Você que me lê, me ajuda a nascer.

segunda-feira, janeiro 27, 2014

Amor em trânsito



Era um dia quente em São Paulo quando o moço passou por mim, eu saía do trabalho. Ele descia a rua calmamente, numa bicicleta verde. Chamava a atenção seu capacete com pisca-pisca e sua indumentária politicamente correta, num tempo em que quase ninguém ligava para isso. Eu olhei para bicicleta e para as luzes, mas notei que ele me olhava também. Eu, recém-chegada na cidade grande e desacostumada com o frio do outono, não pude deixar de registrar o primeiro dia de sol daquela estação, junto com o sorriso dele, descendo a rua, de bicicleta.

Depois desse dia, descobri que ele passava ali, todos os dias, religiosamente, às dezenove horas. Sua passagem, então, passou a ser o meu relógio: depois que ele descia a rua, era hora de ir pra casa. Pouco a pouco, a luz piscante e a indumentária já não eram o que chamavam mais atenção. Ele me olhava, muito rápido, seja por timidez ou por estar dirigindo sua bicicleta. Àquela época, eu trabalhava na rua General Jardim e descia a pé todos os dias para a estação República do metrô. Achava graça ir parando e olhando as lojas, as pessoas, tantas pessoas, as conversas entrecortadas nos semáforos, as pressas, os casais, a solidão. Foi assim que, um dia, na esquina da General Jardim com a Rêgo Freitas, parei no semáforo e reconheci ele, pela bicicleta e pelo sorriso. Lá estava o moço, parado à frente dos carros, esperando sua vez, próximo dos pedestres que atravessavam. Passei a faixa e notei que ele me olhava, em meio ao mar de gente que seguia em frente, correndo para chegarem mais rápido em suas casas. Notei que ele me olhava mesmo sem para ele olhar, era como se soubesse que ele me reconhecia da rua General Jardim, como se ele também soubesse que eu o esperava ali, nosso segredo.

Mas quando eu atravessava, ele parava. Estávamos em posições diferentes naquele trânsito que ia e vinha, sempre. Decidi, então, aprender a andar de bicicleta. Sim, eu não sabia. Nem sequer tinha me dado conta que já tinha 25 anos e nunca havia terminado as lições da adolescência. Abandonei-as quando entrei na universidade, pareciam sem serventia e faziam sentir-me desengonçada na frente das pessoas. Tentar aprender a andar de bicicleta para mim era um jeito de aproximar-me dele, das coisas que ele fazia, do que ele gostava. Quem sabe a gente se encontrava por aí, num semáforo fechado qualquer...

Foi bem nesse tempo que começou uma campanha nas redes sociais sobre como as pessoas que se movimentavam na cidade a pé poderiam ajudar a melhorar o trânsito. Li num jornal paulistano de grande circulação em como a Companhia de Engenharia de Tráfego estava preocupada em fazer com que os pedestres também se mobilizassem a favor de uma cidade melhor para as pessoas que nela circulavam, a pé, de bicicleta, de trem, metrô, ônibus, de carro. Marcaram uma grande manifestação no vão livre do MASP, com todo mundo saindo a pé dos arredores do centro, de onde quisessem, para fazer uma caminhada pela paz no trânsito, pela convivência e segurança de todas as pessoas. Eu morava na Vila Mariana, e decidi pegar o metrô até a Estação Trianon-MASP para participar do evento.

Apesar de não ter certeza, imaginava que ele estaria naquela marcha. Pensei que talvez pudéssemos conversar sobre capacetes e ciclismo, porque minha intenção era, depois de uns meses, ir para o trabalho de bicicleta, mas ainda não entendia nada de proteção no trânsito. Chegando lá, no meio de tantas pessoas, eu o vi. Ele fazia parte de uma das organizações que promoviam a caminhada e, por isso, estava num carro alegórico com sua roupa de ciclista. Achei engraçado, e mais engraçado ainda quando percebi que ele também me reconheceu. Mas, mais uma vez, não conseguimos nos falar. Ele estava trabalhando, seguindo pela Avenida Paulista com seu capacete que piscava e uma faixa onde se lia: O trânsito é de todos! Todas as pessoas podem contribuir para um trânsito mais seguro!

Dei meia-volta ali mesmo da estação Consolação e voltei andando para casa. Tentei encontrar outro ciclista que pudesse cruzar o meu caminho e me fazer esquecer o moço. Mas, toda bicicleta que passava tinha a cor verde e nos rostos, era seu sorriso que eu via. Entrei em casa, me enterrei no sofá. Liguei a TV’ e deparei-me com a imagem dele e da faixa que segurava estampada na tela, uma matéria sobre o sucesso da caminhada no centro. Depois disso, resolvi ir dormir.

Acordei naquela segunda-feira pensando nas coisas boas que aquele amor em trânsito havia me proporcionado. Eu tinha aprendido a andar de bicicleta e agora, estava tentando tornar-me uma expertise em proteção em duas rodas. Tomei meu café sem açúcar e segui para o trabalho. Aquele seria o primeiro dia em que eu não esperaria a bicicleta verde para ir embora. Dezenove horas, arrumei minhas coisas, como de costume. Na esquina da General Jardim com a Marquês de Itu, avistei a silhueta de um homem com um buquê de flores. Chegando mais perto, reconheci seu sorriso. Ele, meio tímido e ofegante, disse:

- Vim a pé. Vou te levar no metrô.



Sobre todas as coisas.


Música oferecida por Caio Silveira Ramos

domingo, janeiro 26, 2014

Viver junto.

Há uns tempos atrás, dois ou três anos, eu tinha quase certeza de que eu ia passar a vida inteira sozinha. Sozinha digo, não ia arrumar namorado, amor, amorzinho, marido, companheiro. Achava tudo isso muito difícil e fingia que não queria mesmo, talvez por não ter boas experiências e nem referências. Também achava que o meu jeito de vida não combinava com a maioria das pessoas que eu conhecia e que isso me atrapalhava muito na hora de ser escolhida ou de escolher.

Ao mesmo tempo, eu sempre achei muito legal fazer coisas junto. Ficava, então, nesse meio de coisas: achando que ia ficar só mas achando que viver junto sempre foi muito mais legal. Foi quando me apaixonei e vi que não tinha nenhum sentido ficar achando o que ia acontecer comigo, que era muito melhor deixar as coisas acontecerem e que sim, mesmo com a minha vida cheia de coisas, eu ainda conseguia viver junto, fazer coisas junto, querer sentar, resolver, conversar, a dois, a três.

Acho que errei mais, muito mais, quando quis juntar todo mundo e todas as coisas. Mas não deixo de querer tudo de novo todo mundo junto mesmo que erre tudo sempre. Porque mesmo errando, acho bem mais legal mais gente do que sozinha.

Aí fiquei junto e achei a coisa mais gostosa do mundo. Briga, conversa, sorriso, família, gente, choro, briga. Porque até quando doía, doía um doído gostoso, porque eu me sabia junta.
Mas aí, um dia desses, acabou.
Assim como começou, acabou. E eu me vi sozinha de novo.
Fim.

sexta-feira, janeiro 24, 2014

Acima do Sol.


Sem rimas.

Antes de começar a escrever, fiquei pensando em amor e dor. Mas depois achei melhor as palavras sem rimas, como felicidade e certezas. 
Sonhei com um elevador caindo. Eu estava nele junto com uma pessoa. Saía ilesa, e lembro-me que estávamos os dois muito calmos. Me disseram que esse sonho significava que aconteceria comigo uma coisa com a qual eu não estava preparada, muito de repente. Engraçado, aconteceu.
De repente, sem esperar, e doeu. Se já doem coisas como a morte de uma pessoa que está muito doente, imagina se você descobre que alguém que nem doente estava, morreu. Eu chorei. 
Mas não, ninguém morreu, antes que as palavras aqui possam parecer que a tragédia foi essa. Morreu alguma coisa, mas não foi gente. O que morreram foram as rimas. 

Dentro de mim, mas fora também. Estou despedaçando. Fiquei pensando no livro A Espuma dos Dias, de Boris Vian, que acabei de ler. Não gostei muito do livro, a não ser essa passagem: 

[...] Contentava-se em esperá-lo, e contentava-se em estar com ele, mas não se pode aceitar isso de uma mulher, que ela fique com você só porque te ama. Ele também a amava [...] (p. 192)

Depois, lendo sobre a vida de Fela Kuti, Carlos Moore comenta que ele 

via o casamento como um acordo solidário assumido por indivíduos em busca de completude; um lugar íntimo em que preocupações sociais e prazer físico convergiam e não uma instituição inspirada por deus e que nos foi transmitida em uma embalagem lacrada cheia de regras de comportamento. Tratava-se de laços forjados em torno de sentimentos mútuos, de um projeto de vida comum, de uma visão social compartilhada, e da união de recursos entre pessoas para realizar objetivos assumidos, também, em comum
(p. 20)

Livros tão diferentes, mas que me fizeram pensar em mesmas coisas. Gostei dessa definição de casamento de Fela, e acho que Chik, personagem em A Espuma dos Dias, tem razão sobre Alise. Mas também não sei juntar as duas coisas. E também não sei se quero me fazer entender. 

O que eu quero, de verdade, não escrevi aqui. Nem vou escrever.

O maior balé afro do mundo (Malê Debalê).


sexta-feira, janeiro 17, 2014

Ser professora.

As meninas todas conversando comigo, todas elas disseram querer ser professora. Uma delas, polícia, mas depois disse que desistiu da ideia e voltou a querer ser professora. Claro que todas terem escolhido a mesma profissão tem seus motivos (poderia aqui incluir desde o sentimento de pertencimento ao grupo das meninas ali reunidas ao fato delas terem pouco contato com outras profissões além desta, em seus poucos anos de vida) Todas saíram correndo a brincar, ficou só uma ali comigo. Ela repetiu o que queria. Eu disse a ela:
- Você pode ser o que quiser.
Ela levantou os olhos, meio desconfiada, lançando-me pergunta, um desafio:
- Posso?
Eu repeti com muita ênfase:
- Pode!
Voltando pra casa na estradinha de terra, meu amigo me perguntou se eu não queria que ela quisesse ser professora. Eu disse o que havia dito pra ela:
- Eu quero que ela possa ter certeza que ela pode ser o que quiser. Se for professora, tudo bem. Mas ela precisa ter certeza que pode ser o que quiser.


Eu mesma, já sonhei em ser cantora, diplomata e até mãe. 

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Fé em Deus.

Passei um monte de dias tentando lembrar dessa música:

A luta está difícil, mas não posso desistir
Depois da tempestade, flores voltam a surgir
Mas quando a tempestade demora a passar
A vida até parece fora do lugar
Não perca a fé em Deus, fé em Deus
Que tudo irá se acertar

Pois o sol de um novo dia vai brilhar
E essa luz vai refletir na nossa estrada
Clareando de uma vez a caminhada
Que nos levará direto ao apogeu
Tenha fé, nunca perca a fé em Deus

Pra quem acha que a vida não tem esperança
Fé em Deus
Pra quem estende a mão e ajuda a criança
Fé em Deus
Pra quem acha que o mundo acabou
Pra quem não encontrou um amor
Tenha fé, vá na fé
Nunca perca a fé em Deus

Pra quem sempre sofreu e hoje em dia é feliz
Fé em Deus
Pra quem não alcançou tudo que sempre quis
Fé em Deus
Pra quem ama, respeita e crê
E pra aquele que paga pra ver
Tenha fé, vá na fé
Nunca perca a fé em Deus

Aquilo que não mata só nos faz fortalecer
Vivendo aprendi que é só fazer por merecer
Que passo a passo um dia a gente chega lá
Pois não existe mal que não possa acabar
Não perca a fé em Deus, fé em Deus
Que tudo irá se acertar

Pois o sol de um novo dia vai brilhar
E essa luz vai refletir na nossa estrada
Clareando de uma vez a caminhada
Que nos levará direto ao apogeu
Tenha fé, nunca perca a fé em Deus

Pra quem acha que a vida não tem esperança
Fé em Deus
Pra quem estende a mão e ajuda a criança
Fé em Deus
Pra quem acha que o mundo acabou
Pra quem não encontrou um amor
Tenha fé, vá na fé,
Nunca perca a fé em Deus

Pra quem sempre sofreu e hoje em dia é feliz
Fé em Deus
Pra quem não alcançou tudo que sempre quis
Fé em Deus
Pra quem ama, respeita e crê
E pra aquele que paga pra ver
Tenha fé, vá na fé, nunca perca a fé em Deus


Amar (era só isso que eu queria da vida).

Carlos Drummond de Andrade 

Que pode uma criatura senão, 
entre criaturas, amar? 
amar e esquecer, 
amar e malamar, 
amar, desamar, amar? 
sempre, e até de olhos vidrados, amar? 

Que pode, pergunto, o ser 
amoroso, 
sozinho, em rotação universal, senão 
rodar também, e amar? 
amar o que o amar traz à praia, 
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, 
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? 

Amar solenemente as palmas do deserto, 
o que é entrega ou adoração expectante, 
e amar o inóspito, o áspero, o 
cru, 
um vaso sem flor, um chão de 
ferro, 
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, 
e uma ave de rapina. 

Este o nosso destino: amor sem 
conta, distribuído pelas coisas 
pérfidas ou nulas, doação 
ilimitada a uma completa 
ingratidão, e na concha vazia do 
amor a procura medrosa, 
paciente, de mais e mais amor. 

Amar a nossa falta mesma de 
amor, e na secura nossa amar a 
água implícita, e o beijo tácito, e a 
sede infinita. 



domingo, janeiro 12, 2014

Despedaçando.

Ontem, no Museu Afro, dei de cara com esta obra:


Sonia Gomes, da série Torções (2012)

Balancei, mas não caí. Achei linda, me deu um nó por dentro, torceu meu coração. Faz parte da exposição A Nova Mão Afrobrasileira.  Aí vi essa:

Izidorio Cavalcanti, objetos da série Cambraieta (2005)

Fiquei uns vinte minutos encarando essa coisa (tinham vários desses, de tamanhos e formas diferentes, todos "remendados"). Difícil não chorar. 



quinta-feira, janeiro 09, 2014

Ainda bem.



Não deu tempo de fazer a declaração. O registro:

Ainda bem
Que você vive comigo
Porque senão
Como seria esta vida?
Sei lá, sei lá
Nos dias frios em que nós estamos juntos
Nos abraçamos sob o nosso conforto
De amar, de amar

Se há dores tudo fica mais fácil
Seu rosto silencia e faz parar
As flores que me mandam são fato
Do nosso cuidado e entrega
Meus beijos sem os seus não dariam
Os dias chegariam sem paixão
Meu corpo sem o seu uma parte
Seria o acaso e não sorte

Ainda bem
Que você vive comigo
Porque senão
Como seria esta vida?
Sei lá, sei lá
Se há dores tudo fica mais fácil
Seu rosto silencia e faz parar
As flores que me mandam são fato
Do nosso cuidado e entrega
Meus beijos sem os seus não dariam
Os dias chegariam sem paixão
Meu corpo sem o seu uma parte
Seria o acaso e não sorte

Neste mundo de tantos anos
Entre tantos outros
Que sorte a nossa, hein?
Entre tantas paixões
Esse encontro
Nós dois
Esse amor

Entre tantos outros
Entre tantos anos
Que sorte a nossa, hein?

Entre tantas paixões
Esse encontro
Nós dois
Esse amor

E, no cd', ela começou a tocar agora... 

Jodida pero contenta II.


Jodida Pero Contenta

Porque me haces mucho daño
Porque me cuentas mil mentiras
Y porque sabes que te veo
Tú a los ojos no me miras
Y porque nunca quieres nada
Que a ti te comprometa
Yo te voy a dar la espalda
Para que alcances bien tu meta
Que yo me voy porque mi mundo me
está llamando
Voy a marcharme deprisa
Que aunque tu ya no me quieras
a mí me quiere la vida
Yo me voy de aquí
Jodida por contenta
Tu me has doblado pero yo aguanto
Dolida pero despierta
Por mi futuro
Con miedo pero con fuerza
Yo no te culpo ni te maldigo
Cariño mío
Jodida pero contenta
Yo llevo dentro una esperanza
Dolida pero despierta
Pá mi futuro
Con miedo pero con fuerza
Que a partir de ahora
y hasta que muera
Mi mundo es mío
Con tormento y sin dolores
Yo voy haciendo camino
Y que la brisa marinera
Me oriente hacia mi destino
Así es que me voy bajando
Pa la orillita de puerto
Y el primer barco que pase
que me lleve mar adentro
Y en este planeta mío
Ese en que tu gobernabas
Yo ya he clavado mi bandera
Tu no me clavas mas nada
Déjame vivir a mi
Jodida por contenta
Tu me has doblado pero yo aguanto
Dolida pero despierta
Por mi futuro
Con miedo pero con fuerza
Yo no te culpo ni te maldigo
Cariño mío
Jodida pero contenta
Yo llevo dentro la esperanza
Dolida pero despierta
Por mi futuro
Con miedo pero con fuerza
Que a partir de ahora
Y hasta que muera
Mi mundo es mío
Jodida por contenta
Dolida pero despierta
Con miedo pero con fuerza
Yo voy con miedo pero con fuerza
Y te digo mi prima:
?Tonta, todo en la vida se paga?

quarta-feira, janeiro 08, 2014

Jodida pero contenta

Parece que nada é por acaso. Uma amiga gravou para mim todos os cds de Concha Buika. Agora, tenho a impressão de que ouço ou leio seu nome com mais frequencia que antes. Mas não é. Não é coincidência nem nada, é a tal da sinapse trabalhando, além de outras coisas. Li o nome desta música numa revista, e mal vejo a hora de chegar em casa para procurá-la em meus arquivos. Quero saber se a letra inteira parece tanto comigo como o título.
Eu fiquei pensando estes últimos dias como a vida pode ser engraçada, mas muita gente já disse isso antes. Não é nenhuma novidade. Mas eu tive provas de como a vida é um pouco como você leva. Tive contato com uma pessoa que achou uma nota de cinquenta reais no chão duas vezes num mesmo mês e começou a se perguntar se havia alguma coisa errada acontecendo com ela. No que ela via pessimismo, eu via uma crônica e graça. Não dá mesmo para entender as pessoas.
Ou dá. É pessimismo, energia ruim, rancor, medo, insegurança. Muitas coisas, que aqui estou classificando como ruins, mas que eu sinto também. Quando eu sinto, procuro respirar fundo e ficar quieta, sentir o que é, esperar passar, e não me culpar tanto se sentir.
E porque jodida pero contenta? Porque talvez eu devesse estar bem triste agora, mas ainda assim, não consigo. Ouvi coisas que não esperava, que entristeceria a qualquer mortal por pelo menos alguns dias da vida. Mas, não sei. Não é que eu não tenha coração para sofrer. Mas é que eu sempre acho que existe coisa mais legal do que só aquela coisa triste ali que está acontecendo e, como sempre, eu sempre acho que vai passar.
Sempre acho que há mais por se fazer, outras histórias para começar ou terminar. Não nego que estou surpresa ou um pouco triste, mas nada desesperador. Ainda consigo escolher uns brincos bem bonitos numa loja e pensar em qual ocasião vou usá-los. Ainda consigo sorrir com a menina e sua boneca preta sentadas ao meu lado (muito embora ela mesma esteja morrendo de ciúme do pai e não queria muito assunto).
É por essas e outras que muita gente me vê insensível. Eu mesma não me vejo assim. Acho que se tem uma coisa que mais prezo nesta vida é poder sentir e muito todas as coisas pelas quais passo. Amor, dor, raiva, tristeza, medo, dúvida, confusão. E gosto de entender porquê, e gosto de dizer, de perguntar. Algumas coisas, já sei, não vão ter resposta e outras não vou poder dizer, porque não sei, porque não. Outras tantas não tem nome e a gente fica querendo juntar sentimentos para explicar pra quem tá junto (é ciúme misturado com raiva, é raiva com tristeza, é… falta).
Mas, de tudo isso, eu sempre penso no que aprendo (talvez por ser professora). Penso que prefiro viver isso e aprender, sentir, do que nada. Socorro não estou sentindo nada nunca vai ser minha palavra de ordem, pelo menos enquanto eu puder resistir.

Eu acho que eu levo a vida sempre esperando que o melhor vai acontecer e aquilo que de ruim aconteceu tem alguma coisa pra ser. Não sei se é o melhor jeito, mas sigo vivendo e, por incrível que pareça, me acontecem mais coisas boas do que ruins. Talvez, para outras pessoas, a maioria das coisas que me acontecem sejam ruins, vai saber. Mas eu sigo achando que viver é umas das experiências mais fantásticas. Viver e sentir.