Você que me lê, me ajuda a nascer.

segunda-feira, março 19, 2012

sábado, março 17, 2012

Cenas.



Cena 01:

Rio de Janeiro, Tijuca. Quero trocar um dinheiro, chego à banca. Morando em São Paulo há alguns anos, tenho receio de pedir assim, de cara, "troca pra mim?". Dois homens brancos de meia-idade conversando, um deles é o dono da banca de revista. Pergunto se tem cartão postal. Diz que não e me diz onde tem. Faço cara de preguiça e digo que é longe, do outro lado da rua. Digo que quero trocar o dinheiro. Ele diz, mas isso é fácil. E me estende a mão, pede o dinheiro. O outro moço branco está com cara de simpático.

Cena 02:

São Paulo, Pinheiros. Depois de um dia cheio e trens que não passavam nunca, volto para casa. As pessoas conversam no celular, contam da demora do trem, se irritam. Eu não estou tão chateada, as cinco cervejas com as amigas me deixaram mais falante e sorridente. Mas, tenho sono. Um rapaz entra no trem para vender balas. Ele está irritado, como as pessoas. Pragueja o tempo inteiro porque não conseguiu vender nada nos últimos três vagões que entrou. Implora que alguém compre. Diz que não está pedindo, diz que está vendendo e que normalmente as pessoas enfiam a mão no bolso e pagam com gosto o triplo do valor, pela mesma bala no shopping, mas se recusam a comprar e ajudá-lo. Silêncio no trem. Ele também fica em silêncio. Depois volta, a mesma conversa. As pessoas incomodam-se e uma moça pede algumas balas. Ele diz até que enfim e aí, todo o estresse represado vira uma gargalhada abafada. Mas o moço, esse continua irritado.
Quando desço, ouço a moça que estava ao meu lado contar para o segurança do trem que o moço vendia balas. Segundo a lei do trem, isso não é permitido.

Grandes cidades. 

terça-feira, março 13, 2012

A noite não adormece nos olhos das mulheres.

Conceição Evaristo
(Em memória de Beatriz Nascimento)

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
do nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.


E o Cadernos Negros volume 34 - contos afro-brasileiros já está por aí, nos corações e ruas.
Vc pode encontrar em São Paulo na Casa da Preta, Rua Inácio Pereira da Rocha, 293. Tel.: (11) 3031-2374.

segunda-feira, março 12, 2012

quinta-feira, março 08, 2012

Relacionamentos (ou o contrário).

Eu estou de férias de mim mesma, escrevendo menos e fazendo coisas mais simples. Mas ainda viva e pondo intensidade no regar das plantas, conversar com as vizinhas, abraçar uma criança. Tive sonhos com palavras, elas me perseguem também dormindo.
Lavando pratos, pensei numa poesia mais ou menos assim:


Ela faz ele encontrar com ele mesmo todas as vezes que conversam.
Olha fundo em seus olhos, lhe dá paz. Segurança.
Ele troca o ralo do banheiro e também o chuveiro (nas raras vezes em que ela o queima, alternando entre inverno e verão o tempo inteiro). 
Perfeito.
Não fosse ele querer, além de tudo, roubar-lhe a alma.

Depois pensei, não, não, estou aqui reafirmando os estereótipos. A gente estuda tanto para descobrir que tudo que nossa vó diz tem muita razão, muita ciência. E o que essas pessoas sábias sabem desde que nascem é: ficar junto é a melhor coisa que temos a fazer.
Mais pessoas muito importantes chegando em minha vida. Estou bem feliz para elas, de dentes abertos e alma lavada. Há velhas pessoas, há pessoas que eu amo, muito embora tudo me diga que eu não devesse fazer isso comigo mesma. Não estou preocupada com isso.
Estou preocupada em sentir. Sentimentos não são motivos, são sentimentos. Não justificam nada e não querem responder nada, só querem existir. E eu os deixo todos saírem para fora, amor, ódio, alegria, tristeza.


quarta-feira, março 07, 2012

domingo, março 04, 2012

Sabedoria Materna.

Quando mainha ouviu, no filme Histórias Cruzadas, a mãe da jornalista Skeeter falar que, às vezes, a coragem pulava uma geração, disse um é mesmo, no meio da sessão. 
Não acho bem que, no caso de nossa família, a coragem tenha pulado uma geração. Talvez tenha mais a ver com falta de oportunidades. Ontem, conversando com mainha, perguntei à ela o que fazia com que, mesmo não tendo tido acesso à universidade, achasse que para suas filhas, esse lugar era tão importante. Fiquei com isso na cabeça quando voltei de uma visita à casa da senhora que me acolheu aqui em São Paulo há quase oito anos. Agora, há duas meninas negras com mais ou menos a mesma idade que eu tinha quando fui mora com ela. Uma de Minas Gerais, outra da Bahia. Elas trabalham o dia inteiro, não sobra muito tempo para estudar. Na verdade, não sobra muito tempo nem para sonhar. Acordam às cinco da manhã e chegam em casa às nove da noite. 
Mainha então me contou coisas que eu já sabia, outras não. Disse que foi criada mais com a família de seu pai, que valorizava a educação das mulheres, mesmo no interior da BA, há quase cinquenta anos atrás. Uma família de negros e indígenas, que tinham alguns médicos e advogados, muitas professoras. Ela sempre falou de sua tia Amália, que falava da importância de estudar. Essa minha tia-avó nunca casou. A gente vai visitar a moça sempre que pode, ela mora num lugar lindo, uma casinha no meio de um mundo de terra, que ainda precisa de gerador para ver-se o noticiário e com um banheiro muito simples. Uma fonte de água limpa e animais vivendo soltos, o que, à primeira vista, pode assustar muito (tomar carreira de boi e picada de galo, na hora, é emocionante, mas, depois, vira graça e lembrança boa).
Uma delícia de lugar. Lembro que a primeira vez que o namorado de mainha foi lá e viu um monte de mangas no chão, caídas, ficou louco. Queria botar tudo dentro de um saco e trazer para casa. Ele, que sempre morou na "cidade", achava tudo aquilo uma belezura e um desperdicio! Até os bois e as vacas, os cavalos e as galinhas que por ali andavam devem ter rido dele.  
Mainha foi criada nesse lugar. Depois, veio para a cidade. Mas a vontade de estudar nunca passou. Formou-se em Nível Médio depois de casada, e sempre quis fazer faculdade de Comunicação Social (que nem sei se ainda existe!). Meu pai não tinha terminado o Ensino Fundamental. Todas as vezes que a gente se estabelecia num lugar, lá ia mainha procurar vaga para ele terminar de estudar. Ela mesma terminou o segundo grau em uma cidade diferente da que tinha começado. Lembro de algumas fotos dela com a farda do segundo grau, sorrindo no meio de suas colegas. Mainha estava trabalhando e na época, não tínhamos celular para nos comunicar. 
No dia de inscrição para o vestibular, fiquei numa fila de mais de nove horas para conseguir o tal papel que me dava a garantia da inscrição. Cheguei em casa quase meia-noite e isso para mim que, à época, tinha dezesseis anos, era bastante tarde. Estava sozinha, com fome e com medo. Não entendia ainda tanto esforço e nenhuma ajuda de meu pai para ir me buscar no ponto de ônibus. 
Lembro de tudo, até da roupa que vestia! Um vestido rosa com florzinhas pretas. Não gostei da experiência, porque me senti só. Fiz o tal vestibular, passei. Comecei a estudar. Minha mãe ajudou-me muito para que eu não trabalhasse em empregos como vendedora de loja ou coisa parecida enquanto estudava. Na verdade, ela nunca cobrou que eu trabalhasse enquanto estudava. Nunca. Isso nunca foi discutido em minha casa. Eu estudava, isso era um trabalho, ponto. 
Eu perguntei à ela como ela teve esse tino, mesmo tendo poucas experiências escolares. Disse que pensava à frente, tendo visto a experiência das pessoas da família de seu pai, que estudaram. Isso é ancestralidade.  
O esforço feito por mim e por mainha já aparece. Fui visitar as moças e senti-me mal por trabalhar apenas quatro horas por dia. Quando elas chegaram do trabalho, eu já estava cansada de não fazer nada. 
Amo meu trabalho, mas não quero morrer de trabalhar. Alíás, para amar meu trabalho, eu preciso continuar assim, trabalhando pouco. Qualquer dia eu falo mais disso.
No outro dia, tive que acordar mais cedo para ir ao trabalho. Era o dia de entregar minha dissertação de mestrado e eu peguei duas lotações para trabalhar. Comecei a chorar, dentro da lotação. Mas ninguém me olhava, eu sempre choro em trens e lotações quando tenho vontade, quase nunca as pessoas te olham dentro dos olhos por aqui, acho que até percebem que você está chorando, mas nunca tem certeza. Chorei pensando que há menos de oito anos passava sérias necessidades, mas, ainda assim, peguei o dinheiro que eu tinha, comprei uma passagem para Salvador, de ônibus, para reunir referências, para tentar uma bolsa para mestrado (curso que só comecei a fazer 06 anos depois que cheguei aqui). 
Era isso mesmo que eu queria que mainha explicasse, porque que eu fazia isso, o que é que me movia. Ela me contou tudo isso que eu contei e ainda disse que era tudo que ela sempre quis para ela. 
Por isso, eu sou o que sou porque vi com os olhos de mainha. 

Loo Nascimento.

Quer ver beleza?
Aqui.

Aproveito e copio uma das fotos aqui.


Tão forte, tão perto.


Viola Davis está no elenco. Linda e ótima atriz, demais.

sábado, março 03, 2012

Filhota.



Eu gosto assim, verde com letras prateadas. Fiquei olhando, olhando. Mas não abri, ia achar muitos erros, a gente sempre acha. Mas feliz demais, bum-bum baticum-bum!
Mas mais feliz ainda com amigos e amigas perto, sorrindo, escrevendo coisas lindas para mim. Chorei, chorei.
E mais não escrevo. Vou ali fazer tudo que não fiz por alguns meses, cuidando que estava da gestação da moça.
Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí...