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segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Cordeiros (vergonha de ser baiana).

Estava na estação rodoviária esperando e a jornalista correspondente em Salvador é chamada no jornal nacional para comentar das vagas de emprego no carnaval de Salvador. Sem nenhuma vergonha na cara, ela diz:

[...] E temos também 800 vagas para cordeiros no carnaval. Para todas as vagas apresentadas, é necessário ter pelo menos três meses de experiência

Fiquei pensando quem em sã consciência iria ter três meses de experiência segurando uma corda no carnaval. Uma das vergonhas de ser baiana, o trabalho de "cordeiro" (que em tese vem do ato de segurar a corda, mas pode se aplicar á ideia de subserviência, visto que são também chamados de cordeiros aqueles que são manipulados) faz-me sentir a pior pessoa do mundo. Fiquei sabendo que este ano estão pagando 65 reais, além da garantia do material de proteção (alguns anos atrás, não era obrigação do "empregador"). 

E não se enganem: muitos dos chamados "cordeiros", são na verdade mulheres. Negras.


Há um documentário de Amaranta César e Ana Rosa Marques falando sobre isso. Veja se dá pra ver ainda por aqui

O que eu não entendo: para que as cordas? Para proteger os turistas (em sua maioria brancos) da população baiana (em sua maioria negra)? Ora, a rua não é do povo como o céu é do condor (disse Castro Alves, nome da praça onde há muitos encontros de trios elétricos no centro da cidade. Assim como o tamanho da praça que leva seu nome, sua voz diminuta não ecoa na cabeça das gentes)? Caetano diz que a praça é do povo como o céu é do avião. Mas não adiantou nada reeditar a frase e não falar nada sobre esse serviço que só serve para segregar pessoas. Poucos artistas baianos denunciam esta prática e se dizem contra este trabalho escravizante. Pelo que me lembro, só Daniela Mercury falou alguma coisa contra. Eu? Não compactuo com isso. Diga o que quiserem, não tem necessidade. As cordeiras só existem por causa da indústria que é o carnaval, feito pra turista curtir. Muita gente diz que vai na pipoca, fica do lado de fora das cordas e curte tudo igualzinho (pro som ainda não inventaram barreira acústica no meio da rua). Talvez isso seja um modo de resolver as coisas e achar que, no fim das contas, está-se dando "um baile" na situação. Eu sempre preferi viajar. 

A Praça

"A praça é do povo!
como o céu é do condor".

É o antro onde a liberdade
cria águias em seu calor.
Senhor,pois quereis a praça?
Desgraçada a população!
Só tem a rua de seu...
Ninguém vós rouba os castelos,
Tende palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.
Mas embalde...que o direito
Não é pasto de punhal
Nem a patas de cavalo
Se faz um crime legal...
Ah! não há muitos setembros!
Da plebe doem-se os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensanguentado
Diz: já não posso sofrer.

Castro Alves
(1847-1871)

O único orgulho que eu tenho é que, morando em Salvador quase a maior parte da vida, nunca fui ao Carnaval. A única vez que passei pela festa foi quando, saindo da Mudança do Garcia, dei de cara com o Psirico no Campo Grande. Fiquei uma meia hora na festa, esperando o Ilê passar. Como sou fraca, cansei-me e fui-me embora. Nunca me atraiu. Muitas vezes, dei desculpas esfarrapadas às pessoas que me chamavam para lá ir. Como estou ficando velha, acho que não preciso mais inventar. 
Rio de Janeiro, Recife, só pra citar duas cidades, não tem corda no Carnaval. Tem outras coisas, mas não tem  isso.



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