Você que me lê, me ajuda a nascer.

sábado, dezembro 24, 2016

Des-Fazendo raça: a auto-definição racial em Rachel Dolezal, por Ana Lúcia Santos

Como eu sempre sei das coisas muito depois, dá tempo de pessoas escreverem coisas maravilhosas como esse artigo aqui sobre o caso Rachel Dolezal. Tem outro texto massa aqui.



Ah, só mais uma coisa. Respeitem Rachel Dolezal. Respeitem-se.

Jayna Brown.

Eu assisto esses vídeos no Youtube e choro. Gosto mais dessa versão do que a da cantora. Vai entender a vida. Acho que foi um momento especial. Gosto na verdade da edição, acho que fizeram tudo para me fazer chorar.


Rubble Kings - Os reis do Bronx.


sexta-feira, dezembro 23, 2016

quinta-feira, dezembro 22, 2016

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Julia Vita.

Dificilmente encontro textos que me representam porque sempre acho que quem fala melhor sobre mim sou eu mesma. Mas às vezes, bem às vezes, acabo encontrando alguns que acho realmente muito bons.
Julia Vita, queria ver você.
'Sobre aquela mesma coisa de sempre disfarçada de amor livre', aqui.
'Sobre ciúmes e a posição da mulher na luta não-monogâmica', aqui.

A Grande aposta.


segunda-feira, dezembro 19, 2016

Manual Prático do ódio, Ferréz.



Comprei este livro no Porto (PT), por um valor que não encontraria aqui (menos de 10 reais). Comecei a ler e terminei em duas semanas, porque estava lendo outras coisas, mas também porque quando começo a gostar de um livro, quero ir devagar, sorvendo as palavras.
O livro é bom, mas ainda fico com Capão Pecado, o primeiro livro de Ferréz. É que talvez para mim Capão Pecado tenha um outro significado, na época eu morava em SP e bem perto do Capão, tinha parentes emprestados que moravam lá...
O ritmo do livro é em geral muito bom, com algumas perdas aqui e ali, mas nada que comprometa a ideia geral que o Ferréz conta. A história se passa em torno de um grupo de comparsas que estão organizando um assalto e a partir desse fio ele vai construindo as personagens. Para mim, que leio livros como esses faz um tempo, não há muita novidade, mas como é bem escrito, prende a atenção do mesmo jeito (acho que o livro pode ser visto como sensacional por adolescentes e jovens, eu sou uma 'senhora'...). Ferréz preocupou-se em criar uma personagem feminina que, chega ao fim do livro sem tanta atuação, mas toma decisões que, se podem parecer inesperadas com relação ao que o livro nos apresenta, não destoa muito daquilo que pensamos ser as atitudes típicas de mulheres.
Ainda assim, o livro me envolveu, porque reconheci no texto pessoas muito próximas e até pude entender algumas de suas atitudes também. Nesse sentido, me disse alguma coisa mais do que terapias que usam modelos eurocêntricos de explicação da realidade, porque fala da gente, nossas coisas, nosso povo, nosso jeito.
O desafio pro Ferréz será sempre o de superar a si próprio nos bons livros que ele escreve, mas eu tenho certeza que ele já sabe disso.





sábado, dezembro 17, 2016

terça-feira, dezembro 13, 2016

segunda-feira, dezembro 12, 2016

Arjan Martins.

Que Cândido Portinari, que nada. Sou mais Arjan Martins.


                                                                                                       Sem título


Da série “Américas”, 2013, acrílica sobre tela, 1,85x1,90, coleção do artista

                                                                   Sem título



Arjan Martins trabalha em seu ateliê em Santa Teresa, Rio de Janeiro, RJ, foto: Pepe Schettino

Serena Assumpção.

A morte é uma companheira. Descobri Serena há poucos dias. Descobri também que ela morreu no começo desse ano. 
Ascensão.


segunda-feira, dezembro 05, 2016

domingo, dezembro 04, 2016

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Deus salve a criança, Toni Morrison.


Este livro ainda não está disponível no Brasil, mas não demora sair. Toni é brocativa e tem sempre edição brasileira. Basta esperar um pouco. 
Não é o livro de Toni que mais amo, mas amo Toni e sou fiel aos meus amores literários. 
Inicialmente, o livro me levou a pensar que não gostaria dele, já que tratava de pedofilia, um tema que sobre o qual não me interessa ler. Mas para minha surpresa, o livro fala disso, mas não é SOBRE ISSO, se é que eu consigo ser clara sobre o livro sem falar do texto.  
Sua escrita revira minha cabeça e é de longe minha escritora preferida. Eu amo Toni porque ela me conhece e, ao escrever, me faz conhecê-la também. Eu a sinto como se fosse da minha família e acho que se a encontrasse na rua, eu diria, "Oi, Toni, porque você não aparece lá em casa?". 


O livro trata da história de Bride, que não consegue ser amada pela mãe Sweetness porque sua pele é "negra como a noite, negra do Sudão". Entendemos então que a cor da pele é a superfície onde se escondem os motivos pelos quais Sweet não ama incondicionalmente Bride; é também por causa de um pouco desse amor que Bride acaba por mentir sobre um assunto que muda a vida de outras pessoas, também negras, e acaba por afastar outras pessoas que a amam.

Toni nos apresenta então não um círculo viciado de histórias de (des)amor e sofrimento, mas uma história - ou várias - espiraladas de sentimentos, em que conhecemos outras personagens que são feitas de amor, violência, solidão e medo. Como em outros livros, Toni usa seu estilo polifônico para fazer surgir as vozes que muitas vezes ficam submersas em outros textos centrados em uma ou duas protagonistas. A ligeira confusão que pode-se ter ao ler seus livros e que nos faz voltar algumas páginas e confirmar nomes e lugares pode ser a chave para tornar essa autora alguém que consegue ser tão profunda mesmo num livro com 160 páginas. Ao voltamos as páginas, nos enredamos mais ainda nas histórias, descobrimos paralelos, aprendemos sobre nossa gente. Ao lermos novamente, a história nos pega, nos envolve, não nos larga. Toni é retada. 

Agora, escrevendo sobre o livro, eu acabei por descobrir que eu o amo mais do que eu pensava. São assim os bons livros.

Há alguns dias, ganhei outro livro de Toni, este chamado Love e já publicado no Brasil (Amor, Companhia das Letras, 2016). Emocionei-me com o presente porque ele veio de alguém com quem construí uma relação que, tenho certeza, é de amor.

Como diz Dona Noi, 'vida deus me dê' para ler todos os livros de Toni. 

Bem-vindo a Marly-Gormont.


segunda-feira, novembro 28, 2016

quinta-feira, novembro 24, 2016

domingo, novembro 13, 2016

Mãe solteira.

Fizeram as mulheres pretas acreditarem que ser mãe solteira é uma vergonha. Fizeram a gente acreditar também que somos mães solteiras porque somos enjeitadas, mas ninguém nos conta que, não faz muito tempo, no Brasil, as mulheres pretas ficavam solteiras também porque não eram consideradas gente para ter acesso ao casamento como as mulheres brancas. Sem casamento, éramos consideradas incapazes de cuidar das crias e estas eram retiradas de nós. Quem conseguia ser 'mãe solteira', na verdade, empreendia uma luta ENORME para conseguir continuar junto das crias. Por isso, da próxima vez que quiserem te fazer se sentir mal por ser 'mãe solteira', responda dizendo "sou mãe solteira com orgulho, muitas antes de mim fizeram mil coisas para que hoje eu conseguisse ser uma mulher preta vivendo com minha cria. Se isso é 'pouco' para você, que passou a vida tendo tudo, quem deveria estar mal aqui não sou eu".

Nossas histórias são outras, nada de replicar por aí as narrativas alheias, bora descobrir nosso jeito de fazer e de sentir.


A 13ª Emenda.



Um filme sobre encarceramento em massa, um filme sobre racismo, um filme sobre capitalismo.

sábado, novembro 12, 2016

Homens pretos, se amem, nos amem (como antes, para sempre)

                                                                                                    Jaxyn e Benny Harlem
"Torna-se particularmente interessante a participação nada desprezível de muitos pais tutelados, que procuravam agir no sentido de atender às exigências legais para terem seus filhos de volta, ou ao menos vê-los em companhia de alguém de sua confiança. De acordo com a legislação da época, mulheres solteiras pobres (ou viúvas pobres) eram passíveis de terem seus filhos tutelados por outros, dada sua condição de 'incapaz' para bem criar e educar os filhos.

Ao que tudo indica, muitas dessas mulheres, de cujos cuidados eram tirados os filhos menores, eram solteiras somente no aspecto legal, pois muitos de seus companheiros - e pais das crianças tuteladas - apareciam em processos posteriores, requerendo a guarda dos filhos e buscando comprovar a paternidade, quer apresentando documento de perfilhação - nos quais reconheciam juridicamente a paternidade dos filhos - quer comprovando uma legítima união através de certidão de casamento, ou até mesmo casando-se legalmente com suas companheiras. Em alguns casos, padrastos assumiam a paternidade de seus enteados, na expectativa de assumir famílias dispersas"
PAPALI, Maria Aparecida Chaves Ribeiro. Escravos, libertos e órfãos: a construção da liberdade em Taubaté (1871-1895). São Paulo: Annablume: Fapesp, 2003, p. 185.

quarta-feira, novembro 09, 2016

O poder da tradução.




Eu não falo bem inglês. Há mais ou menos um ano, eu encasquetei que eu deveria aprender pelo menos a ler em inglês, pela importância que tinha para minhas aulas de pós-graduação.

Eu tinha uma péssima relação com a língua e já falei disso aqui. Mas comecei a me familiarizar, alguns namorados e amigas me ajudaram a querer falar um pouco mais e... agora, comecei a conseguir ler alguns textos em inglês e comecei a me surpreender. Em primeiro lugar, porque alguns textos que eu considerava possuir alguma informação valiosa, não passam de textos muito ruins, que em português eu nem me daria o luxo de ler além do resumo. Alguns textos em inglês, muito atuais por sinal, escrevem como a se a realidade fosse daquele jeito – por exemplo, ao estudar crianças de 03 anos, a autora diz de maneira imperativa: “As crianças de 03 anos não sabem isso ou sabem aquilo” – algo que em textos brasileiros tem sido execrado há muito tempo. Eu particularmente tenho dificuldade em gostar de textos assim, mas talvez esse seja um problema da língua, me expliquem os tradutores. Em segundo, porque percebi que nós não estamos produzindo nada abaixo ou aquém do que muita gente que escreve em inglês tem feito e, inclusive, ao ver muito dos nossos problemas de análise e interpretação em outra língua, senti que não perdi tanto. Aliás, a gente tá sintonizada com essa galera até porque, assim como eu agora, muita gente já lê inglês faz tempo.

Minha área de pesquisa não tem uma vasta produção em inglês. Assim como em espanhol, português e italiano, poucos são os livros sobre infância e relações raciais escritos em inglês, com uma perspectiva que tenha relação com o meu trabalho atual. Não estou dizendo que não existem livros interessantes. Claro que há, mas eles também existem no Brasil e para mim, me servem mais, porque alguns partem do ponto de vista que eu pesquiso. Ler em inglês só me fez confirmar que saber inglês não é incondicionalmente importante para minha produção "intelectual" (inclusive as autoras que li em inglês mais bacanas são as que dizem que devemos olhar mais para nós mesmas!). Hoje, eu tenho à minha disposição mais material pra ler – o que inclui muita porcaria – mas talvez isso só me faça ter mais problemas para eleger que caminho seguir. Seria ótimo poder saber mais para escolher melhor mas, às vezes, isso é inviável em quatro anos.

Mas aí me dizem, ah, a internacionalização. Ela é feita em inglês e é importante que mais pessoas saibam mais que você está fazendo. Eu concordo em parte com isso. Para mim, só é importante que mais gente saiba o que eu estou fazendo se não for para que o estudo que eu faço vire “regra” ou uma generalização de determinado fenômeno ou grupo social. Não quero escrever para dizer que é como eu sei, escrevo para entender as coisas, é isso. Desse modo, pensar que a internacionalização por si só justifica esse poder conferido ao inglês é uma resposta muito superficial à questão que, no Brasil, envolve relações de poder, acesso e oportunidade.

Sou a favor da internacionalização, mas eu nunca entendi porque é que nas universidades não há um investimento pesado em áreas de tradução para o inglês, já que faz parte do tal compromisso com a sociedade a coisa da divulgação. Todos os departamentos deveriam ter sua secretaria de tradução, com gente trabalhando para botar o bloco da universidade na rua, garantindo assim que tanto a professora massa que sabe muito mas não teve acesso ao inglês desde criança seja estimulada a escrever, assim aquelas pessoas que sabem muito o inglês. Aproveito para falar que os congressos internacionais precisam de tradutores, ponto. A gente paga um absurdo nesses eventos, mas se talvez houvessem secretaria de tradução, estas também pudessem colaborar com os congressos. Mas taí. A universidade não se ocupa disso e favorece o que eu chamo aqui de “o poder da tradução”.

Sim, há um valor agregado – e ele é alto – para as pessoas quem sabem inglês. Não qualquer outra língua, mas inglês, visto que ela é tida por muita gente como a língua universal. Eu prefiro chamar de a língua do mundo do trabalho. As pessoas que sabem inglês acabam sendo beneficiadas apenas por saberem inglês. A gente quem mais facilmente tem acesso ao inglês no Brasil pertence a um certo grupo de classe média e alta que estudam em escolas bilíngues ou pagam cursos particulares às crianças desde a tenra idade, ou mesmo aqueles que, casados e casadas com gringos, falam com seus filhos e filhas em inglês desde que eles nascem, porque sabem o poder que há em saber inglês. Não, eu não estou desmerecendo as pessoas que são pobres e correm atrás e acabam aprendendo de algum jeito. Eu acho isso massa, mas eu estou dizendo que essas pessoas tem que cortar um dobrado para aprender um tipo de conhecimento super valorizado em nosso país,

Saber inglês e o poder que isso tem, isso não é novidade aqui. O que eu chamo atenção é como, na universidade, as pessoas que sabem inglês muita vezes não tem mais nada a dizer além da tradução. Elas conseguem se sobressair em qualquer lugar porque detém o poder da tradução, o que faz com que muita gente vire refémdo que elas dizem. Certas vezes até mesmo professoras e professores de longa data que não dominam o idioma acabam por, por necessidade mesmo, favorecer quem fala e entende bem o inglês! O poder da tradução acaba por colaborar para que ela realmente acredite que apenas com ele vai conseguir o que deseja, já que muitos cursos de pós-graduação tem peneirado os/as estudantes a partir do conhecimento de uma língua e não a partir dos projetos de pesquisa. Não preciso nem citar quais os programas que fazem isso, basta abrir os editais dos processos seletivos para entrada nos mestrados e doutorados para ver a penca de programas que colocam o domínio da língua como etapa eliminatória. Muitas vezes, uma enxurrada de bons projetos vão embora nessa levada, mas a universidade não parece querer saber como resolver isso.

O sistema todo é tão perverso que faz com quem não domine o inglês diga sim para textos em inglês e simplesmente passe todo o semestre ignorando o texto, sem assumir nem para si mesmo que não entende patavinas do que está escrito. Claro que num espaço tão excludente como a universidade, as pessoas morrem de vergonha de dizer que não leem - eu mesma, nas primeiras vezes em que fui perguntada, disse que sim! -, mas o que mais deprime são pessoas que, mesmo não lendo inglês, aceitam seminários com textos em inglês - ou francês, muitas vezes! - sem nada dizer ao professor e nem ao colega do seminário, que pode muito bem ajudar com a tradução! Não é vergonha não saber inglês. Se você não sabe, provavelmente faz parte de um grupo que não teve acesso a esse conhecimento e quem deveria ter vergonha disso somos todos nós, uma sociedade que ainda não conseguiu oportunizar a todas as pessoas a mesma educação. Mas eu entendo que é difícil dizer não, eu não sei ler em inglês, quando às vezes até o professor também lê mal mas mesmo assim, põe o texto pra debate (lendo uma tradução que ele tem de algum amigo da época da faculdade).

O ponto central desta questão diz respeito a algo que eu considero mais grave do que mentir que entende inglês (considerando que a mentira não começa no/a estudante, mas sim no sistema, que permite certas aberrações em torno da língua): agora, mais do que antes, quando eu não lia nada em inglês, tenho ido para eventos e reuniões em que as pessoas que sabem inglês precisam falar sobre um texto e tudo o que elas fazem é apenas resumir a ideia central, coisa que aprendi na oitava série (sim, eu aprendi a resumir na oitava série, numa escola pública num bairro de periferia em Salvador, com uma professora branca que elogiava meus textos), mas não há críticas ao texto, não há relações com outros textos. Muitas vezes, não conhecem nem o trabalho das autoras, é só o texto ali, seco, sem nem um gole d'água. Um texto que, sem entendermos o contexto – político, social – de sua produção, periga de ao invés de nos ajudar, só atrapalhar. Mas muitas pessoas estão ali, refém da informação que a tal tradutora vai fazer, não pega bem dizer “mas é só isso?”.

Os textos que tenho lido em inglês informam algo, mas não salvaram minha vida, como o poder da tradução gosta de supor. Talvez, vá saber, o poder da tradução sirva para alguma coisa. É que não serviu pra mim, e por isso não sei medir seu valor. Talvez ele esteja bem ajustado no mundo acadêmico em que estamos e não precise de reparos. Talvez.

Para acabar, finalizo com três coisinhas que acabei por aprender:

Aprenda inglês, mas não acredite que isso vai fazer de você um “intelectual”, em qualquer sentido que quiser dar a palavra;

Aprenda inglês, mas não deixe de aprender a escrever e, principalmente,

Aprenda inglês, mas não esqueça de duvidar.

domingo, novembro 06, 2016

Cabelo 'bom' em cabeça 'bem'.



Se alguém me perguntar sobre minha infância e cabelo, com certeza de cara vou lembrar da minha mãe no hospital, quando foi parir meu irmão mais novo. Na ocasião meu pai cortou meu cabelão e o de minha irmã por não querer, não saber e não gostar de pentear.

Mesmo meus cabelos sendo grandes e cheios, minha mãe nunca reclamou de penteá-los e até hoje lembro de vários dos penteados nada convencionais que ela inventava e nos mandava para a escola, na época eu não gostava muito, mas hoje eu acho que até os repetiria, se tivesse filhas.

Lembro-me que na escola, certa vez, um dos penteados pareceu engraçado para minhas colegas. Eu era muito, muito tímida e não havia ainda descoberto que precisava de óculos e, por isso, sentava-me à frente com aquele monte de cabelo que atrapalhava as demais crianças, que riam do penteado que até eu mesma achava estranho a altura. Anos depois, vim saber que minha avó, mãe da minha mãe, falou algo sobre ela casar com meu pai por causa dos filhos que nasceriam com 'cabelo duro'. Felizmente, fiquei sabendo disso muito tempo depois de ter nascido.

Nos primeiros anos de escola, talvez por serem todas as crianças negras, vai saber, eu não associava os chistes à questão racial. Acho que o fato da minha mãe nunca reclamar dos nossos cabelos, meu e da minha irmã, fez com que minha relação com o cabelo não fosse tão ruim na infância. Claro que eu tive questões com cabelo, corpo, rosto, sorriso e dentes, como toda criança e adolescente, mas o que eu digo é que a essa altura ainda não me sentia menor ou inferior por isso.

Minha mãe deixou meu cabelo crescer novamente e dos cinco aos quinze anos mantive meu cabelo natural. Não imaginava escovar ou ter que alisá-lo. Eu não o usava solto, mas isso tem mais a ver com o fato de não saber como fazer com ele ou como cuidar do que com propriamente chamamos 'aceitação' nos dias de hoje. Tinha pouca informação sobre como cuidar do cabelo e, claro, o racismo nos alcançava, mas não me fazendo não ter autoestima e sim porque eu simplesmente não era levada em consideração pelo mercado de cosméticos, que a mim só dava uma opção: alisar.

Senti vontade de relaxar o cabelo apenas quando saí do bairro onde morava e passei a conviver parte do dia numa escola de um bairro de classe média de Salvador. Quase três anos depois dessa convivência, pedi a minha mãe que me deixasse relaxar o cabelo para o dia da formatura. Ainda posso ver os efeitos desse primeiro relaxamento nas fotografias, muito embora o relaxamento não tenha tido grande efeito, já que era a primeira vez e o cabelo estava completamente ‘virgem’. Tive assim, não um cabelo alisado, apenas menos cheio. Nunca gostei de escova e, quando a cabeleireira que relaxou falou em escovar, eu disse não! Sempre achei o efeito da escova horrível. Fico pensando e acho que isso tem a ver com minha mãe. Ela sempre achava horrível tudo que não era ‘natural’. Entenda-se ‘natural’, por ‘ser como é’. Se ele era cheio e enrolado, ela achava que esse jeito era bonito e pronto.

A onda do relaxamento me pegou dos 15 aos 19 anos. Depois, cortei o cabelo bem curtinho. Depois desse corte, tive dreadlocks por dois anos. No fim da faculdade, cortei curto novamente porque achei que com dreadlocks seria difícil arrumar emprego (é aqui que eu vejo como eu já estava sacando qual eram as 'adaptações' que eu deveria fazer para ser aceita em alguns lugares).

Com 23 anos voltei a relaxar o cabelo e fiz isso por aproximadamente três anos. Eu tinha novamente saído dos lugares onde vivia para uma cidade onde o preconceito acontecia de modo sistemático com migrantes negras, vindas da Bahia (“baianada” era mesmo um adjetivo pejorativo ali). Meu cabelo continuava sendo muito cheio e um novo corte que 'diminuía o volume' foi me apresentado por uma cabeleireira, de modo que eu relaxava e cortava o cabelo nesse molde para que ele não ficasse tão cheio como era. Ainda assim, em comparação a qualquer cabelo liso, ele era bem cheio. Uns três anos depois, já empregada, me sentindo mais confiante para fazer o que me desse na telha, parei de relaxar. De lá para cá (e já são dez anos!), eu mantenho meu cabelo natural e curto, principalmente porque ele deixou de crescer como antes. Uso tranças e já coloquei tranças compridas de kanekalon, mas logo sinto saudades e volto a usar o meu cabelo natural. 

Fiz um resumo da minha vida capilar para dizer que mesmo eu, que nunca tive obsessão por alisamento, fui pega por essa ideia de que o cabelo liso ou menos crespo é “mais fácil de cuidar”. Também acreditei por algum tempo que quem tinha o cabelo menos crespo se sentia bem todos os dias quando acordava. Basicamente é isso que estas propagandas sobre cabelo liso vendem: a ideia de que quem tem cabelo liso está sempre bem e com a autoestima lá em cima.

Mas não, isso não pode ser real. Uma amiga que alisa o cabelo há muito tempo me disse que acha o meu cabelo o máximo porque ele “fica do jeito que eu boto”. Isso não é bem verdade, cabelos crespos podem não sair do lugar, mas amassam e a gente também precisa de espelho. Ainda assim, a fala dela me alertou para o fato de que todas as pessoas têm dias ruins com seus cabelos. Ter um dia ruim com seu cabelo não é o problema, o problema mesmo é o preconceito que o cabelo crespo ainda enfrenta nos dias atuais.

Isso porque, mesmo para ter cabelo crespo, ele precisa ser 'o' crespo. Aquele que está na moda e é almejado. É uma luta constante para fazer parte e estar dentro desse seleto grupo de pessoas que conseguem ser bonitas. O meu cabelo não é 'o' crespo e, por isso, ele continua não sendo visto. A coisa toda é bem triste. Eu noto, faz algum tempo, que muitas pessoas me olham como se eu fosse alguém que me cuidasse menos porque tenho cabelo crespo. “Já que eu não aliso, eu não me cuido”. Algumas vezes, ao estar com mulheres que alisam o cabelo ou tem cabelo liso, me sinto não apenas diferente, mas por vezes inferior, como se não tivesse atingido um patamar de mulher. Isso me foi dito por uma menina de cinco anos que quando me conheceu, perguntou-me quando é que eu alisaria o cabelo para virar “mulher-gente”.

Acho que não fico tão mal com essas situações porque tenho alguma leitura sobre raça e classe, senão elas me pegariam de cheio (ou não, vai saber, vai ver eu sou assim mesmo). Depois de um tempo, percebi que o incômodo está na diferença, então de certa forma as pessoas de cabelo liso e que querem ser iguais a um padrão, elas também se incomodam com você ali, sendo diferente e vivendo sua vida ("Como assim, ela feliz e não é padrão? Não, não pode, ela deveria estar triste como eu. Aliás, mais triste do que eu, porque, afinal, ela tem cabelo e nem é 'o' crespo!). Quando descobri isso, me incomodei menos e acho que incomodo mais. Mas claro, tudo isso é muito chato, tem dias que você só quer sair de casa e tomar um sorvete, sem se preocupar com nada. Mas não, isso não parece ser comum para nós, pessoas sempre em alerta.

Certa vez uma colega me disse que gostava do meu cabelo porque isso me dava um “ar selvagem”. Enquanto escrevo essas palavras e lembro dessas coisas, tudo parece muito estranho, mas é assim que já senti que as pessoas me viam, selvagem e exótica, além da já comentada ideia de desleixada. 

As mensagens que ecoam se complementam: primeiro é a de que, para nós, mulheres negras, para deixarmos de ser crianças e sermos vistas como mulheres, precisamos abandonar a “natureza” e ir de encontro a cultura. Assim, para tornar-me pessoa, preciso modificar partes do meu corpo. É preciso perseguir essa ideia de norma – que é branca, não por coincidência.

Todo mundo quer ser alguém mas, para nós, ser alguém é ser um outro. E para atingirmos o lugar de “alguém”, ideia que se confunde com a ideia de branquitude e humanidade, só com mutilação. A ilustração dessa ideia acontece quando vemos mulheres negras que modificaram seu corpo com suas filhas: estas, ainda pequenas, tem cabelos crespos e estão mais próximas à “natureza”. Quando crescem, mudam o corpo e tornam-se mulheres, vinculando-se à ideia de “cultura”. A pergunta que fica talvez seja: Em que espelho do tempo mãe e filha se veem? Será que se encontram?

Infelizmente, continuamos a achar que só quando crescemos é que podemos 'ser alguém'. Crescer seria então, nos tornarmos aquilo que nunca fomos – e que nós, mulheres negras, nunca alcançaremos em sua 'perfeição'. De modo muito cruel, estamos todas chafurdadas em racismo e preconceito, sejam eles naturais ou culturais. Espero que dias melhores tragam cachos e carapinhas ‘bons’ em cabeças ‘bem’.

Killa.


terça-feira, novembro 01, 2016

domingo, outubro 30, 2016

Frida diria, Sthepanie diz.

Só quero replicar aqui o que Stephanie Ribeiro disse aqui.

Ah, e compartilhar o vídeo de Dandara Marques, que eu só vi por causa desse texto.

Deus não está morto.


Sete vidas.


quinta-feira, outubro 27, 2016

quarta-feira, outubro 26, 2016

Oriente.


Essa meu bebê já ouve desde a barriga. 

terça-feira, outubro 25, 2016

Chloe e Halle.



Tanta beleza, vale a pena viver.


segunda-feira, outubro 24, 2016

quinta-feira, outubro 20, 2016

quarta-feira, outubro 12, 2016

Tempo ao tempo.


Por mim. A letra não tem nada a ver comigo, mas sou bairrista e adoro ouvir música em baianês. <3 p="">

terça-feira, outubro 11, 2016

segunda-feira, outubro 10, 2016

quarta-feira, outubro 05, 2016

Pérolas aos poucos (e para poucas pessoas).

Um amigo certa vez me disse que sentia que quanto mais o tempo passava e mais ele aprendia coisas, menos ele falava. Não é que se omitisse de falar o que pensava quando a situação pedia ou coisa do tipo, mas apenas que pensava mais antes de falar e reservava alguns comentários apenas para si mesmo ou para as pessoas com quem conseguia entabular um bom papo, desenvolver a ideia. Depois de anos vivendo essa vida de ouvir palestras, frequentar aulas, participar de debates e eventos mil, ando pensando se esta não é uma boa estratégia para manter-me viva e a salvo de demônios que nos perturbam a todo o tempo. 
Inicialmente, estes demônios nos compelem a dizer coisas e a rebater tudo que ouvimos as pessoas dizerem, porque nos sentimos sufocadas com tanto racismo, machismo, eurocentrismo e positivismo. Acreditamos que levantar as mãos e pedir para falar, participar, confundir, constranger, fazer-se presente! Todas essas coisas juntas é a melhor opção para décadas de silêncio e falta de espaço para falar tudo o que pensamos. Mas já a algum tempo, eu não sei bem se eu devo dar asas a estas perturbações. Vou explicar isso com um exemplo.
Há semanas atrás participei de um evento em que um pesquisador alemão falava sobre cinema latino-americano. Ele começa a fala explicando que não vai tocar em certas tensões, o que já me deixou curiosa para entender o que diabos então ele faria ali. Ao longo da explanação, ele foi trazendo cenas de filmes brasileiros - porque então o tema da palestra era cinema latino-americano? - e tratando da questão da colonização e como ela aparecia no filme. Ele parecia sentir um misto de surpresa e encantamento pelo projeto colonizador e em como ele teria dado certo no Brasil, pois frequentemente indicava que os personagens fortes da trama eram os homens brancos. 
Isso fez-me lembrar de um professor brasileiro que percebeu que seus amiguinhos europeus, ao visitarem o Brasil, não estariam mais interessados em ver a 'cultura' brasileira, mas sim o que havia aqui sido reproduzido desde a época colonial, seja na arquitetura ou nos costumes cotidianos. Viajavam para longe, mas precisavam sempre ver a si mesmos, já que foram ensinados a fazer isso o tempo todo, desde a barriga da mamãe. 
A palestra seguiu e eu fui fazendo caras e bicos, com vontade de dar nos cornos do moço. Comecei a ficar ainda mais mexida quando percebi que a plateia passou a 'interagir' com o palestrante, concordando com ele! Antes da interação, ele tentava fazer meas culpas ou algumas relativizações no que falava, como se não soubesse que plateia iria enfrentar... mas depois, pareceu ainda mais à vontade para tecer comentários pouco originais sobre filmes nossos que aquela plateia conhecia de cabo a rabo (e bem mais do que eu). Vejam vocês, eu que não entendia nada de cinema - no sentido técnico da palavra - comecei a achar uma aberração que aqueles estudantes de cinema estivessem realmente concordando que a leitura de um alemão sobre a representação fílmica do Brasil fosse completamente aceitável.
Passei a reclamar - sim, reclamar - em voz alta, mas depois me acalmei. Respirei fundo, e lembrei-me que eu não agia mais assim, eu não pediria a palavra, eu não ia fazer isso ali. Eu não ia entregar o ouro ao bandido. Por alguns momentos, apesar de ter o sorriso largo pela concordância, ele parecia ávido por vozes dissonantes, estar equivocado ali talvez não fosse um problema para ele (estava longe de casa e de seus tutores, para quem talvez precisasse provar mais do que a nós). Em alguns momentos, pareceu mesmo que ele estava aproveitando para apreender alguma coisa nova, 'chocante', completamente diferente daquilo com que teve contato em seus estudos sobre Brasil na Alemanha, porque incitava a participação das pessoas, ouvia mais do que falava, ele queria OUVIR ALGUMA COISA QUE TALVEZ ELE NÃO TIVESSE PENSADO. 
Mas eu não. Eu posso escrever sobre tudo que achei daquela palestra algum dia - eu já estou fazendo isso aqui mesmo, e posso escrever outros textos, por minha assinatura no que penso, registrar todas as minhas ideias, mas eu não vou dizer isso a ele. Também não vou dizer àquela plateia, que fingia estar aprendendo algo precioso com alguém que fingia estar 'ensinando' algo completamente novo. Não houve ninguém, em 40 minutos, para dizer qualquer coisa contrária ao que aquele moço estava dizendo (a gente não precisa que ninguém nos diga que a colonização deu certo porque fazer isso é a única coisa que tentam na escola). Não, eu não vou entregar pérolas assim. Pérolas, só aos poucos, e para poucas pessoas.
Eu não entro mais em debate contumaz com alguém em eventos como esse. Adotei essa postura porque, no final das contas, quem controla meu tempo e quem tem o microfone não sou eu. Minhas posturas, assim, são: ou eu falo algo que não seja MUITO original e que acho que vai perturbar um pouco a vida da pessoa que fala - mesmo depois que ela puder fazer a réplica e eu não tenha direito a tréplica! - ou eu simplesmente faço caras e bicos para que ela saiba que não está me agradando nem um pouco. 
Isso tudo porque eu tenho certeza absoluta que eu não vou - porque não acredito e nem quero! - 'mudar' esse mundo e nem a cabeça de pessoas que fazem como o pesquisador alemão, que pensou em falar de cinema latino-americano, fala um pouco de cinema brasileiro e ao fim ao cabo, só consegue ver o homem branco dos filmes.
Eu continuo achando que a gente defende nossas ideias falando. Eu só não acredito que isso seja assim na universidade e em alguns outros espaços (também não é que eu fique calada o tempo todo). Eu também continuo repudiando o racismo, o machismo, a misoginia, o classismo, o adultocentrismo e a homofobia em cenas cotidianas. Esse texto não é sobre isso. Eu estou falando apenas, e só apenas, de levar a ferro e a fogo discussões em espaços onde tudo que você faz e fala pode ser chupado, incorporado, engolido e triturado. Não gasto tempo e energia com isso, não mais. 
Mais do que me fazer presente para algumas pessoas, eu quero é permanecer viva. É certo que isso inclui falar também, mas para exercitar isso, eu tenho minhas amigas, namorado, pessoas que me rodeiam, não quero salvar ninguém. Permanecer viva, enfim, me parece um projeto muito mais intenso, incansável e, por vezes, inalcançável. Para perturbar suas consciências e sonhos, acho que minhas caras e bicos já estão de bom tamanho.

(fui procurar uma foto de estudantes negros na universidade no Google e dei de cara com uma foto de uma colega bicuda do RJ. acho que ela ilustra bem esse texto)

Identidade de nós mesmos.


quinta-feira, setembro 22, 2016

Mesa de trabalho, 1994.

Aos 14 anos, era assim que eu estudava. Já estava no segundo grau. Essa foto fala coisas.

segunda-feira, setembro 19, 2016

segunda-feira, setembro 12, 2016

Crise é o nosso negócio.

Narra uma dramática aliança entre política e marketing. Em seu primeiro filme, Rachel Boynton obtém uma visão impressionante da campanha de Gonzalo Sánchez de Lozada, o "Goni", à presidência da Bolívia em 2002, a partir do trabalho da empresa americana de consultoria de James Carville, famosa por conduzir Bill Clinton ao primeiro mandato na Casa Branca. Contratada para elaborar as estratégias eleitorais de Sánchez de Lozada, a empresa põe em prática técnicas agressivas de manipulação de opinião; o objetivo é reformar a imagem de Goni e virar o jogo na reta final das eleições. Bem-sucedidos, os estrategistas descobrirão, tarde demais, que seu êxito teve um preço alto.

Mais aqui

                              Cena do filme 

domingo, setembro 11, 2016

Cachoeira (de amor).


Foto de Venilson Gonçalves. Ele, que me diz que sou dona da sua cabeça, tem meus beijinhos e meu coração.<3 p="">

Milton Santos.


(eu nunca canso de saber mais sobre ele)

terça-feira, setembro 06, 2016

quarta-feira, agosto 31, 2016

Montanha Cega.


Não consegui achar o trailer do filme... pena. Forte, mas necessário. 

segunda-feira, agosto 29, 2016

domingo, agosto 28, 2016

Vício.



"Meu vício é trabalhar. Estou em abstinência". Frase de muro, Salvador, BA.

segunda-feira, agosto 22, 2016

Homens brancos.

(foto de Sasha Kargaltsev, Saiba mais aqui)

(esse é um texto que fala das coisas que eu penso, das coisas que eu sinto. Não tem a pretensão de universalizar nada, é só como eu consegui analisar o que sinto a partir das minhas relações com as pessoas)

Eu nunca vi muita televisão. Quando eu era pequena, nem tinha uma em casa. Não sei se por isso, nunca gostei muito de ver TV’, achava muito fora da minha realidade. Ainda hoje, o máximo que consigo ficar ali, na frente da tela, é no máximo uns 30 minutos. Fui ao cinema pela primeira vez com 18 anos e com o passar do tempo, meu olhar tem sido orientado para buscar filmes que falem sobre coisas com as quais me relaciono. Procuro não ver mais esses filmes que não mostram realidades para além de uma família branca, porque não, o mundo não é assim em nenhum lugar que eu conheço e se é em algum lugar, eu não estou interessada em conhecer.

Digo isso pra explicar parte do que sinto em relação aos homens brancos. Apesar do homem branco ser a norma – aquele cara que todo mundo quer namorar – para mim ele não fazia parte do meu sonho de príncipe encantado (eu me apaixonei por Michael Jackson em Bad quando eu tinha 14 anos!), porque ele não existia nos lugares que eu circulei quando era adolescente. Pode ser bem certo que ele não quereria nada comigo se existisse e me conhecesse, mas eu não estive tão perto deles para saber disso na adolescência e assim, como nem estavam presentes, não fui rejeitada por eles e nem me senti mal por algo que eu nem soube que poderia acontecer. 

Fui rejeitada e amada por homens negros. Lembro com carinho inclusive de um rapaz negro cor da noite – Rômulo – por quem fui perdidamente apaixonada por anos e que quando declarei o meu amor, me disse que nunca tinha percebido (depois de conversar com uma amiga, lembrei que tive uma paixãozinha por meninos brancos com 13, 14 anos. Mas nota: eu os achava fofos e inofensivos, não homens. Pelo menos é assim que eu me lembro deles). Eu tinha 16 anos e ainda hoje lembro com carinho de ter sido Rômulo o primeiro cara por quem me apaixonei. Era tudo gente preta, até que me mudei de cidade com 23 anos e depois de um tempo tive mais contato com homens brancos. Descobri o que pensavam de mim e como me hipersexualizavam. Aí entendi outras coisas, mas eu já tinha passado da fase de me sentir feia ou inferior apenas porque um cara branco não queria ficar comigo. Aí, eu já sabia como o racismo funcionava, eu já refletia sobre isso. Não é que ele tinha parado de funcionar comigo, mas eu já tinha mais de 25 anos e ele não me atingiu como atinge as meninas e adolescentes negras, naquela fase em que a gente só precisa se apaixonar e quebrar a cara por mil coisas, menos por causa de coisas como racismo e questões de classe.

Aí comecei a pensar sobre isso e descobri coisas. Que eu me lembre, assim, de cara, todos os homens brancos que eu conheci na minha vida – TODOS – tinham uma situação social econômica melhor que a minha e que a de meus amigos e namorados negros. Assim, estes meninos (eu não consegui escrever homem aqui, deixei como veio) sempre tiveram um melhor suporte das famílias para se tornarem quem são. Suporte financeiro, mas também mais carinho e uma base emocional mais sólida, com mães declarando amor e a necessidade de tê-los perto, o que mudava substancialmente o modo como eles se colocavam nas relações comigo.

Me vi pensando nisso agora porque antes de me relacionar com um homem branco – eu tive um namorado branco apenas – e conhecer alguns outros, eles não eram referência para mim. Durante toda a minha vida, foram os homens negros que constituíram a imagem de homem que eu tenho na minha cabeça. Os homens negros eram os piores e os melhores, não havia comparação com outro grupo racial. Isso tudo eu tou sabendo agora, depois de muito tempo vivendo sobre a terra e percebendo que todas as minhas referências mais próximas foram sempre de pessoas negras. Assim, esperava que o homem branco que eu conheci melhor fosse HOMEM como eu achava que um HOMEM TEM DE SER. E aí me peguei perguntando, será que eu não estava sendo sexista ao dizer que eu esperava UM jeito de ser HOMEM? Me perguntei e descobri uma resposta.

Basicamente, assim como eu penso de mulheres, para mim os homens são HOMENS QUANDO SÃO pessoas que tomam as rédeas de sua própria vida. Isso pode acontecer de várias maneiras, não há um só jeito de ser HOMEM e não precisa usar azul, arrotar na mesa ou falar palavrão. Pode usar echarpe e brinco nas orelhas, pode usar rosa e chorar. Mas para ser homem, assim como para ser mulher, eu sinto que é preciso enfrentar a vida (inclusive, conheço HOMENS NEGROS GAYS e digo que não conheço HOMENS BRANCOS).

Passei a ver homens brancos como não-homens porque todos que conheci pareciam não ter crescido, não por nenhum outro estereótipo como serem mais delicados ou coisa do tipo. Não consigo desejar esses rapazes porque gosto de gente que eu posso admirar, e não admiro gente sem coragem de enfrentar as coisas, homem ou mulher (prova disse que minha paixão atual é Claressa Shields. Meu desejo por ela não é sexual, mas um desejo que envolve força, energia, tesão de viver). Descobri assim que homem branco, diferente do que muita gente diz por aí, não me atrai. Quando isso acontece, é porque ele tem características que admiro, como coragem pra enfrentar a vida, o que pra mim, é coisa de homem preto que, querendo ou não, foi jogado nesse mundão aí sem nenhum manual de sobrevivência. Curiosamente, quando presto atenção em homens brancos, é quando eles tem características de HOMEM que, para mim, são os negros (percebo também que quando dou trela para um deles, tem a ver com a relação de poder que se estabelece ao estar sendo cortejada por um deles e, mesmo que isso não envolva desejo sexual, é excitante). Tudo isso demonstra como raça importa.

Num primeiro momento, entendi que essas qualidades poderiam fazer os homens brancos mais “sensíveis”. Mas não era bem sensibilidade o que eles possuíam. Eles não aguentavam certas coisas, certos perrengues, porque aqueles que eu conheci nunca tiveram de passar por eles, tinham um suporte que de certa forma não os ajudavam a descobrir quem eram e a prosseguir nessa longa estrada de aprender mais sobre eles mesmos e se verem em situações de adversidade – que nem precisa ser não ter grana ou não ter amor, mas pode ser sei lá, algo como enfrentar a morte de um ente querido ou ter coragem para ir naquela entrevista chata de emprego.

A falsa impressão de possuírem mais sensibilidade inicialmente me conectou a eles, porque imaginei que ser mais sensível conteria uma centelha de reflexão sobre a condição da mulher e em especial da mulher negra, algo que alguns homens negros não possuíam – pelo machismo, sexismo e racismo que infelizmente nos consome. Eles não precisavam ser machões, poderiam chorar e continuar sendo homens sem serem questionados como os homens negros, eu achei que esse privilégio de ser homem branco poderia nos fazer encontrar, no meio do caminho havia sensibilidade e acolhimento, havia acolhimento e sensibilidade no meio do caminho. 

Ledo engano. Porque isso que chamei de sensibilidade não é bem sensibilidade... É alguma coisa que tem a ver com o fato de não terem necessitado crescer e enfrentar a vida, por terem o suporte da mamãe e da família, às vezes. Continuam adolescentes, presos à barra da saia da mamãe (para os homens brancos que não tiveram nada disso, não posso opinar. Como eu disse, estou falando dos que eu conheci. Não havia nenhum entre eles que tinha sido, por exemplo, uma criança indesejada. Mesmo que isso tudo possa ser contestado, o que eu estou querendo dizer aqui é que, para mim, homens brancos que fugiram a esse modelo não estavam agindo como homens brancos e é aqui que reside a diferença de análise).

Claro que meus modos de ver homens e mulheres tem sexismo e machismo no meio, não duvido. Mas existe algo nisso tudo que escapa às definições que temos sobre o que é ser homem e o que é ser mulher: estou dizendo que, para mim, nas minhas relações interpessoais, ser HOMEM não é ser homem branco (e isso muda tudo, altera o que dizem por aí. Mas eu sei que tem mais gente que sente coisas parecidas com as minhas). Não tenho dúvidas que o sujeito universal seja o homem branco, mas é certo que eu consegui dissolver em parte sua presença na minha vida cotidiana. Ao tornar o homem negro HOMEM, eu também não resolvi nada, apenas sinto que consegui, 35 anos depois da minha existência, promover uma rotação de perspectiva emocional. 

Acho que isso só foi possível porque vivi muito tempo entre as pessoas que pareciam comigo, sem buscar referências em coisas fora do meu contexto. Eu conheço homens negros que admiro e uns que não, mas a verdade é que essa visão me faz humanizá-los, vê-los como pessoas, não esperar deles apenas violência ou sacanagens. São pessoas, com os erros e acertos de ser. Quando gosto ou desgosto, não é em relação ao que eles poderiam ser se fossem brancos, mas o que poderiam ser se pudessem ser visto como pessoas (e é lógico que eu sei que a branquitude é um dos lugares em que se pode acessar a humanidade em nossa sociedade racista, só estou dizendo que acho que pouco a pouco, eu consegui ver os homens negros também como um ponto de conexão). Acho que é por isso também que ainda acredito no amor (e estou completamente apaixonada por um deles agora mesmo).

(com isso tudo, quero dizer que entendo que a luta feminista negra só será possível de ser feita junto com os homens negros, acreditando que eles, assim como nós, precisam ser amados).



domingo, agosto 21, 2016

Todos se van.


Filme péssimo, propaganda anti-Cuba e revolucionário burguês demais pro meu gosto.

Science launches the 2016 ‘Dance Your Ph.D.’ contest


Jun. 2, 2016 , 8:30 AM


Calling all scientists! We want to know what your Ph.D. research was about. Or, if you're a current Ph.D. student, what are you working on now? But forget the PowerPoint slideshow. We don't even want to hear you talk. We want to see you dance.

The ninth annual Science/AAAS Dance Your Ph.D. contest is open! Got a free weekend this summer? Get together with your friends and labmates and make a dance video. It can be any style, from ballet and breakdancing to your own highly abstract interpretive dance. The final product should be not only fun to watch but helpful for others to gain an understanding of your scientific research. If you can pull that off, you can win a portion of the $2500 cash prize.

The deadline for submissions is 30 September. To enter the contest, and to see examples of past winners for inspiration, visit the contest homepage.

Good luck, scientists. Get your #DanceYourPhD on!

Mais aqui.