Você que me lê, me ajuda a nascer.

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Eu voltei.

Há quase doze anos, eu fui morar em São Paulo. Estava apaixonada e topei tentar a vida lá, já que o moço tinha se aventurado por aqui e não tinha dado muito certo. O namoro acabou, fui ficando porque queria tentar estudar lá, de preferência na Universidade de São Paulo. Tudo isso porque, aqui no interior da Bahia, onde eu fiz minha graduação, algumas professoras tinham feito suas pós-graduações na USP e sempre falavam da universidade como referência. Assim, sonhava.

O tempo passou, e exatos seis anos depois de ter chegado à São Paulo, entrei na USP para começar um mestrado. Já trabalhava como professora há alguns anos e aproveitava qualquer tempo para vir a Salvador. Me lembro que no primeiro ano em São Paulo eu tinha pouco dinheiro e aventurei vir para Salvador de ônibus, porque soube de uma oportunidade de bolsa de estudos que me pedia para entrar em contato com antigas professoras de graduação. Voltei, fiz toda a papelada, mas não consegui a bolsa de mestrado. Lembro-me até hoje, queria estudar tráfico de mulheres na Itália, algo assim. Memórias de Batom era o nome do projeto.

Não passou, não consegui a bolsa Ford. Me disseram que o projeto estava bem escrito, mas talvez ambicioso demais, sem relação com o que queriam no momento. Tudo bem, mas pelo menos percebi que conseguia escrever algo. Estava cada vez mais aficcionada por história e ciências sociais. Mas acabei continuando minha carreira acadêmica na educação mesmo. Não é que não goste de educação, eu gosto de muitas coisas. Eu queria mesmo é ser dançarina, mas deixa isso tudo pra lá. Professora de dança de crianças talvez fosse um trabalho perfeito para um sonho perfeito.

Acabei entrando na linha de história da educação na faculdade de educação. Passou o mestrado, começou o doutorado. Mas eu nunca tirei da cabeça a ideia fixa de voltar pra Salvador. Queria que aqui fosse de novo o lugar de onde eu iria começar de novo, ficar ou ir embora. Quase doze anos, mas na programação inicial eram 10 anos. Eu voltei com 11 anos pra cá, porque já faz algum tempo que estou aqui. 

Eu nunca deixei de vir pra Salvador. Nunca. Era uma coisa meio obsessiva. Doença, loucura. Vivia em avião voando pra casa. Passava dois dias, uma semana, o que desse. Acho que já vim num sábado e voltei num domingo, no meio desses dez anos. E acho que o máximo que passei sem vir foi em 2009, cinco meses. 

Eu não sei. Mas eu gosto daqui. Gosto mesmo. Claro que não é só isso, mas é isso também. Tem um monte de problemas quando você volta pra casa depois de onze anos, diferentes daqueles que você tinha quando estava longe. Perguntei a uma amiga qual seria uma das minhas qualidades e um dos meus defeitos. Ela disse que uma das minhas qualidades era o fato de conseguir se adaptar rápido às situações. Ah, defeito? Remoer demais as coisas. 

Eu voltei, não sei se pra ficar. Mas é bom estar aqui de novo.  

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Tudo dele.



Meu pensamento? Todo dele, nada meu.

Junho.


Maré Mansa - As ganhadeiras de Itapuã.




Maré Mansa
(Jenner Salgado)

Ela sai no Malê
Dança balé
É debalê
Ela é candomblé

É maré mansa
A negra dança
É maré mansa
É negra a dança iaiá

É maré mansa
A negra dança
É maré mansa
É negra a dança iaiá

Lá o negro Malê
Canta encanta sua revolta
Em volta de si em volta de si

Areias brancas
Areias brancas
Areias brancas
Areia branca
É maré mansa a negra dança iaiá

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

É lindo de se ver.

Ontem, na saída do bloco Afro Malê Debalê, a vida que exalava nas ruas de Itapoan. Era impossível passar direto, não se você ama quem você é e o que você faz. Crianças, borbulhando em todos os lugares, de todas as idades, eu falei de todas as idades. 
A chuva que caía era parte das lágrinas de emoção que eu derramava. 
Kirimurê!

domingo, fevereiro 15, 2015

20 Centavos.


Noite funda.

Eu descobri que ele não vai mudar. Aí mudei eu. De lugar, de cabelo, do que eu queria. Mudei.
Mas não por ele e nem por mim.
Mudei porque escolhi.

E ele nunca vai saber o que eu sinto. Nunca mais. Vai esperar o futuro chegar e até lá estarei morta.
Ou mãe de quatro filhos, vai saber.


sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Só hoje.

Depois de te ver chorar, eu só queria tirar toda a dor que você sente com um abraço, mas isso parece impossível e eu mesma me vi incompetente ao tentar fazer isso, já que faz muito tempo que a gente não consegue mais assim, um abraço.
Queria também que você ficasse feliz e orgulhosa ao ver a pessoa que me tornei hoje, em parte por causa de você, mesmo que hoje você mesma não veja já tanta graça nas coisas que eu digo, parecidas com aquelas que você dizia há vinte anos atrás.
Enquanto me banhava, as lágrimas caíam e eu segurei o soluço que vinha alto para não parecer que eu não iria suportar, para que você não perguntasse "o que é?" e eu parecesse fraca, coisa que você nunca gostaria de parecer. Também não queria te desconcertar porque sabia que isso aconteceria se você ouvisse o meu choro, talvez você chorasse também, talvez a gente não soubesse o que fazer.
Mas talvez fosse bom.
Diferente disso, eu só tomei meu banho, a gente almoçou, viu um filme e chorou com o final que não foi feliz.


Mas talvez, vá saber, isso também é um pouco de amor.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Faith Ringgold.



Faith Ringgold: pintora, escritora, palestrante, escultora de meios mistos e artista performática, vive e trabalha em Englewood, Nova Jersey. Ms. Ringgold é professora emérita da Universidade da Califórnia, San Diego, onde ela ensinou a arte de 1987 a 2002. Professora Ringgold recebeu mais de 75 prêmios, incluindo 22 de Doutor Honoris Causa de Belas Artes Degrees. Recebeu bolsas e subsídios, que incluem o National Endowment for the Arts Award para a escultura (1978) e para a pintura (1989); O Prêmio La Napoule Fundação para a pintura na França (1990); O John Simon Guggenheim Memorial Foundation Fellowship para a pintura (1987); A Fundação New York para o Prêmio Artes para a pintura (1988); A Associação Americana de Mulheres Universitárias para viajar para a África (1976); The Creative Artists Public Service Award para a pintura (1971). A arte de Ringgold tem sido exibida em museus e galerias nos EUA, Canadá, Europa, Ásia, América do Sul, Oriente Médio e África. Sua arte está incluída em muitas coleções de arte pública e privada, incluindo The Metropolitan Museum of Art, The National Museum of American Art, o Museu de Arte Moderna, o Museu Solomon R. Guggenheim, o Museu de Belas Artes de Boston, The Chase Manhattan, The Museum Baltimore, Williams College Museum of Art, The High Museum of Fine Art, The Museum Newark, The Morris Coleção Phillip, o Museu de Arte de St. Louis e The Museum Spencer. 
[...]
O livro de Ringgold publicado pela primeira vez, o premiado, Tar Beach, "um livro para crianças de todas as idades", foi publicado pela Random House em 1991 e ganhou mais de 30 prêmios, incluindo, um Honor Caldecott e o prêmio Coretta Scott King para o melhor livro de 1991 infantil ilustrado. [...] If a Bus Could Talk; The Story of Ms. Rosa Parks ganhou o Prêmio Imagem da NAACP de 2000.

De Faith, (mais uma homenagem pra gente), um quadro que me fez chorar:


Veja tudo isso e muito mais aqui.

Anotações de viagens.

Eu prometo escrever pouco.

Há pessoas que viajam e adoram contar em detalhes todas as curiosidades. Eu mesma acho ótimo, quando vou viajar sempre checo esses blogs, leio e vejo o que me interessa, mas eu mesma não tenho paciência para explicar como funciona o bilhete de ônibus em Londres e qual a diferença entre comprar um diário e um para a semana inteira. 
Sendo assim, pensei em anotações de viagens que pudessem trazer novidades sobre os assuntos que me tocam.

Quando cheguei em Lisboa, impressionei-me como os colonizadores portugueses fizeram Salvador muito parecida com o que eles tinham lá. Depois fiquei pensando como nosso povo aqui se apropriou tão bem de tudo que ficou com uma cara mais bonita e animada. As pessoas na rua, o sol, o clima, a vida, há vida.

Aí eu senti frio e tudo me desanimava, fiquei sem ver meu pé por muitos dias ou o via por alguns minutos, o tempo de tomar banho e enfiá-lo de novo dentro das meias... isso não é vida, eu preciso de sol para viver e sorrir todos os dias. 

E como disse Petronilha Silva no parecer sobre a lei 10.639/03, a escravização não fez bem pra ninguém. A ideia de ser superior transforma alguns povos nas pessoas mais insuportáveis do planeta, o que fez com que alguns achassem que precisávamos de aulas de português para falar corretamente até quem oferecesse emprego na rua (em menos de cinco dias em Londres, me ofereceram um emprego de babá!), pelo simples fato de sermos brasileiras (negras, diga-se de passagem). 

Madri, tudo cinza. Pelo menos para mim. Me disseram que gostaram de lá pelo clima no verão e porque dava pra ficar na rua. Mas isso tudo eu tenho bem aqui em Salvador. E de lambuja (o que muda tudo!) tenho acarajé.

Em Londres não vi criança na rua por umas oito horas. Só fui ver uma quando eu cheguei no bairro onde eu ia me hospedar, um bairro com uma população negra imensa. Do lado deste bairro, havia um outro com uma população negra vinda de países do PALOP, mas ali se concentravam basicamente negros e negras jamaicanos, nigerianos, enfim, muitos vindos de países colonizados pela Inglaterra. Criança branca eu só vi uma, com a mãe, num dos ônibus que peguei no centro da cidade. Quando falei isso com um rapaz negro que estava no segundo andar do ônibus comigo ele me respondeu:

School time

Como se isso explicasse o fato das crianças não se apropriarem da cidade. 

Crianças negras eu vi muitas, durante os dias que passei lá. No bairro e também nas ruas, com pessoas mais velhas. Criança na rua com outras crianças? Nunca. 

Londres é cinza também. Perguntei se no verão eu conseguiria usar uma tomara-que-caia ou um shortinho, gargalharam na minha cara. Verão sim, mas o sol não aparece nunca. 

Em Paris, o número de pessoas negras é enorme. Tão grande que em Montmartre eu comecei a contar nos dedos os brancos que haviam por ali. Mas em Paris falar de raça é um tabu: não perguntam a cor das pessoas no censo do país, me disse uma amiga que tem um amigo francês. Seria ótimo saber qual a porcentagem da população negra da cidade, eu chuto uns 40 por cento, por baixo. Paquerei horrores. O mais legal era poder falar em português com minhas colegas e olhar para eles com a certeza que não entendiam nada. 

Em Lisboa, também há muitos negros. Mas não entendi porque em Paris eles chamaram mais minha atenção. Em Londres também há. Falando isso, eu lembro que as pessoas que vem ao Brasil sempre dizem que há muitos negros aqui, mas não se vê na novela. Eu fiquei me perguntando porque falam isso do Brasil se em todas essas cidades que eu fui o número de negros e negras é enorme e a gente também nem sabe. Pimenta no dos outros é refresco.

Comida, comida. Eu comi mal em todos os lugares. Não sei o que as pessoas suspiram tanto quando viajam para o que chamam de Europa: come-se mal se você tem pouca grana, o que acontece com pessoas como eu com pouca grana e que troca uma moeda que vale três ou quatro vezes mais que a nossa. Assim, um prato de comida (quando se achava um lugar que vendia comida assim, como a gente come aqui - sem feijão) saía por 6 euro, o que dá quase vinte reais, valor que aqui no Brasil eu como MUITO bem. E nem vem me dizer que entrar em supermercado e comprar aqueles lanches empacotados individualmente na hora do almoço serve porque eu gosto de almoço. E almoço, comida típica dos países em que visitei, era coisa cara, pra lá de 20, 30 euro. Sai pra lá, não tenho árvore de dinheiro.

Mas o lugar pior de comer pra mim foi Londres. Eu realmente estou procurando coisas boas da cidade, além dos museus, que tem coisas saqueadas de todos os lugares do mundo que você possa imaginar. Eles tem a pachorra de colocar no Museu da Livraria Britânica documentos do Budismo! Pasme! Sem nenhum pudor. Poderiam fazer um Museu pro Shakeaspeare, mas não se contentam e enfiam no meio tudo que eles roubaram dos países que eles invadiram. Eu fui aos museus, mas não dou um real (que lá vale um quarto de libra...) para aquelas lembrancinhas com múmias desenhadas ou sarcófagos. Infelizmente, para ver essas coisas, é preciso ir a Londres ou Roma. Mas eu já decidi, uma das próximas viagens será o Egito.

Em Paris, tudo OK, metrô pra tudo que é lugar. Mas estações horríveis, que se fosse aqui no Brasil estaria todo mundo falando mal. E não foi só uma, foram várias estações completamente detonadas, remendadas, precisando de reparos sérios. Bom, mas who cares, o povo daqui vai pra lá e suspira na Tour Effel (eu olho para ela e me pergunto: quem construiu, quem botou aquelas vigas lá?). Puxei conversa com os ambulantes da cidade, conversei, falei com as pessoas, entendi mais coisas, aprendi demais com elas. Em Londres o metrô também é massa, mas se você não tem quase 50 reais por dia para usá-lo ilimitadamente, esqueça. Esse é o valor que você paga por um tíquete diário que combina trem e metrô. Tá bom pra você? O que deveria ser um transporte público acaba sendo um privilégio para poucas pessoas. E nem vem me dizer que 11 libras para eles é pouco. Esse valor é caro também para quem ganha um salário mínimo. Em Lisboa, também não chega a ser barato o valor do tíquete diário pra todos os transportes: 6 euro.

Em Lisboa e Paris, onde usei mais metrô, acessibilidade zero. Escadas que não tinham fim não ajudavam a imensa maioria de idosos que por lá vivem, o que me fez quase não ver cadeiras de rodas pela cidade.

Há uma migração intensa entre estes países, todo mundo querendo uma vida melhor. Muito parecido com o que a gente faz aqui no Brasil entre os estados, o que dá no mesmo, considerando que estes países são menores que muitos estados nossos... entre Lisboa e Londres é o mesmo tempo que eu levo de São Paulo para Salvador. Nessa lógica, muito português desempregado vai pra Londres! Nada mais óbvio, se você vai ganhar em libra, que custa mais que o euro. Aí o pessoal diz que "quando você vai  pra Europa, é massa porque você conhece vários países". Mas é óbvio, os países são próximos! Não tem nada a ver com "lá eles são multiculturais". Balela. Muito deslumbre pra pouca coisa.

Dessa galera, quem mais teve um discurso xenofóbico foi a senhora dona da casa que a gente ficou hospedada em Paris. Ela não conseguia falar uma frase inteira sem falar "cuidado com os árabes", "os gitanos são um problema" e coisas do tipo.

A verdade é que eu vou aos lugares querendo ver outras coisas, não as igrejas e os monumentos históricos das guerras ou das invasões. Eu quero só estar ali e ver as coisas acontecerem, só que para isso eu preciso de mais tempo. Por isso, não me desespero em fazer roteiro de turista, me agrada muito mais conhecer um migrante dono de um restaurante de comida turca do que fazer selfie no Arco do Triunfo. Mas todo mundo tem um sonho, vamos respeitar.

Não tenho mais nada para comentar. Viagens são viagens, aprendemos coisas. Mas ainda estou procurando o encantamento que as pessoas tem por essas cidades. Eu vi pessoas, pessoas como eu, em transito pelo mundo procurando coisas, e é com elas que eu sempre acabo voltando pra casa. 

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Eu amo você.

Porque eu mudaria minha vida inteira e começaria tudo de novo por causa dele. Para continuar a sentir o que eu estou sentindo agora por muito, muito tempo.
Para dormir em seu peito algumas noites ou todas as de uma semana. Para sentir seu cheiro, ouvir sua voz de manhã cedo, para responder "dormi bem", para tomar banho com uma havaianas tamanho 42, para pegar um avião, outro, trem, ônibus, metrô.
Eu começaria tudo de novo, só para saber que ele me ama também.
Só porque eu sei que ele me ama também.