Você que me lê, me ajuda a nascer.

domingo, abril 05, 2015

Coisa feita.

Ele sai do trabalho, ele me liga, ele não me esquece.
Mas nunca dá tempo e ele some, ele aparece.
Diz que me procurou, mas no ecrã não tem o nome dele.
Apago do celular, desativo aplicativos.
Mas é uma doença, sarna, encarna.
Na pele, pensamento, bocas e queixas.

Ele vem pro trabalho, eu o espero.
Eu o vejo passar.
No intervalo, no meio da tarde, ele come um sanduíche que está dentro de uma marmita.
Quem fez eu não sei, ele jura ser a mãe, eu temo ser a ex.
Eu temo, mas não digo nada.
Fico ali do lado enquanto ele mastiga calado, olhando a praia do outro lado.

Aponta pra uma pedra, meio do mar e diz.
Eu queria a gente ali agora.
Eu penso na vida real e digo.
A maré tá alta, você não chegaria a tempo de bater o ponto.
Ele abaixa a cabeça, o último pedaço do sanduíche cai no chão, ele amassa com o pé, tampa o vasilhame.
Fica de costas, o tchau sai abafado.
Volto para o ponto de ônibus sem me despedir.

À noite, ele liga, ele não desliga, ele reconhece, pede desculpas.
Mas não é nada, é só a vida que nos atropela, todos dias.
Nós e os nossos sentimentos. 

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