nem o trabalho das autoras, é só o texto ali, seco, sem nem um gole d'água. Um texto que, sem entendermos o contexto – político, social – de sua produção, periga de ao invés de nos ajudar, só atrapalhar. Mas muitas pessoas estão ali, refém da informação que a tal tradutora vai fazer, não pega bem dizer “mas é só isso?”.

Os textos que tenho lido em inglês informam algo, mas não salvaram minha vida, como o poder da tradução gosta de supor. Talvez, vá saber, o poder da tradução sirva para alguma coisa. É que não serviu pra mim, e por isso não sei medir seu valor. Talvez ele esteja bem ajustado no mundo acadêmico em que estamos e não precise de reparos. Talvez.

Para acabar, finalizo com três coisinhas que acabei por aprender:

Aprenda inglês, mas não acredite que isso vai fazer de você um “intelectual”, em qualquer sentido que quiser dar a palavra;

Aprenda inglês, mas não deixe de aprender a escrever e, principalmente,

Aprenda inglês, mas não esqueça de duvidar.

domingo, novembro 06, 2016

Cabelo 'bom' em cabeça 'bem'.



Se alguém me perguntar sobre minha infância e cabelo, com certeza de cara vou lembrar da minha mãe no hospital, quando foi parir meu irmão mais novo. Na ocasião meu pai cortou meu cabelão e o de minha irmã por não querer, não saber e não gostar de pentear.

Mesmo meus cabelos sendo grandes e cheios, minha mãe nunca reclamou de penteá-los e até hoje lembro de vários dos penteados nada convencionais que ela inventava e nos mandava para a escola, na época eu não gostava muito, mas hoje eu acho que até os repetiria, se tivesse filhas.

Lembro-me que na escola, certa vez, um dos penteados pareceu engraçado para minhas colegas. Eu era muito, muito tímida e não havia ainda descoberto que precisava de óculos e, por isso, sentava-me à frente com aquele monte de cabelo que atrapalhava as demais crianças, que riam do penteado que até eu mesma achava estranho a altura. Anos depois, vim saber que minha avó, mãe da minha mãe, falou algo sobre ela casar com meu pai por causa dos filhos que nasceriam com 'cabelo duro'. Felizmente, fiquei sabendo disso muito tempo depois de ter nascido.

Nos primeiros anos de escola, talvez por serem todas as crianças negras, vai saber, eu não associava os chistes à questão racial. Acho que o fato da minha mãe nunca reclamar dos nossos cabelos, meu e da minha irmã, fez com que minha relação com o cabelo não fosse tão ruim na infância. Claro que eu tive questões com cabelo, corpo, rosto, sorriso e dentes, como toda criança e adolescente, mas o que eu digo é que a essa altura ainda não me sentia menor ou inferior por isso.

Minha mãe deixou meu cabelo crescer novamente e dos cinco aos quinze anos mantive meu cabelo natural. Não imaginava escovar ou ter que alisá-lo. Eu não o usava solto, mas isso tem mais a ver com o fato de não saber como fazer com ele ou como cuidar do que com propriamente chamamos 'aceitação' nos dias de hoje. Tinha pouca informação sobre como cuidar do cabelo e, claro, o racismo nos alcançava, mas não me fazendo não ter autoestima e sim porque eu simplesmente não era levada em consideração pelo mercado de cosméticos, que a mim só dava uma opção: alisar.

Senti vontade de relaxar o cabelo apenas quando saí do bairro onde morava e passei a conviver parte do dia numa escola de um bairro de classe média de Salvador. Quase três anos depois dessa convivência, pedi a minha mãe que me deixasse relaxar o cabelo para o dia da formatura. Ainda posso ver os efeitos desse primeiro relaxamento nas fotografias, muito embora o relaxamento não tenha tido grande efeito, já que era a primeira vez e o cabelo estava completamente ‘virgem’. Tive assim, não um cabelo alisado, apenas menos cheio. Nunca gostei de escova e, quando a cabeleireira que relaxou falou em escovar, eu disse não! Sempre achei o efeito da escova horrível. Fico pensando e acho que isso tem a ver com minha mãe. Ela sempre achava horrível tudo que não era ‘natural’. Entenda-se ‘natural’, por ‘ser como é’. Se ele era cheio e enrolado, ela achava que esse jeito era bonito e pronto.

A onda do relaxamento me pegou dos 15 aos 19 anos. Depois, cortei o cabelo bem curtinho. Depois desse corte, tive dreadlocks por dois anos. No fim da faculdade, cortei curto novamente porque achei que com dreadlocks seria difícil arrumar emprego (é aqui que eu vejo como eu já estava sacando qual eram as 'adaptações' que eu deveria fazer para ser aceita em alguns lugares).

Com 23 anos voltei a relaxar o cabelo e fiz isso por aproximadamente três anos. Eu tinha novamente saído dos lugares onde vivia para uma cidade onde o preconceito acontecia de modo sistemático com migrantes negras, vindas da Bahia (“baianada” era mesmo um adjetivo pejorativo ali). Meu cabelo continuava sendo muito cheio e um novo corte que 'diminuía o volume' foi me apresentado por uma cabeleireira, de modo que eu relaxava e cortava o cabelo nesse molde para que ele não ficasse tão cheio como era. Ainda assim, em comparação a qualquer cabelo liso, ele era bem cheio. Uns três anos depois, já empregada, me sentindo mais confiante para fazer o que me desse na telha, parei de relaxar. De lá para cá (e já são dez anos!), eu mantenho meu cabelo natural e curto, principalmente porque ele deixou de crescer como antes. Uso tranças e já coloquei tranças compridas de kanekalon, mas logo sinto saudades e volto a usar o meu cabelo natural. 

Fiz um resumo da minha vida capilar para dizer que mesmo eu, que nunca tive obsessão por alisamento, fui pega por essa ideia de que o cabelo liso ou menos crespo é “mais fácil de cuidar”. Também acreditei por algum tempo que quem tinha o cabelo menos crespo se sentia bem todos os dias quando acordava. Basicamente é isso que estas propagandas sobre cabelo liso vendem: a ideia de que quem tem cabelo liso está sempre bem e com a autoestima lá em cima.

Mas não, isso não pode ser real. Uma amiga que alisa o cabelo há muito tempo me disse que acha o meu cabelo o máximo porque ele “fica do jeito que eu boto”. Isso não é bem verdade, cabelos crespos podem não sair do lugar, mas amassam e a gente também precisa de espelho. Ainda assim, a fala dela me alertou para o fato de que todas as pessoas têm dias ruins com seus cabelos. Ter um dia ruim com seu cabelo não é o problema, o problema mesmo é o preconceito que o cabelo crespo ainda enfrenta nos dias atuais.

Isso porque, mesmo para ter cabelo crespo, ele precisa ser 'o' crespo. Aquele que está na moda e é almejado. É uma luta constante para fazer parte e estar dentro desse seleto grupo de pessoas que conseguem ser bonitas. O meu cabelo não é 'o' crespo e, por isso, ele continua não sendo visto. A coisa toda é bem triste. Eu noto, faz algum tempo, que muitas pessoas me olham como se eu fosse alguém que me cuidasse menos porque tenho cabelo crespo. “Já que eu não aliso, eu não me cuido”. Algumas vezes, ao estar com mulheres que alisam o cabelo ou tem cabelo liso, me sinto não apenas diferente, mas por vezes inferior, como se não tivesse atingido um patamar de mulher. Isso me foi dito por uma menina de cinco anos que quando me conheceu, perguntou-me quando é que eu alisaria o cabelo para virar “mulher-gente”.

Acho que não fico tão mal com essas situações porque tenho alguma leitura sobre raça e classe, senão elas me pegariam de cheio (ou não, vai saber, vai ver eu sou assim mesmo). Depois de um tempo, percebi que o incômodo está na diferença, então de certa forma as pessoas de cabelo liso e que querem ser iguais a um padrão, elas também se incomodam com você ali, sendo diferente e vivendo sua vida ("Como assim, ela feliz e não é padrão? Não, não pode, ela deveria estar triste como eu. Aliás, mais triste do que eu, porque, afinal, ela tem cabelo e nem é 'o' crespo!). Quando descobri isso, me incomodei menos e acho que incomodo mais. Mas claro, tudo isso é muito chato, tem dias que você só quer sair de casa e tomar um sorvete, sem se preocupar com nada. Mas não, isso não parece ser comum para nós, pessoas sempre em alerta.

Certa vez uma colega me disse que gostava do meu cabelo porque isso me dava um “ar selvagem”. Enquanto escrevo essas palavras e lembro dessas coisas, tudo parece muito estranho, mas é assim que já senti que as pessoas me viam, selvagem e exótica, além da já comentada ideia de desleixada. 

As mensagens que ecoam se complementam: primeiro é a de que, para nós, mulheres negras, para deixarmos de ser crianças e sermos vistas como mulheres, precisamos abandonar a “natureza” e ir de encontro a cultura. Assim, para tornar-me pessoa, preciso modificar partes do meu corpo. É preciso perseguir essa ideia de norma – que é branca, não por coincidência.

Todo mundo quer ser alguém mas, para nós, ser alguém é ser um outro. E para atingirmos o lugar de “alguém”, ideia que se confunde com a ideia de branquitude e humanidade, só com mutilação. A ilustração dessa ideia acontece quando vemos mulheres negras que modificaram seu corpo com suas filhas: estas, ainda pequenas, tem cabelos crespos e estão mais próximas à “natureza”. Quando crescem, mudam o corpo e tornam-se mulheres, vinculando-se à ideia de “cultura”. A pergunta que fica talvez seja: Em que espelho do tempo mãe e filha se veem? Será que se encontram?

Infelizmente, continuamos a achar que só quando crescemos é que podemos 'ser alguém'. Crescer seria então, nos tornarmos aquilo que nunca fomos – e que nós, mulheres negras, nunca alcançaremos em sua 'perfeição'. De modo muito cruel, estamos todas chafurdadas em racismo e preconceito, sejam eles naturais ou culturais. Espero que dias melhores tragam cachos e carapinhas ‘bons’ em cabeças ‘bem’.

Killa.


terça-feira, novembro 01, 2016