Você que me lê, me ajuda a nascer.

sábado, julho 28, 2012

A vida dos peixes.


Pina 3D.


É coisa linda gente que entende o mundo inteiro e transforma tudo isso num gesto, numa dança. Mais não digo.

sexta-feira, julho 27, 2012

Liberada, por Shirley Campbell.


LIBERADA ©

Yo ya no busco razones para mi piel
no busco más excusas ni explicaciones para la redondez de mis nalgas
o la natural cadencia en mi andar...
no justifico ya mi natural agrado por los tambores o la necesidad de mi cuerpo
de danzar al ritmo que le tocan...

Hace ya tiempo que deje de explicar antepasados
que justifiquen mis labios o mi extraordinaria nariz
o la hermosura incólume que me acompaña desde tiempos inmemoriales
no justifico más mis sincretismos 
ni mis pasiones, ni mi sensualidad
yo ya no otorgo razones para mi ser.
Me convertí en mi misma
me aprendí
soy yo.

Tengo certeza de mi misma y de los míos
no necesito autorizaciones para ser
no pido ya permisos para vivir.
Hoy disfruto con sobrada elegancia mi negrura
la llevo con honor, con garbo y distinción
la paseo por parques, mercados y plazas
por escenarios, anfiteatros simples coloquios y grandes conferencias
con placer me colma el alma
el discurso y la vida.
Ya no intento disimularla en mi cabello
en mi tez o en mis distinguidas alocuciones
...la aprendí de memoria
desde adentro, con historia y desde el centro del alma.

Por eso, ya no preciso de razones para ser
porque me descubrí limpia
brillante
victoriosa
incólume
probada
bendecida
batallada
negra
ya no, 
no preciso razones 
hoy soy yo
liberada.

quarta-feira, julho 25, 2012

Cópia.

Eu queria entender porque as pessoas passam mais tempo da sua vida tentando ser uma cópia mal-feita de alguma coisa que lhe disseram ser bonita (a saber, mulher branca, olhos verdes ou azuis, europeia, magra) e menos tempo tentando ser original, ou seja, elas mesmas. 
Conheço mulheres que passam a vida toda com lente azul, cabelo sempre pintado de loiro, regime que faz ficar doente, só pra atender exigências que vem de fora dela. Tudo bem, eu concordo que somos bombardeadas por todas essas coisas o tempo todo, mas faz tão mal assim, desliga a televisão, desliga o mundo. 
Sabe o que é? Vou falar de mim.
Ser eu mesma me consome tanto tempo, visto que o bombardeio para que sejamos outra pessoa, uma pessoa que nunca conseguiremos ser (a saber, mulher branca, olhos verdes ou azuis, europeia, magra), que por um segundo eu quase entendo porque as pessoas passam a maior parte da sua vida só querendo ir com as outras, com a multidão.
Cansa, cansa.
Mas, ainda assim, eu prefiro o cansaço de lutar para ser eu mesma do que o despedício de meu tempo tentando ser outra pessoa. Isso aí, além de cansar mais ainda, deve doer a cabeça e o coração.

segunda-feira, julho 23, 2012

O sangue que circula.

Tenho problemas de circulação do sangue quando sofro por amor. É engraçado, mas ele demora a circular, eu sinto quando ele entope minhas veias e sob minha pele meu corpo se avoluma, criando bolhas de sangue pelo meu corpo.
Fui a uma hematologista renomada, fiz todos os exames. Ela me fez várias perguntas, riu comigo, perguntou coisas da minha vida como "o que faz nas horas vagas?", "qual seu filme predileto?". Abriu os exames e disse que eles não continham nada de irregular. 
Me chamou de canto e perguntou se tinha alguma coisa que pegava, se eu estava mal, triste, coisas do coração. Disse que tinha acabado de sair de uma relação bastante complicada. Ela disse, pode ser, pode ser. E perguntou se eu tinha alguma crença. 
Agora, outras relações complicadas. O sangue não circula bem, depois de algum tempo. Tento não ficar preocupada com isso, mas preciso falar. E não para qualquer um. Preciso falar para quem precisa ouvir. Ou pra quem, pelo menos eu acho, tem que ouvir.
Nem sempre consigo. As pessoas não querem ouvir tudo sempre. Querem falar muito, falar muito, mas não querem ouvir coisas sobre elas mesmas que nem elas mesmas conseguem dizer.


Segui a vida, tentando falar tudo o que sinto. Eu consigo. Minha amiga diz que é complicado conviver comigo às vezes, porque falo tudo, as pessoas não estão acostumadas, as pessoas se assustam. Mas, ainda assim, ela acha melhor.
Mas, no fundo, eu sei, foi um elogio. E eu adorei.

Exposição Joias Crioulas.

sábado, julho 14, 2012

Beije seu preto em público.



Uma semana e essa agonia. Entendi, enfim, o que me atormentava. Eu queria de novo aquela coisa da hora em que ele me segurou pela cintura no vagão do trem e me beijou. Eu flutuei, eu quase voei. Fiquei boba e queria repetir toda hora, mas ele estava falando algo muito sério, algo que eu estava prestando muita atenção e que, depois disso, passou a ser secundário (eu esperava entre um intervalo e outro a hora em que eu poderia me aproximar bem devagar do rosto dele e ele me pegar de novo, pela cintura, como ele tinha feito, sem avisar), mas que eu, muito fina, não deixei que ele percebesse. 

Aí lembrei que fazia muito tempo que eu fazia isso, namorar em público. Em parte porque sou uma chata de galochas e nunca gostei muito de agarra-agarra na frente de todo mundo. Sim, eu sou uma chata. Mas, dessa vez, nesse dia, eu senti que era o que eu precisava, e o que deve ser gostoso também num namoro, beijar o pretinho em público. Ser beijada. Agarrada. E as pessoas olhando, admirando nossas belezas pretas e cabelo e sorrisos e agarramentos no meio do trem. Isso também é bom, entre tantas outras coisas de um namoro.

Quando cheguei em casa, meus dois amigos hóspedes me disseram, de sopetão, sem terem combinado:


Nossa, você está linda!


Eu disse:


É amor!


Mas nem era. Era simpatia, quase amor. Era amor àquele momento em que ele pegou na minha cintura e me fez quase voar. Mas, acho que também tem muita responsabilidade nessa coisa toda. Você pode sentir prazer, quase amor, mas não pode se entregar. E não sei, talvez não esteja fazendo isso direito. 


Mas, encontro respostas conhecendo minha mãe. Ela é assim:

[...]
Nanã também tem relações com Xangô.

Outros tabus conservam igualmente características ameaçadoras ainda que veladas. 

Não gosta de homens, e é praticamente assexuada, possuindo grande capacidade de trabalho, é autossuficiente, tem hábitos austeros e intolerante a preguiça, falta de educação, desordem, desperdício.
[...]





sexta-feira, julho 06, 2012

Um velho amor chamado futebol.

No último fim de semana, voltei para um amor antigo. Há exatos 13 anos eu o larguei, porque achei que era pesado dividi-lo com um outro amor que o rondava. O dinheiro estava seduzindo-o por demais, achei que não ia vencer essa briga.
Em 1998, o Brasil perdeu a Copa do Mundo para a França e eu me separei do futebol. Aquilo foi difícil para mim, difícil demais. Uma derrota que mexeu muito comigo, talvez uma das poucas coisas que mais me deixaram pra baixo assim, que me fizeram mudar radicalmente de opinião.
Segui a vida. Vez por outra, dava uma olhada muito por cima sobre o que estava rolando no futebol. Nunca conseguia jogar fora o caderno de esportes do jornal que assino, passava o olho por cima e fingia que aquelas coisas todas não me afetavam. 
Porque futebol sempre me animou, sempre me deixou acesa. Eu adorava acompanhar os jogos e os bastidores, dar pitaco nas formações em campo, no técnico, na vida de todas as pessoas envolvidas. Isso começou com o Brasil ganhando a Copa do Mundo de 1994, eu tinha com catorze anos. Escrevi e comentei todos os jogos numa agenda que ainda existe, guardada num baú de madeira lá em Salvador. Desenhava as posições dos jogadores, comentava sobre as jogadas, fazia previsões. Depois disso, continuei acompanhando os outros torneios nacionais e comecei a prestar mais atenção no meu time, Vitória. Descobri para que serviam as divisões de base, fiquei de olho em quais delas supriam os jogadores dos times do Sul.
No tempo em que fiquei longe, eu sentia as coisas piorando, senti que tinha realmente perdido. O dinheiro, aquele amante, tornou-se mulher oficial do futebol, numa cerimônia aberta, transmitida ao vivo, ao meio-dia, por todas as televisões do mundo. É ela, a grana, bufunfa, quem ostenta a aliança de ouro na mão esquerda. O futebol, numa atitude comportada, rendeu-se. Sabia que para continuar vivo, respirando aqui e ali, encontrando jogadores interessados nele, tinha que fazer conchavos dos mais vis. Mas, eu, mulher fiel, devota ao esporte coletivo e solidário, de novo, não consegui suportar.
Refugiei-me em outras bandas. Fui ver basquete, vôlei, natação, e até boxe. Nada me apetecia como aquela coisa frenética atrás de uma rechonchuda, um esporte-arte que nunca pode ser previsível, mesmo casado com uma mulher tão cruel e prepotente. Não, ele não saía de minha cabeça. Tive sonhos, pesadelos também. Em alguns deles, o futebol me cantava um samba-canção. Eu quase me entregava. 
Os momentos mais cruciais eram aqueles em que, numa roda de amigos e amigas, começavam a falar dele. Eu teimava em não participar, ou soltava frases idiotas como "O futebol se vendeu". Ciúme puro. Ciúme do mais puro fel da traição. Nestas rodas de conversa, eu me sentia muito triste por não poder participar mais ativamente, por ver pessoas nem tão devotas assim saberem mais do que eu sobre ele, por não saber mais em quais times os jogadores em questão tinham jogado, quais eram suas fraquezas e quais os seus pontos fortes. Não sabia mais quem tinha sido o último campeão brasileiro e quem teria sido o primeiro a ganhar a Libertadores da América. Isso acabava comigo. Às vezes eu mentia (eu minto muito bem) que sabia sobre o que estava falando, noutras fazia todo mundo mudar de assunto ou simplesmente fugia.
Além destas rodas de conversas, tinha minha mãe. Ela continuava acompanhando o futebol como sempre, como antes. Sabia as escalações e ouvia pelo rádio, jogos da série B e C do Campeonato Brasileiro. Mas, como uma boa mãe, não entrava em detalhes comigo, respeitando minha dor. Mas doía ouvi-la ao telefone com seu namorado comentando o jogo de domingo ou dizendo a mim que havia passado a tarde bebemorando alguma vitória. Dores. 
Passaram-se treze anos. As coisas mudaram. Mas, o que me mudou mesmo foram duas coisas que aconteceram no mesmo fim de semana: no caderno de esportes do jornal que assino, li a história de Romarinho. Li também sobre Mario Balotelli. Textos muito bons, onde aparecem questões muito caras a mim atualmente, a saber, classe e racismo. E teve também a ImpedCopa.
Convidada por um amigo, parti de São Paulo para Porto Alegre para ver um torneio de futebol iniciado/fomentado/incentivado pela Internet, com os leitores de um site chamado Impedimento. Ideia boa por si só. Não precisaria de mais nada para ser perfeita. Mas, além disso, tinha também o costelão de doze horas e as pessoas. Ah, as pessoas. Homens que estavam ali pra jogar futebol (e para tantas outras coisas, coisa que aprendi também, futebol é bom justamente porque nunca é só futebol). Disse pessoalmente a um dos organizadores da coisa toda, Douglas Ceconello,da minha admiração pelo evento. Disse também uma bobagem do tipo "Porque a grande mídia não fala disso?". E seu Rudy (não sei se escreve assim, ajudem-me),churrasqueiro oficial da parada, completou: "Quando a mídia grande souber, isso aqui acaba". 
E então, como num passe de mágica, entendi tudo. Entendi como eu poderia manter vivo o meu incontrolável amor pelo futebol. Não, eu não queria aceitar isso, desde o começo. Minha "moral de jegue" não me deixava ver que, para ficar perto do futebol, todos aqueles homens tornaram-se amantes dele. "Os outros". E eu, eu era mulher demais para aceitar isso sem reclamar. Passei treze longos anos para entender essa coisa de ser a outra, a amante que, na verdade, é quem mantém seu amor de pé. Folhetim de quinta? Danem-se. Não dizem por aí que amor é isso? Baden Powell com Vinicius de Moraes escreveram "Amor só é bom se doer". Talvez ele estivesse falando de futebol. Vai saber. A verdade é que eu voltei.
E, sem nenhuma mágoa, ele me aceitou novamente, a tempo da final da Libertadores 2012. Me preparei para ver o jogo. Afinal, era um encontro depois de treze anos! Lá estava eu, pronta, disposta. E o futebol me presenteou com a presença de Emerson no jogo, jogando o mesmo futebol que eu sempre admirei. Aliás, o Corinthians jogou bem, mereceu o título (e não, eu não sou corinthiana. Mas tenho verdadeira admiração por torcidas, esse ajuntamento de gente e homens). 
E aqui, vejam vocês, começa a minha história de amor com o futebol. Porque, como canta minha querida Beyoncè Knowles, "tudo que vai, volta".