Você que me lê, me ajuda a nascer.

terça-feira, maio 29, 2012

Ele.

Uma coisa que me toma. Sem acentos. Quero uma poesia, uma via. Uma saída.
Ele sempre aparece. Do nada, mas com tudo. E eu, me acabo.
Nunca vou entender. Muitas vezes eu quero.
Minhas racionalidade e minha querência (carência?) grita por uma explicação.
Mas Drummond puxa a barra da minha saia e me lembra que amor foge a dicionários e a regulamentos vários.


segunda-feira, maio 28, 2012

Chororô (Mariene de Castro, Abre Caminho).








Final de semana de emoções. Assisti no sábado pela manhã o DVD Mariene de Castro, Abre Caminho. Já o conhecia, mas nem sei porque nunca tinha visto. Dessas coisas que eu faço comigo mesma, como ouvir Criolo quando todo mundo está esperando o segundo cd. Assisti o DVD e me peguei chorando de soluçar em muitos momentos. No DVD, tem muita coisa de Salvador e muita coisa de mim. As ganhadeiras de Itapuã, grupo que tive o prazer de conhecer pessoalmente e que conheço a proposta, me emociona sempre (a tradição de mulheres vendendo quitutes e peixes na orla de Salvador durante o final do século dezenove e todo o século vinte é coisa que me faz arrepiar só de pensar. Os ditados orais "olha o peixe, o amendoim torrado" e o modo como falam é coisa que tem tanta história... lembro de um homem negro muito alto e bem forte que vendia bolo de tapioca em Pau da Lima na década de noventa. Ele falava de um modo que a frase "Bolinho! Olha o bolinho!" saía como "Bolires! Olha o bolires!". A gente brincava de imitá-lo na rua e, para mim, um grande dia foi quando, ao ir visitar minha avó que ainda mora no final de linha, descobri que ele era vizinho dela, porta de frente. Descobri o "bolires" e sua família, filhos e mulher. Ele, que para mim era uma lenda viva, havia criado sua família fazendo aquilo).


Depois, há um grupo de dança infanto-juvenil de Fazenda Coutos, Grupo Plim. Também choro vendo aquelas crianças dançando, sambando, querendo um amanhã feliz para todas e não apenas para algumas delas. Falem o que quiser, mas Mariene de Castro, a tabaroinha, é uma mulher iluminada demais. Fia de Oxum em tudo e por tudo, devota, agradecida. Sinto-me feliz por poder conhecer este trabalho.

Mais coisas sobre o trabalho da moça aqui.

domingo, maio 27, 2012

Revelação.

Eu nunca deixei de falar o que sinto, não vai ser agora. Falei, escrevi, falei e falo. Não tou nem aí para os pessimistas de plantão. Aprendi com minha mãe, bell hooks e mais um monte de mulher preta que não posso ficar calada, mesmo que pareça contramão.
A gente defende as nossas ideias falando.
E o meu amor eu cultivo praticando.
Não importa o tanto da correspondência. Pessoas não são iguais, não amam como você ama, não tem obrigação de amar como tu ama. E não espere.
Eu amo. Apenas.
Pode parecer doloroso, mas estou no mundo a la Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Dona Graça e tantas outras.

Histórias de família.

Uma hora no telefone com mainha e ela esclarecendo histórias antigas de família. Com muita vontade de ir procurar mais a fundo a família de meu pai. Não é que eu não o conheça nem nada, mas hoje não temos mais um contato assim tão estreito. Sei de meu pai pelo que mainha fala e sei da família dele que não conheci (meu avô, parentes distantes) pelo que ela sabe, que também é muito pouco.

Uma coisa que eu sempre quis saber era como foi formada a família de mainha e de painho, digo, como cheguei até aqui, quais foram as pessoas e cores que se encontraram. Descobri muito até agora, mas, ainda quero mais.

Qualquer dia desses, escrevo tudo isso aqui. Ou num livro. Ou quem sabe, um documentário.

terça-feira, maio 22, 2012

segunda-feira, maio 14, 2012

Axé music (?)


Engraçada a vida.

Eu, quando morava em Salvador (e em outras cidades da Bahia), quase nunca ouvia a chamada música baiana. Na verdade, não precisava. Ela estava em todos os lugares por onde eu passava, fazia parte de minha vida, mesmo que eu não apertasse o play. 

Agora, morando em São Paulo há oito anos (nove, quase dez? Não, não!), quem bota Olodum para tocar sou eu. E Araketu, Banda Mel, Parangolé. Ouço tudo. Fico boba como lembro de cor letras como 

Criaram-se vários reinados
O Ponto de Imerinas ficou consagrado
Rambozalama o vetor saudável
Ivato cidade sagrada
A rainha Ranavalona
Destaca-se na vida e na mocidade
Majestosa negra
Soberana da sociedade
Alienado pelos seus poderes
Rei Radama foi considerado
Um verdadeiro Meiji
Que levava seu reino a bailar
Bantos, indonésios, árabes
Se integram à cultura malgaxe
Raça varonil alastrando-se pelo Brasil
Sankara Vatolay
Faz deslumbrar toda nação
Merinas, povos, tradição
E os mazimbas que foram vencidos pela invenção 

E outras como

... o nome desse orixá
Está gravado na história
Eu não posso mencionar
Gerado, foi criado
Está esculpido na mente
Muito além da minha consciência
Gerado, vou cantar no meu ifé
A palavra mais justa de um rei
No seu culto candomblé
 

Não é que eu não gostasse disso quando eu morava lá. É que era tão presente que... eu não precisava parar para escolher um cd' para ouvir. Saía na rua e isso estava tocando, assim como o samba duro em minha porta, o povo a rebolar. Não era um evento marcado com dias de antecedência pela internet. Aí eu ia pro palco do rock, eu gostava de coisas como Jethro Tull. 

E gosto disso tudo, ouço de tudo um pouco. Mas minha memória afetiva está povoada dessas coisas cantadas na minha língua. E agora, ouço muito, me apego a tudo que me lembra infância. 

É engraçado também algumas permanências. Tem uma música evangélica que eu lembro demais, todas as vezes que eu vejo um livro de Monteiro Lobato (sim, eu li tudo quando era adolescente. E tenho tudo, mesmo que hoje eu tenha uma outra visão sobre a obra do tal senhor):

quero lembrar, cristo ama você
apesar dos difíceis momentos
e de todas as situações
e hoje é tempo de olhar e ver
tudo novo de tornar
novo horizonte enxergar

Eu lembro dessa música porque, na época, ela tocava muito no rádio. E eu cantarolava. Eu abro o livro, começo a leitura de Reinações de Narizinho e essa música vem, como cheiro. E essas todas que escrevi e todas as outras, e mesmo aquelas que não são baianas mas foram cantadas por cantoras como Simone Moreno, Margareth Menezes, Alobened Airam e outras tantas. 

Música tem dessas coisas. Cheiro, som, visão, corpo. Tudo junto. Misturado. É por isso que é tão gostoso.

E, logo hoje, comentando sobre música com as moças no trabalho. Sobre o que seria axé, funk e pagode. E em como a gente definitivamente não ouve nada disso no rádio. O que passa no rádio não é música. É alguma coisa que chamada "empreendimento comercial com algumas notas no meio". Claro que, entre trinta ECANM, a gente ouve uma música e outra. Nessa proporção.