Você que me lê, me ajuda a nascer.

sábado, março 30, 2013

quarta-feira, março 27, 2013

Entrevista com Virginia Bicudo.





Entrevista de Virgínia Leone Bicudo a Marcos Chor Maio
26


Em Família


Marcos: Doutora Virgínia, gostaria que a senhora falasse um pouco da sua origem, lugar e data de nascimento.

Virgínia: Data de nascimento? 21 de novembro de 1910, São Paulo, bairro da Luz. Sou filha de Teófilo Júlio Bicudo e Joana Leone Bicudo. Meu pai nasceu em Campinas e ele tinha muito orgulho de ser campineiro. Ele foi criado em casa dos que tinham sido patrões dele. De modo que era muito querido nessa família, dentro da qual ele nasceu. Minha mãe trabalhava também nessa casa. Isso tudo no interior de São Paulo. Eles que me contaram essas coisas [risos]. O que eu sei é que meus avós maternos vieram da Itália. Minha mãe teria 10 anos quando aqui chegaram, e foram então para o interior do estado de São Paulo. Acho que cuidavam de café, não era? Deve ser isso. Sabe, eu nunca pensei como estou pensando agora, primeira vez [risos]. Eu nunca reconstituí, agora eu estou construindo o que ouvi dos meus pais. Eu nunca pus ordem, agora que estou imaginando, assim. Acho que iam lavrar a terra, cultivar. Então eu sei que os imigrantes e meus pais foram para o interior de São Paulo. Meus pais se casaram em 1905.

Marcos: Eles trabalhavam na mesma casa?

Virgínia: Eles se conheceram trabalhando na mesma casa, de gente de recursos. Tinha fazenda e tinha casa em São Paulo.

Marcos: Que tipo de trabalho seu pai fazia?

Virgínia: Acho que era trabalho de empregado doméstico.

Marcos: E quando ele veio para São Paulo, trabalhou em quê?

Virgínia: Veio casado. Aí já tinha vida independente, era funcionário do Estado.

Marcos: Ele se tornou funcionário do Estado?

Virgínia: A própria família para quem ele trabalhou conseguiu colocá-lo no Estado. No Estado, ele trabalhava na Agência Postal. Então ele era agente postal, trabalhava lá dentro. Depois desses primeiros períodos, começou a trabalhar fora, como carteiro. Entregava cartas. Depois, bom... meu pai foi um homem muito interessante. No sentido assim de ambicioso, de subir, subir como gente. Eu acho que ele conseguiu. Meu pai tem uma história muito bonita. Muito bonita porque foi sempre trabalhador e querendo sempre progredir, mas do ponto de vista psíquico, de inteligência. Então, primeiro ele foi empregado doméstico. De família, assim de recursos. Eu acho que a família veio para São Paulo. Ele veio junto e então conseguiu um emprego público. Viu como é que foi a emancipação dele? De doméstico a emprego público. E o primeiro emprego público que ele teve foi nos Correios e Telégrafos de São Paulo. E aí trabalhou a vida inteira. A ambição dele é que um dia ele ia ser o diretor geral dos Correios de São Paulo. Bom, ele não alcançou esse ponto máximo, mas alcançou ser o diretor geral de uma agência de São Paulo. Quer dizer, ele era um homem muito ambicioso. Ele fez carreira.

Marcos: A senhora me mostrou agora uma foto dele completando o ginásio.

Virgínia: É, ele fez o ginásio.

Marcos: Ele fez o ginásio já dentro dos Correios.

Virgínia: Fez o Ginásio do Estado de São Paulo. Acho que foi o melhor ginásio, foi o primeiro ginásio de São Paulo. E ele estava no último ano.27





Discriminação racial
Virgínia: Olha, vou contar uma coisa tristíssima da história dele. Ele queria fazer universidade. Na época era Curso Superior. E ele queria ir para Medicina. Então estava no sexto ano do ginásio. Veja que homem esforçado, hein? Veio de empregado doméstico que ele era, depois foi subindo e fez o Ginásio do Estado. E quando terminou o Ginásio do Estado naquele ano, ele passava direto para Faculdade de Medicina. Naquele tempo não havia vestibular para Medicina.28 Terminava o ginásio e entrava na Medicina ou em qualquer curso superior. Então, o professor que chamava Barros ou Barrinhos, do ginásio do último ano, quando viu que meu pai ia para Faculdade de Medicina, reprovou. Porque ele disse que negro não podia ser médico. Então, meu pai durante 10 anos ficou fazendo o sexto ano para passar e entrar na Medicina. E esse professor que eu não esqueço o nome... Parece que é castigo, Barros, da Física, reprovava.

Marcos: Durante 10 anos?

Virgínia: 10 anos. Meu pai insistiu que queria ir pra Medicina e não conseguiu porque esse homem barrava. Depois desses 10 anos, aí não pôde entrar, porque não tinha mais essa entrada direta do ginásio para Medicina. Aí tinha que fazer vestibular. Aí meu pai desistiu, já tinha a filharada toda. Então ele foi barrado por preconceito. Puro preconceito. Eu quando criança via tudo isso. Eu já existia quando meu pai ficou nessa luta. Eu já ouvia as brigas todas, as decepções que não podia entrar, mas ele tinha que ir. Tudo isso eu vi, acompanhei como criança.

Marcos: Sua mãe era branca, seu pai era negro, trabalhavam numa casa em Campinas e eles se casaram. Teve algum problema?

Virgínia: Não, não. As famílias pelas quais eles trabalhavam, ao contrário, fizeram festa.

Marcos: Certo. Eu estou falando da família italiana. Não teve nenhum tipo de reação da sua mãe branca se casar com seu pai, um negro?

Virgínia: Ah, isso eu não sei. Quando eu nasci, meus avós italianos, todos os meus parentes italianos se davam bem.

Marcos: E se davam bem com a família do seu pai também?

Virgínia: Não, meu pai não tinha família, ele ficou sozinho, todo mundo morreu.

Marcos: E irmãos, ele também não tinha?

Virgínia: Ele tinha um, mas também morreu. Esse irmão eu me lembro. Quando eu era criança. Era um irmão, mas que bebia muito. Então morreu cedo. De tanto beber. Tudo isso é da minha infância que eu via.

Marcos: E eram quantos filhos?

Virgínia: Seis. Dois homens e quatro mulheres. Meus irmãos morreram. As mulheres todas estão vivas.

Marcos: A senhora falou bastante do seu pai, e no caso da sua mãe?

Virgínia: Ela era babá e meu pai era empregado. Então eles se conheceram na casa, onde eles trabalhavam. Se amaram e se casaram [risos].

Marcos: E depois do casamento, sua mãe ficou cuidando da casa?

Virgínia: Bom, depois do casamento, minha mãe não trabalhou fora. Porque aí meu pai fez carreira no funcionalismo público e de diretor dos Correios, que era a ambição dele. Ele ganhou uma agência de São Paulo, que ele foi o diretor. Ela trabalhava para os filhos. Seis filhos.

Vida escolar e infância no Bairro da Luz

Marcos: E a senhora foi logo para escola ou foi alfabetizada em casa?

Virgínia: Para meu pai todo mundo tinha que ser alfabetizado. E todo mundo foi para escola. Ninguém foi trabalhar. Meu pai escolheu o que havia de melhor. Eu fui para Escola Modelo.29 Porque tinha a escola primária comum e tinha a Escola Modelo Caetano de Campos. Então começava no Jardim de Infância, Escola Modelo, Primária, depois Escola Complementar e Escola Normal. Então, meu pai já punha os filhos assim, na Escola Modelo Caetano de Campos, entende? Meu pai era um homem de uma ambição para formar... Não era para ganhar dinheiro, mas para educar cem por cento. Então ele punha todos os filhos no que havia de mais promissor para fazer carreira.

Marcos: A senhora disse que nasceu em São Paulo e no bairro da Luz?

Virgínia: É. Era gente humilde, mas com um certo nível. Meu pai sempre defendeu uma apresentação boa. Então a gente estava lá. Era uma travessa da Rua São Caetano30, mas muito bem cuidada. Então, eu fui para uma escola que era perto de onde eu morava, mas eu não fiquei lá muito tempo porque tinha que ir para uma escola melhor. Então, meu pai me pôs na Escola Modelo Caetano de Campos. Porque aí já seguia direto para fazer carreira de professora.

Marcos: O bairro que a senhora morava era um bairro constituído basicamente de brancos ou negros?

Virgínia: Era um bairro de brancos. É, eu acho que preto não tinha lá. Acho que tinha só nós. Geralmente era assim, a gente nunca esteve no meio de pretos. Engraçado. Eu nunca notei isso. Eu me lembro da casa em que eu nasci na Luz. Nessa casa morei até os 15, 16 anos. E nasceram todos os outros meus irmãos. Eu sou a segunda. Tem meu irmão primogênito, depois eu. Mas o que eu ia falar disso? Ah, essa questão do preconceito. Onde eu nasci só meu pai era preto, ninguém mais. Eu nunca tive convívio com pretos ou negros. Mas isso não foi eu, eram meus pais [risos]. Eu achei horrível. Acho que eram eles, meus pais. Começou nos Correios e aí ele foi sempre subindo, e sempre com os brancos.

Marcos: Sempre com os brancos. E, tirando esse fato do professor do sexto ano ginasial que não deixava ele passar por ser negro, seu pai comentava algo sobre o ambiente de trabalho?

Virgínia: Não, não, não. Ele sempre foi prestigiado. Ele sempre teve posição de ascensão.

Marcos: No caso de seus irmãos, havia uns mais claros e outros mais escuros?

Virgínia: Não, tudo a mesma coisa [risos]. A fábrica foi a mesma. É tudo igual. Agora, o que acontece é que meu pai pôs todo mundo para estudar. Ele queria que todo mundo se formasse. Mas o meu irmão mais velho ficou repetindo. Foi para o ginásio e ficava repetindo o ano. Então foi uma luta. Eu me lembro dessa luta em casa. Porque ele repetia, e aí tinha castigo, e aí mamãe chorava. Olha, foi um negócio, para ele fazer os 5, 6 anos de ginásio, foi um inferno.

Marcos: A senhora foi uma boa aluna?

Virgínia: Engraçado isso... porque eu sou a segunda, meu irmão era o mais velho, então eu via as brigas porque meu irmão não estudava e era castigado. E era aquela briga lá em casa, porque ele não estudava. E eu só ouvia, porque ele não estudava e ia ser reprovado. Bom, eu agora vou para escola, primeiro primário. Aí a professora falou assim: "Triângulo". Engraçado que eu guardo até hoje. "Isso aqui é o triângulo. Para estudar geometria". E eu peguei aquilo e... saía da escola e corria, e corria, e corria... Entrei em casa e gritei: "Estou estudando matemática!" [risos]. Porque o que eu ouvia era briga com o meu irmão, que era muito mais velho do que eu. E quando eu vi lá, a professora disse: "Geometria, matemática", eu cheguei em casa: "Eu estudo matemática!" Para dar alegria, porque era um desgaste lá em casa porque meu irmão não estudava matemática. Bom, são as coisinhas engraçadas da infância. Mas então nessa questão de cor. Meu pai e minha mãe, avós, meus avós, tios, do lado do meu pai não tinha ninguém, por isso que não tinha contato com preto, com negros. Meu pai era sozinho. Então, era tudo do lado da minha mãe.

Marcos: E seus avós? A senhora teve contato com seus avós?

Virgínia: Assim, da parte da minha mãe? Tive, tive. Ah, minha vida toda, até eles morrerem. Meus avós moravam na Lapa. Só meu pai que morava na Luz, eu, meu pai, minha mãe. Os outros não. Meus avós, da parte da minha mãe, foram para Lapa. Eles tinham uma chácara e a gente ia para lá, todos os domingos.

Marcos: A senhora falou do seu irmão mais velho e os outros irmãos?

Virgínia: Nós somos seis irmãos.

Marcos: E em relação aos outros irmãos?

Virgínia: Olha, a ideia de meu pai era que as pessoas valem pelo estudo, pelo preparo que tem estudando, isso era meu pai. Então, meu pai pôs todos na escola. Meu irmão mais velho foi para o ginásio, mas aí ele repetia.

Marcos: Mas ele acabou se formando, ou não?

Virgínia: O ginásio ele fez.

Marcos: Mas depois não continuou.

Virgínia: Não, fez ginásio à custa de muito castigo. Depois o outro entrou no ginásio, mas não foi adiante, largou. Mas aí meu pai já tinha morrido. E as mulheres todas foram para escola e se formaram. Todas foram fazer curso de professora, Normal. Todas nós.31

O Curso Normal e o Instituto de Higiene


Marcos: Ninguém foi ser professora?

Virgínia: Não, cada um fez outra coisa depois. Eu nunca fui professora. Eu me formei. Mas em seguida eu já fui para o Instituto de Higiene. Fiz uma outra formação: Educadora Sanitária.

Marcos: A senhora ficou na Escola Modelo Caetano de Campos até o final do Normal?

Virgínia: Até o final do Normal. Depois do Normal... eu precisava ganhar dinheiro, acabava de me tornar professora. Nós fazíamos o curso de professora primária. E ali obtinha uma cadeira no interior. Mas aí meu pai me disse: "Filho meu não vai para o interior". E então, eu fui fazer um outro curso, o de Educadora Sanitária no Instituto de Higiene.

Marcos: Antes de a senhora começar a falar sobre o Instituto de Higiene, gostaria de perguntar quais eram as matérias que a senhora mais gostava no Ginásio? Tinha alguma predileção?

Virgínia: Eu tinha sim. Isso é interessante, logo no início do Ginasial eu me destaquei em duas coisas no curso. Eu me destaquei porque eles que me destacavam. Era Aritmética, chamavam Matemática, Português. As duas, sabe? Eu tinha primeiro lugar na classe. Então eu era sempre pequenininha, menor da classe, mas de nota, eu era a primeira.

Marcos: A senhora gostava da escola?

Virgínia: Gostava. Mas a minha associação eu faço logo com meu pai que valorizava o estudo.

Marcos: Aí a senhora acabou o Normal e entrou para o Instituto de Higiene. Seu pai ainda estava vivo quando...

Virgínia: Estava.

Marcos: Seu pai disse que para o interior nunca, jamais.

Virgínia: Ah, é. Pode formar, mas você não vai para o interior. E eu tinha que começar a carreira de professora no interior.

Marcos: O interior significava atraso ainda, não?

Virgínia: É uma ideia de que a gente ia sofrer. Porque não tinha os recursos que a gente tinha dentro de casa. E ia para fora, no interior para lecionar, para ensinar, mal acomodado. Era sofrimento, na minha ideia. Então, o que eu fiz foi fazer algum curso depois desse para me garantir, não precisar ir para o interior. E o curso que tinha depois desse para fazer era Educadora Sanitária, que era um curso dado pela Faculdade de Higiene, junto à universidade. Então tinha curso de Educadora Sanitária, cuja função era cuidar, zelar pela saúde dos escolares.

Marcos: Quantos anos era o curso?

Virgínia: 2 anos.

Virgínia: Em 1932, eu fiz o curso de Educadora Sanitária.32 Tive aulas de Higiene Mental, Higiene Escolar, é mais higiene. Paula Souza33 dirigia o curso. Ele criou o Instituto de Higiene de São Paulo junto à Universidade de São Paulo. Era outro nível.

Marcos: Tinha matérias de Sociologia?

Virgínia: Não, não tinha. Sociologia eu fiz na Escola de Sociologia. Era só saúde mesmo. Quando eu me formei em Educadora Sanitária, eu fui trabalhar nos grupos escolares para a saúde das crianças. A gente ia assim, nas classes, primeiro ano, segundo ano e organizava, fazia vacina, via quem precisava de óculos, entende? Saúde. Providenciando o que precisava. Não enxerga bem, encaminha para o oculista. Está deficiente físico, então, vai para o médico. Zelava pela saúde da criança. Ah, e com os pais também, contato com os pais. Orientar os pais também na educação, na higiene da criança. Esse foi o trabalho com higiene que eu fiz, mas fiquei só um ano. Aí eu já me interessei pelo psíquico. Aí a doutora Koch34 chegou.

Marcos: Doutora Koch?

Virgínia: Adelheid Koch. Psicanalista européia, que veio de Berlim. Logo em seguida ao começo da guerra. Ela chegou em 1939.




Escola Livre de Sociologia e Política


Virgínia: Aí fui fazer Sociologia na Escola de Sociologia e Política em 1936. Me formei em dezembro de 1932 como Educadora Sanitária. Meu pai faleceu em 1933.

Marcos: Por que a senhora escolheu a Escola de Sociologia e Política?

Virgínia: Ah, porque lida gente com gente... ao passo que Medicina lida com doença de gente. Ao passo que a outra é doença de gente com gente [risos].

Marcos: Isto é ótimo!

Virgínia: [risos] Tá respondido.

Marcos: Na Escola de Sociologia e Política tinha a disciplina Higiene Mental?

Virgínia: Foi o Durval que pôs Higiene Mental. Mas fui eu quem mandei. Na Escola de Sociologia fui eu quem falei: "Põe a cadeira lá" e quem estava lá era ele.

Marcos: Onde é que a senhora conheceu o professor Durval?

Virgínia: Na higiene escolar. Eu conheci o doutor Durval Marcondes, ele era médico escolar e eu era educadora sanitária. E ao mesmo tempo eu estudava Sociologia na Escola de Sociologia. Então, como eu achava que era muito importante Higiene Mental e Durval Marcondes dava Higiene Mental, aí eu começava assim: "Põe Higiene Mental" aqui, "Põe Sociologia" lá. Então eu levei Higiene Mental para a Escola de Sociologia.

Marcos: Fazer a Escola de Sociologia e Política é lidar com gente. Mas não existia outro curso que lidava com gente?

Virgínia: Pois é, porque Sociologia é relação de gente com gente. E o meu problema assim, psíquico, é que gente com gente não se dá bem. Precisa de uma ciência para ajudar as pessoas a se darem melhor. Isto foi a Escola de Sociologia e Política. Quer dizer, socializar indivíduos. Isso que me chamou a atenção. Esse é o motivo.

Marcos: Porque a senhora não foi fazer o curso na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP?

Virgínia: Ah, porque lá eram os grã-finos e eu não era grã-fina. Pensa que eu era boba? [risos] Eu sabia escolher. Eu vi lá, tudo era filho de papai, Almeida Prado e eu não. A Escola de Sociologia é gente operária, é lá que eu vou. É isso. Sabe, a gente tinha esse feeling.

Marcos: Quer dizer que na Escola de Sociologia e Política havia uma diferença...

Virgínia: Mais operários, operariado da ciência. Na Filosofia... como é que era o nome?

Marcos: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras?

Virgínia: Eu disse: "Lá não era o meu lugar".

Marcos: Quando a senhora diz: "Operário da ciência" é no sentido de origem social, de serem pessoas de camadas mais humildes?

Virgínia: Gente mais trabalhadora que coincidia de ser humilde também. Porque quanto menos humilde mais "papai faz".

Marcos: A Escola de Sociologia e Política foi criada por uma elite empresarial e intelectual com o interesse em desenvolver uma sociologia de caráter aplicado. Que tivesse uma aplicação direta, por exemplo, na indústria.

Virgínia: É, mas uma forma indireta de acudir os pequenos. A indústria produzindo meios para que se pudessem trazer os pequenos para cima. Eu senti isso na Escola de Sociologia. Por isso eu fui para Escola de Sociologia. Eu sentia que ali a gente podia ter um apoio para subir, para crescer. E na USP... ali eu sentia que já precisava ter respaldo social. Eu não tinha.

Marcos: Que matérias a senhora mais gostou em seu curso de graduação?

Virgínia: Ah, principalmente Sociologia. Eu estava mais interessada em Sociologia do que em Economia. Eu sempre pensei assim: "Se eu souber como as pessoas se relacionam é muito mais importante, porque a Sociologia já decorre de como as pessoas se relacionam". Tinha uma linha americana. Uma coisa que me impressionou muito. Qual foi o nome dele? Professor inglês.

Marcos: Radcliffe-Brown?

Virgínia: Radcliffe-Brown. Esse me impressionou muito.

Marcos: E o professor Pierson? Como era?

Virgínia: Uma pessoa muito chegada à gente. Muito chegado, amigo. Assim que eu via o Pierson. Uma boa pessoa, o Pierson. Ele foi meu professor. Orientador também. Quando escrevia sempre dava para ele ler e comentar. Ele era um professor dedicado.

Marcos: E, nesse período da Escola Livre de Sociologia, a senhora só se dedica a Escola ou exerceu alguma outra atividade?

Virgínia: Nunca fui rica. Tinha que trabalhar para comer. Quando meu pai veio a falecer, eu passei a manter a família, durante um ano. Só depois recebemos o montepio. Nesse um ano então eu já trabalhava na higiene escolar.

Marcos: Qual era o horário da Escola de Sociologia e Política? Tinha um horário fixo?

Virgínia: À noite.

Marcos: E a senhora trabalhava de dia em quê?

Virgínia: Educadora Sanitária.

Marcos: Então a senhora trabalhou mais de um ano em Educadora Sanitária.

Virgínia: Meu pai morreu em 1933. E eu continuei trabalhando de 1933 até 1939.

Marcos: Na sua dissertação de mestrado, a senhora trabalha com pais de alunos ligados a higiene escolar e a um movimento, uma associação de negros.

Virgínia: Na Escola de Sociologia se estudava o problema do negro.

Marcos: Há duas referências centrais no seu trabalho que são: Negroes in Bahia, do Pierson, e Marginal Man, do Everett Stonequist.

Virgínia: Estava sob a influência de Donald Pierson.

Marcos: Na época da senhora se falava da Escola de Chicago?

Virgínia: Eu me lembro que Chicago já tinha um destaque. Fui influenciada pelo Pierson. Falavam muito dos negros na Escola de Sociologia.






Marcos: Como a senhora veio a participar do projeto UNESCO?

Virgínia: Paulo Duarte.35

Marcos: A senhora trabalha com grupos escolares, mais especificamente com o terceiro ano colegial. Como é que são as atitudes favoráveis e desfavoráveis?

Virgínia: Desfavoráveis ao desenvolvimento. Higiene mental.

Marcos: Eram atitudes preconceituosas.

Virgínia: Isso. Mas o campo amplo era o da higiene mental. Bom, foi ainda o Pierson que influenciou.

Marcos: Como a senhora tornou-se professora da Escola? A senhora foi ser assistente do professor Durval Marcondes.

Virgínia: Por causa da minha dedicação. Tinha muita presença, interesse.

Marcos: A senhora trabalhou com uma pesquisa muito interessante sobre os mestres nas fábricas.

Virgínia: Foi. Lenhard que eu conheci, mas depois eu perdi de vista... Rodolfo Lenhard.

Marcos: E é interessante porque o seu trabalho foi realizado numa fábrica, com os mestres. Era um convênio entre a Escola de Sociologia e Política e o Departamento Regional do Serviço Social da Indústria, SESI. Era uma análise psico-social dos mestres. A senhora se lembra dessa pesquisa?

Virgínia: Eu me lembro sim. Agora eu estava pensando, como é que foi meu caminho até ficar só no psíquico. Eu estendi em primeiro lugar para o social, escolar, até me isolar de gente e ficar mais no pensar. Hoje eu estou mais no pensar do que no contato com as pessoas. Então fui do físico para o psíquico.

Marcos: Por que a senhora fez esse trabalho no SESI?

Virgínia: Pois é, tem a ver com higiene mental, não é isso? É um período da higiene mental.






Psicanálise

Marcos: E aí a senhora vai para Londres?

Virgínia: Foi. Fiquei lá 5 anos.

Marcos: E a senhora foi para Londres com uma bolsa?

Virgínia: A custa própria. Eu falo, ninguém acredita que isso seja possível. E sabe por que eu consegui? Pelos meus vencimentos durante 5 anos, e mensalmente o Governo me pagava a licença. Não é fantástico isso? Vivi dessa licença. Do meu ordenado por mês, por que não?

Marcos: Qual era o cargo que a senhora tinha?

Virgínia: Era o cargo de Educadora Sanitária. Sabe quem me garantiu o ordenado durante 5 anos? O nosso presidente Jânio Quadros. Eu recebi durante os 5 anos que eu morei em Londres, mensalmente, os vencimentos. Eu recebi mensalmente meus ordenados. Ele garantiu. Ele acreditou em mim.

Marcos: A senhora negociou a licença diretamente com ele?

Virgínia: Negociei diretamente. Eu estava em Londres, mas aí tinha licença de 1 ano, licença-prêmio. Aí, quando estava acabando eu escrevi para o Jânio Quadros e contei a minha história. E dizia que era importante eu permanecer lá, porque eu trazia coisas importantes para nós. Análise de crianças, por exemplo, levava 5 anos. Então precisava de tempo. Sabe que o Jânio despachou favorável? Formidável, não?

Marcos: E a senhora foi para Londres porque a senhora ia fazer formação analítica lá? É isso?

Virgínia: Eu queria especialização. Formação eu já tinha.

Marcos: E a senhora foi para que instituição lá?

Virgínia: Para a instituição de psicanálise de Londres. Analista didata eu já era. Mas eu tinha consciência de que precisava estudar para fazer jus ao nome. Então fui para lá. Eu tive convívio com grandes psicanalistas, como o Bion. Os maiores psicanalistas. Eu tive, durante 5 anos, a oportunidade de estar junto e me valer do desenvolvimento da psicanálise: Melanie Klein, [Wilfred] Bion, [Donald] Vinikot. Essa turma toda.

Marcos: E aí, quando a senhora retornou ao Brasil, a senhora ficou voltada totalmente para psicanálise?

Virgínia: Eu já era, sempre fui.

Marcos: A senhora é ligada a alguma sociedade?

Virgínia: A Sociedade Brasileira de Psicanálise. Uma coisa que eu sempre fiz e faço, e pretendo fazer é incentivar o desenvolvimento da psicanálise. Eu levei psicanálise para Brasília. Sabe disso? Hoje Brasília tem grupo de psicanalista formado e reconhecido pela Internacional. Eu é que levei, sabe? Então, eu sempre fiz isso. Onde achava que precisava levar a psicanálise, eu levei. Levei para Escola de Sociologia e Política. Antes de ir pra Inglaterra já tinha a cadeira de Psicanálise na Escola de Sociologia e Política.

Marcos: A senhora já estava formada em psicanálise?

Virgínia: Me formei em São Paulo, com a Doutora Koch.

Marcos: Ela veio da Alemanha na década de trinta. A Dra. Koch era de origem...

Virgínia: Alemã. Eu fui a primeira pessoa que usou o divã da Doutora Koch. Mas não é pra contar isso pros outros, viu? Os médicos não vão gostar. Estou fazendo brincadeira agora. Acontece que fui mesmo... A Doutora chegou, todo mundo com receio, com medo... E a Doutora: "Estou organizando aqui, quero ver quem quer...". "Eu quero!" Eu sempre brinco que estreei o divã no Brasil.



26 Realizada na cidade de São Paulo em 25 de agosto de 1995 (1 hora e 33 minutos).
27 O Ginásio do Estado de São Paulo é uma tradicional escola pública paulista fundada em 1894. Atualmente tem o nome de Escola Estadual de São Paulo. 
28 O pai de Virgínia Bicudo criou um curso pré-vestibular em sua casa com intuito de preparar alunos para entrarem na Faculdade de Medicina de São Paulo (Zingg, 2009). 
29 A tradicional instituição pública de ensino denominada Escola Modelo Caetano de Campos, situada no bairro da Luz, em São Paulo, foi criada em 1890. Sobre a ideologia das escolas modelos, ver Carvalho, 2002. 
30 Tratava-se da Vila Economizadora, criada em 1907, pela Sociedade Economizadora Paulista, situada no Bairro da Luz, na Rua São Caetano nº 602 (Medrano, 2006:1-26). 

31 De acordo com Zingg (2009), todos os irmãos de Virgínia Bicudo fizeram o ginásio. Apenas ela concluiu ensino superior. Duas de suas irmãs, Lurdes e Helena, se formaram professoras. 
32 O currículo abrangia as seguintes disciplinas: Noções de Estatística Vital e de Epidemiologia; Higiene Infantil; Higiene Mental, Social e do Trabalho; Ética, Educação e Administração Sanitária; Princípios e Processos de Enfermagem em Saúde Pública (Rocha, 2003). 
33 O médico Geraldo Horácio de Paula Souza (1889-1951) foi o fundador do Instituto de Higiene e da Faculdade de Higiene e Saúde Pública, núcleos que deram origem à atual Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Paula Souza realizou diversos trabalhos junto à Fundação Rockefeller no país nas primeiras décadas do século XX. Embasado no modelo norte-americano, ele transformou o Instituto de Higiene de São Paulo em um centro de higiene e saúde pública, voltado ao ensino e a pesquisa acadêmica (Faria, 2006:182). 
34 A médica Adelheid Lucy Koch (1896-1980) formou-se pela Universidade de Berlim, especializando-se em psicanálise pelo Instituto de Berlim e, em seguida, passando a ser membro da Sociedade de Psicanálise da mesma cidade (Sagawa, 2002). 
35 Paulo Duarte foi jornalista, escritor e etnólogo. Ele esteve envolvido no processo de organização e divulgação dos resultados da pesquisa da UNESCO sobre as relações raciais em São Paulo (ver Bastos, 1988).


Extraído daqui, ó.











sexta-feira, março 22, 2013

Crianças.


As crianças me fazem acreditar num mundo possível e melhor. São elas que me fazem levantar da cama todos os dias, para ir trabalhar. É por elas que estou ali e aqui, viva, inteira. Por elas meu coração ainda respira alguma esperança. 

Eu amo meu trabalho. Professora de crianças pequenas. É o que mais fiz na vida, faço isso há dezessete anos. Não sei como, mas quase sempre dei aula para crianças entre três e seis anos, foi assim, acontecendo.  Hoje olho para trás e penso, tantas histórias, tanto tempo. Nunca consigo lembrar-me de todas as frases. 

Muito embora o reconhecimento seja ínfimo, durmo em paz com minha consciência. E feliz, feliz demais pelo  sorriso de cada uma delas, todos os dias. 

domingo, março 17, 2013

Coisas de cor (de coração).

Ainda não consegui escrever poesia de amor para o amor. Então, vou aqui copiando coisas lindas que leio por aí. Por amor, por aí. Mas sentindo amor bem aqui.

Desejo

Geni Guimarães

Pousar 
De leve em teu pescoço a minha mão
e contar carneirinhos em tua nuca.
Botar a alma para dormir 
aos pés dos teus cabelos.

Trilhar-te passo a passo 
como se soltasse as mãos sobre pianos. 
e após o efeito do néctar que aspiro;
dormir. 
Ser recheio, desta concha você. 

A Busca.


sexta-feira, março 08, 2013

Colegas.


A natureza do tempo.





Fiquei pensando se escrevia um título chamado a natureza do tempo ou a natureza e o tempo. Acho que quero falar de muitas coisas e não só essas duas, por  isso, deixo assim, pensando que poderia ser de outros modos também.

Hoje, ao comprar flores (tenho uma amiga que me ensinou como é gostoso comprar flores para decorar a casa às vezes), o moço da floricultura me explicou que algumas flores não desabrocham porque aqueles que cultivam rosas para vender as enchem de um produto para que elas peguem logo a cor final delas. Eu não sabia de nada disso. Pensava, por exemplo, que uma rosa rosa nascia rosa. Ele me disse que todas nascem verdes e vão ficando de suas cores com o tempo. Mas, para que peguem logo a cor, há um produto que acelera sua coloração, mas muitas vezes faz com que elas não desabrochem. E eu sempre achava que aquelas mais fechadinhas duravam mais e desabrochariam lindas. Ledo engano. Muitas vezes, aquelas bem fechadinhas e minúsculas não completaram seu ciclo de vida "natural". 

Comprei então algumas rosas brancas que já estavam começando a abrir. Ele também me falou sobre o formato das flores e como ele sabia das coisas das flores. Fiquei encantada. A chuva caía lá fora e eu aprendi sobre o tempo. 

Voltei para casa na chuva, pensando no tempo e na natureza das coisas. Na natureza, na cultura, que por sinal é também uma palavra relacionada à natureza. Toda essa briga entre natureza e cultura. Eu não vejo muita diferença. Fiquei lembrando, na chuva, do meu tempo de criança, quando minha mãe era a primeira a sair na chuva e chamar a gente para ver como o sol ficava no meio do temporal. Ela ensinou tanto a gente a tomar banho de chuva que, certa vez, meu irmão veio da escola para casa passando em todas as bicas d'água que encontrou pelo caminho e além de se molhar inteiro, molhou também todos os livros. Minha mãe não teve como reclamar muito.

Fiquei pensando no tempo, assim. Eu lembro que eu tinha dois empregos um tempo atrás. Tinha mais dinheiro e menos tempo. Hoje, tenho um só. Tenho menos dinheiro e mais tempo. Prefiro assim. No final das contas, o saldo positivo é só meu e talvez não do banco. Mas, de verdade, isso realmente não importa agora.

E assim, parece que apressar as coisas é a lei antinatural mais natural dos mundos, desde que esse mundo virou o único mundo possível. Na escola, a gente lê um texto na reunião de pais sobre o processo de transformação da lagarta em borboleta e em como alguém, por imaginar que ela estivesse sofrendo, tenta retirá-la mais rápido do invólucro e ela acaba morrendo antes de se tornar uma borboleta. Isso só para dizer que as crianças precisam ser crianças, com toda a dor e a delícia de ser criança. Muitas vezes, na maioria das vezes, a família quer que a criança aprenda tudo muito rápido, principalmente ler e escrever. Nessa sociedade da palavra escrita, tudo que vem antes é pré, primitivo, não serve. A gente fica ali pra garantir a infância. Que mundo. No meu tempo, quem garantiu a minha infância foi a minha mãe. E as crianças da rua, ah, a rua...

A gente apressas as coisas por tudo e em tudo, e, às vezes, só pelo prazer de apressar. Isso talvez seja o maior sintoma de como não fazemos as coisas de maneira refletida.

E, por falar em tempo, fiquei pensando se deveria falar do tempo que fiquei longe e não escrevi tanto. Ainda não tenho certeza. Tenho feito muitas coisas, escrevendo, inclusive, mas não aqui. Um amigo diz que acredita que talvez agora, depois de tanto tempo, eu esteja realmente envolvida com alguém, justamente porque não escrevo aqui. Ele tem razão. E ele me conhece muito mais que muita gente que lê isso aqui. Desse modo, pode ser verdade.

Envolvida. Apaixonada? Talvez não soubesse dizer a medida, o nome. Mas há alguém. Alguém que me escuta nas minhas horas mais chatas, descalça minhas sandálias, me põe no colo, pergunta o que eu quero e o que eu tenho quando minha cara amarra. Alguém que há tão pouco me conhece e pergunta do outro lado da linha porque minha voz tá assim. Alguém que me diz eu te amo entre um sono e outro, no meio da noite, quando a gente se vira pra trocar o lado do abraço. 

Mas eu, sempre tão aberta, sempre tão discreta. Acostumei-me a pensar que tinha resolvido mais da metade dos meus  problemas. E agora, ele vem, e descobre em mim um mundo de coisas das quais me envergonho mas, ainda assim, me aperta forte no peito, me faz cafuné e me diz mais um eu te amo. Sou feliz, deixa eu ser feliz mais um pouquinho, encolhida em seu carinho, recostada em seu desejo. 

É por isso minha lonjura daqui, porque fiquei sem palavras por alguns tempos. É da natureza do tempo de uma mulher que achava que ia viver só o resto da vida, com suas lamentações e murmúrios. Com e pelos sentimentos dele por mim, passei a dar valor também a outras coisas e entender como algumas das coisas a que eu dava máxima importância não eram o mais valioso numa relação de cumplicidade. Coisas como tempo, natureza, crença, raça. 

Ele só me pede uma coisa, que eu ainda não sei fazer direito. Ele me pede que eu deixe que ele me ame. Parece simples, mas, como tudo na vida, é preciso exercitar mente e coração para deixar-se amar. O bom disso tudo é que ainda sou uma boa aprendiz. 

sábado, março 02, 2013