Você que me lê, me ajuda a nascer.

terça-feira, dezembro 11, 2012

Ao contrário.

Eu tinha dito a mim mesma que nos últimos tempos, iria parar de querer controlar meus sentimentos. Passei por situações em que achei que, se fizesse isso, sairia perdendo demais.
Me deixei levar, mas, como sempre, fui protegida. Me salvaram a tempo de loucuras mil. Estou sã e salva, coração tranquilo. Descontrolada, mas tranquilo.
Pedi, pedi. Achei que iria me acostumar fácil com a ideia de me lançar ao mundo das paixões.
Mas a verdade é que, agora, quando a paixão me bateu a porta, com sorriso enorme e coração cheio, eu disse não. De cara, eu disse um não. Dei dois passos para trás, fiquei receosa. Ressabiada.

Fui e vou aos poucos, mas querendo sempre mais. Ainda me pergunto porque me prometi me lançar e não faço isso agora, quando o amor me parece bom, quando o sentimento me toma também, quando olho no olho dele e sinto a verdade que existe, eu não sei ainda o que me faz pensar duas vezes.

Ele mexe comigo. Com minhas certezas. Eu, tão durona e mandona, tão manipuladora. Ele não faz caso, não liga para o que não importa. Me faz refém de minhas palavras, vítima de minhas teorias. Porque ele não é generalizável, condensável, não veio com manual. Ele é, simplesmente é. Eu fico olhando para ele sem acreditar (aproveito para abraçar e beijar também). Ele simplesmente é, me agarrando no meio do trem (eu baixando a cabeça com vergonha no rosto e sorriso num canto da boca).

Com minha cara de que sabia tudo, fui confrontada. Agora, desarmada, só quero o abraço dele.

Ser feliz ou ter razão?
Me digam vocês, que me leem. Me ajudem a nascer.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Eu, Crise.

Queria ter ideias para transformar o que sinto em poesia. Mas não sai. Estou seca. Seca das palavras, cheia de sentimentos. Eu queria, mas não consigo.
O que eu sinto não é só meu e faz bem assim. Eu, que sempre escrevo sobre amar e não ser correspondida, sou invadida por um sentimento que me toma e é dele também. Não é ruim. Deixo as coisas acontecerem.

Mentira.

Não, eu não deixo. Eu quero controlar as coisas, controlar até o que ele sente e seu olhar. Quando me olha, eu sei. Eu sinto, eu entendo tudo com o coração. As palavras não querem dizer mais nada, mas ainda assim, ele me enche com belezas em versos, coisas como deusa do ébano e linda todos os dias. Todos os dias.

Eu quero mais o quê?
Bem, eu quero um bando de coisas. Mas dessa beleza de sentimento, nem preciso pedir mais nada. Tá aí. Acho que até dá pra pegar, se fizer um esforço bobo.


segunda-feira, novembro 26, 2012

Olhando no Espelho.


(Para meus netos Samora, Alan e Henrique Alberto)

Ao espelho te vejo negrinho
te reconheço garoto negro
vivemos a mesma infância
a melancolia partilhada do teu profundo olhar
era a senha e a contra-senha 
identificando nosso destino
confraria dos humilhados
a povoar de terna lembrança
esta minha evocação de Franca


Éramos um só olhar
nos papagaios empinados
ao sopro fresco do entardecer


Negrinho garota negra
vivemos a mesma infância
nos cafezais brincamos
nas jaboticabeiras trepamos
chupamos a mesma manga e melancia


Éramos uma única ansiedade
à subida multicor dos balões
pejados de nossos sonhos e ilusões
Negrinho meu irmão
como te chamavas tu?
Felisbino Sebastião Geraldo?
Serias menina: Rosa
Negra Alice Tarcila?
Ou te chamarias Aguinaldo?

Lembro nosso emprego:
lavar vidros 
entregar remédios
fazer limonada purgativa
limpar as sujeiras de uma farmácia

E aquele grito em nosso ouvido:
"-Acorda preguiçoso"? era o patrão
outra vez cochilaste reclinado ao chão
Assustados teus olhos dançaram
desgovernados pelas lágrimas
saltaste inutilmente lépido

Um dedo irrevogável
te apontou a porta do desemprego
assim regressaste 
à casa que já não tinhas
na noite anterior morrera
tua pobre mãe que a mantinha


Negrinha garoto negro
sei que somos uma
prosseguimos os mesmos
ao abandono de nossa orfandade

Assim juntos e sem nome
devemos continuar nosso sonho
nosso trabalho
reinventando as nossas letras
recompondo nossos nomes próprios
tecendo os laços firmes
nos quais ao riso alegre do novo dia
enforcaremos os usurpadores de nossa infância


Para a infância negra
construiremos um mundo diferente
nutrido ao axé de Exu
ao amor infinto de Oxum
à compaixão de Obatalá
à espada justiceira de Ogum

Nesse mundo não haverá 
trombadinhas
pivetes
pixotes
e capitães de areia

Buffalo, 1980

quarta-feira, novembro 21, 2012

segunda-feira, novembro 19, 2012

Sorrisos (e lágrimas).

Eu paro e deixo o amor passar.
Me invadir, tomar meus poros e pulsos.
Não por impulso apenas, mas pela beleza que tem o amor.
E como o amor me toma, me envolve, resolve, conforme, devolve, revolve, remove!

E vai... e vem.
Mas, ainda assim, eu prefiro sentir.
Dói e sara, lento e apressado, quero ouvir o amor bater aqui dentro.
Tum-tum-tum, batuque sincopado.
Mas eu ainda assim, leve.
De love.

sábado, novembro 03, 2012

Esvaziada.

Um sentimento de falta, mas não é bem saudade. 
Cansada, eu acho. 
Dolorida também. Não queria dizer isso, mas, dolorida. 

Acho que eu só queria colo. 
Dele. 
Dele.
Uma ligação.
Dele.
Dele.

Mas parece que nem posso dizer isso, o buraco que me esvazia aumenta mais.
E quer que ele venha, encher de palavras doces e gargalhadas.
Mas, ele não virá, eu sei.
Nem ligará.

...

sexta-feira, novembro 02, 2012

Saudade.


Estava aqui lavando os pratos quando Gil cantou para mim

quando a saudade vem não tem explicação

Desabei. Chorei das saudades. Saudade de mainha, de casa, dele (da voz, da risada gostosa que a gente dá juntos lembrando de gírias antigas), de meu irmão (das piadas dele, dele, dele), de minhas amigas. Tantas saudades, poucas palavras. Mais sentidos. Eu ando assim, muito embora quem me olhe de longe pense que eu estou toda razão, do tanto de coisa que ando fazendo pela vida. 

Mentira pura. Aliás, lendo os posts aqui, eu vejo como uso a letra, o verbo, para falar das mentiras que sou. E depois fico pensando que, quem não me conhece, pode achar que sou um engodo. Mas eu sou também. Talvez na hora em que eu escreva que é mentira, seja verdade. Um modo de me proteger da força que a verdade tem. Estava ouvindo uma música do Opanijé que diz

é tanta intimidade que a verdade vem a mim

Eu acho que, na verdade, a mentira não é o oposto da verdade. Mas olhe, essa escrevinhação era para falar de saudade. Depois desenrolo isso. Vou parar tudo isso aqui e ligar pra mainha. 

segunda-feira, outubro 29, 2012

E se chama amor.

 
Ah, o amor. Essa coisa que nos toma.
Ainda acho, como aprendi com um velho amigo na época da graduação, que o amor é uma coisa que não é desse mundo. Sobrenatural mesmo.
 
Ele está aqui, mas nao é daqui. Alienígena que eu amo. O amor não tem tempo, forma, medida, espaço. Não dá para dizer que não se ama porque se conheceu ontem (amar é uma coisa, viver junto é outra. Não que não se possa combinar tudo isso e fazer coisa linda, fazer crianças, mas eu ainda acho que são coisas diferentes), não dá para dizer que não se ama quem nunca se viu. Eu não duvido de nada, vou lá duvidar do amor?
 
Conheço pessoas pela internet, tenho amizade com elas, amo de paixão. Minhas amigas de longe que ainda não vi que o digam. A gente se fala como se já se conhecesse há mil anos. Porque a gente se conhece mesmo, passamos muito tempo conversando de todos os jeitos e é gostoso demais, por isso, eu sei, eu sinto, a gente se encontra e só vai melhorar, sempre melhora.
 
 
Já namorei à distância e por correspondência, não amei menos, não amei mais do que os que conheci logo de cara e ao vivo. Amei, amei, amei todos e ainda amo, amo as moças também. Porque, eu repito, não dá para dizer que não é amor porque nunca se viu, pegou, cheirou e sorriu junto. O amor foge a dicionários e a regulamentos vários, disse Drummond.
 
E esse regulamento do agora, do instantâneo, do imediato, o amor foge a léguas. O amor gosta da espera, do desejo, do dormir pensando e de manhã cedo ficar enrolando na cama pensando no beijo. E gosta também da pressa, da fuga, das coisas que se fazem para amar.
 
O amor é.  
 
Ainda estou louca. E, louca que sou, acredito em tudo que me dizem. No amor, nas crianças, na vida, na amizade. Como todo mundo diz, existem mil e tantas definições para o amor. Elizabeth Browning disse que não queria que seu amado definisse o amor que sentia por ela pois, fazendo isso, já não seria mais amor. Eu fico com a pureza e a resposta das crianças. Uma delas disse para mim, dia desses
 
amor é a força de ficar feliz
 
Cinco anos e todo o sentimento (e sabedoria) do mundo.  


domingo, outubro 28, 2012

Estatísticas.

Me enche de orgulho ver as estatísticas do blog e perceber que os posts mais lidos são estes aqui:

Chica Xavier, com 604 visualizações.
Rita Batista, com 312 visualizações.
Geni Guimarães, com 249 visualizações.

Só para constar.


sexta-feira, outubro 26, 2012

África negra, mármore branco.

Era uma vez eu, Veronica.

Cine Holiúdy.

As professoras.


Minha colega de trabalho pediu para a criança desenhar as professoras do nosso período. Uma menina negra de 05 anos. Ela me desenhou aí. Perguntei no twitter quem era eu. Minha amiga que me ama me disse:

a que tem o coração maior

Fiquei feliz.

terça-feira, outubro 23, 2012

Coisa feita.

Tem coisa feita aqui
Eu sinto o gosto do mel
E também do azedume
Minha orixá não brinca
Ela também tem ciúme
Compromisso firmado de branco,
Numa sexta-feira olhando pro mar
Isso lá é coisa que se pode esconder ou negar?

Tem coisa feita aqui,
mas também tem coisa feita lá
Sementes da mesma fé
Ela atravessa tudo que respira
tudo que está no ar


O amor não serve para explicar as certezas
É coisa feita
Coisa feita
É melhor sentir do que saber
E saber que se sente

É fatal
Ou, vai saber, é imortal

Rezo uma oração para acalmar as deusas
Mas ele vem e me tira as incertezas
Me ensina que tem mais coisa do que o que eu sinto,
Do que o que ele sente e do que o Ayie confirma

É coisa de antes
Mas de depois também
É coisa de agora
Misturada com a vontade de outrora

E quando vem assim
Quando o tempo não mais importa
Eu tenho medo
Tenho muita saudade, mas também tenho muito medo
Eu ouço o que ele diz, mas não respondo nada
Porque a única expressão que vem na boca
É coisa feita
Mandada

Enfeitada de azul, vinho e branco.
Ela vem, e não me (nos) larga
Ela dança, ela sorri, ela fortalece os caminhos
Ela existe e está dentro de nós
Saindo pra fora, transbordando, pulsando
Também pra dentro
Encontrando com a gente de novo, pra sair mais forte

Coisa feita.


Essa poesia é em homenagem a dança de Iansã mais Xangô que vi (e vivi) há um tempo atrás. Ou vivo, vai saber do tempo. 

segunda-feira, outubro 08, 2012

Histórias de Ébano: professoras negras de educação infantil da cidade de São Paulo - Dissertação.


Para quem quer ler e baixar a dissertação de mestrado que escrevi, é só vir aqui.
O título é Histórias de Ébano: professoras negras de educação infantil da cidade de São Paulo.


Divulguem!



Aloísio Menezes.


Essa foto que aparece no vídeo é de Bauer Sá.

Curva.



Quando ele me disse

Sabe, eu acho que eu não deveria dizer isso mas... eu pensei em você a noite inteira e hoje pela manhã, quando acordei. É uma loucura.

Estava no ônibus, passando pela praia da Ondina, fiquei parada, coração na boca, aquela curva e eu ali, querendo descer para lavar o rosto e alma na água salgada, chorar talvez. Porque eu também acho que ele não deveria ter dito, mas, depois que disse, só o que eu queria ouvir de novo era aquela frase.

De novo e de novo.

Ainda agora, escrevo essas palavras e as deixo registrada para reler de novo e de novo, pra quando me bater a vontade da sensação daquela curva e das palavras que ele disse. Das palavras e da sensação que a voz dele me dá, uma força como a natureza, grande, envolvente, vem e me enche de energia, sorrisos, surpresas. Coisas que a gente não sente com todo mundo nem com muita gente e, quando sente, quer mais e sempre.

E não está errado querer ser feliz, não. Eu não vou ficar justificando minha alegria para o mundo, se posso ou não estar feliz agora, por essas pequenas coisas. Às vezes, pessoas que chegam na nossa vida, assim, de supetão, nos dão tanto, tanto ou mais do que outras que estão aqui desde que a gente nasceu. Vai entender.

Eu, de minha parte, paro de entender para sentir. E estou feliz. De olhos abertos ou fechados, penso nele e é simples assim.

Simples assim.

sábado, outubro 06, 2012

Opanijé.

Lázaro Erê, Chiba e Rone DumDum - Opanijé

Tenho de postar sobre este grupo chamado Opanijé. Conversando com um colega que é envolvido com rap em São Paulo, ele me disse uma coisa que me fez ficar atenta sobre os modos de fazer rap (ou rep, como alguns brasileiros tem preferido ultimamente). Disse que ficava triste ao perceber que, muitas vezes, grupos de outras cidades ou estados copiavam um modo de fazer rap de uma cidade que não era a deles, achando que isso daria mais visibilidade ao projeto e à música. Assim, dizia ele nessa conversa, cantavam em suas letras, coisas que não fazem sentido com a realidade que vivem, mas com uma ideia de realidade de uma cidade grande, São Paulo ou New York.

Lázaro Erê

Pensando desse modo, comecei a reparar os grupos de rap que gostava e conhecia. E, nesse caminho, conheci Opanijé. Os moços fazem música sem pretender copiar nada do que ouvem ou falar das mazelas de outros lugares até porque, em Salvador, temos nossas próprias mazelas e precisamos falar sobre elas. Não sei se os chamaria de rappers. De verdade, para mim, são mais que isso. Claro que usam bases e coisa e tal, mas não é só isso. Como disse Letieres Leite em apresentação conjunta com os moços, eles fazem um rap com influência de candomblé, mas tem também afrobeat, tem samba, tem tudo que é nosso (aliás, o que é que não é nosso?). Tem coisa demais, que não dá para condensar num post pequeno, que escrevo antes de correr para ver o por-do-sol no Porto da Barra. 


Rone DumDum

Por isso, deixo tudo aqui para vocês ouvirem e verem, terem suas próprias impressões.
Fui procurar as fotos na internet para botar aqui e só vi coisas boas escritas sobre eles. Procurem, ouçam. Está tudo aí.
Eu vi essa música aqui, ao vivo. Aí, não deu: não consegui deixar de indicar Opanijé.
Baixe as músicas dos moços aqui. Ah, e se gostar, divulga por aí. Só faz bem quem indica coisa boa. Entre na corrente.

quarta-feira, outubro 03, 2012

Boca.


Nota: Eu não veria de novo. Mais não digo.

terça-feira, outubro 02, 2012

Eu RESISTO, e você?


Recomendo a loja Resisto.

Os produtos vendidos na loja são ótimos e o atendimento é nota dez. Leandro e Júlio, bonitos irmãos e de boa energia!

Passa lá:
Rua 24 de maio, 116 (subsolo), Loja 06.

quinta-feira, setembro 20, 2012

Mapeamento inédito da Diáspora Africana.

A quem interessar possa:

Pesquisador da UnB produz mapeamento inédito da diáspora africana

Educadores passam a contar com nova representação dos deslocamentos africanos. Obra é resultado de 15 anos de pesquisa do professor do Departamento de Geografia Rafael Sanzio.



Luciana Barreto 

Da Secretaria de Comunicação


Brasil, o país com a maior costa voltada para a África e a parte da América mais influenciada pela presença africana, passa a contar agora com um amplo e inédito mapeamento dos deslocamentos desses povos durante quatro séculos de escravagismo e colonialismo. Quinze anos de pesquisa do professor do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília, Rafael Sanzio dos Anjos, resultaram no Mapa temático educacional: geopolítica da diáspora África – América – Brasil – séculos XV – XVI – XVII – XVIII – XIX: cartografia para educação. Seu grande objetivo é instrumentalizar o educador brasileiro para a compreensão do papel do tráfico negreiro, da escravidão e da diáspora africana na configuração do mundo contemporâneo. O mapa foi lançado nesta semana, por ocasião do colóquio de geopolítica ocorrido na Universidade.



O propósito desse mapeamento, segundo explica Rafael, é colaborar efetivamente no processo de valorização do continente africano e de explicação da formação territorial e populacional brasileira a partir desses grandes deslocamentos, que atravessaram quatro séculos. “O preconceito do brasileiro em relação aos africanos deriva, em grande parte, do desconhecimento de sua própria matriz geradora”, avalia. “Os brasileiros têm de conhecer – e reconhecer - a sua verdadeira origem. As matrizes africanas em nosso país carecem de bases informacionais diversas e variadas”, complementa.

EIXOS – O mapa temático, produto decorrente de estudos e levantamentos realizados no Centro de Cartografia Aplicada e Informação (CIGA) na UnB, traz a representação gráfica dos fluxos migratórios, apontando as direções e rotas dos movimentos territoriais que compreenderam diversos grupos humanos. “A cartografia reconstitui espacialmente os principais componentes da dinâmica do sistema escravista que provocou deslocamentos africanos seculares para várias partes do mundo, principalmente a América, o chamado Novo Mundo”, explica.

Os principais eixos que compõem o produto são os seguintes: as grandes unidades étnicas dos povos africanos, os sentidos desses deslocamentos para várias partes do mundo, referências dos principais portos e cidades que se estruturaram e enriqueceram com o tráfico negreiro. Integram ainda o mapa as representações dos movimentos de produtos tropicais e mercadorias envolvidas no que chama de “capitalismo brutal e primitivo”, as extensões dos espaços de importação forçada das populações africanas e, por fim, as organizações quilombolas e localidades com registro de resistência social ao sistema opressor.

TRÁFICO NEGREIRO - O tráfico de seres humanos para o outro lado do Atlântico foi, por séculos, uma das mais rentáveis atividades do mundo mercantilista, a ponto de se tornar impossível precisar o número exato de africanos que foram arrancados de seu habitat natural para servir de mão de obra forçada em outros continentes. Com essa reflexão, Sanzio reitera a necessidade de se compreender a realidade econômica, territorial e social brasileira a partir da matriz africana, que trouxe inegáveis contribuições nos mais diversos campos, como medicina, culinária, moda, arquitetura. “Por exemplo, de onde vem a tecnologia do tijolo de adobe, recurso tão usado em todo país?”, indaga.
O regresso de parcelas populacionais ao continente africano, após a abolição da escravatura, também é registrado no mapa. Para o pesquisador, “compor essa cartografia é importante para revelar aos educadores e formadores de opinião, especialmente professores de Geografia e História, a importância das nações africanas na formação do Brasil”. 
“Não podemos perder de vista que, entre os séculos 15 e 19, a África foi o centro do mundo nas articulações territoriais, econômicas e demográficas, e o Brasil, pela sua posição privilegiada no oceano Atlântico, detém os registros mais significativos em quase quatro séculos de dinâmica escravagista e colonial”, explica o professor.



O pesquisador acredita que seu trabalho, apoiado pela equipe do Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica da UnB, irá colaborar para “reverter a inferiorização que os africanos e afrodescentes sofrem em praticamente todos os espaços de convívio social”. Para ele, “é fundamental para a recomposição da identidade nacional brasileira”.
“Não precisamos ir longe, basta olharmos nossos livros didáticos para atestar como a representação do negro é falha e equivocada. Os afrobrasileiros e os povos africanos são ignorados sob a progressiva política de ocultamento e silenciamento da verdadeira história de nosso país”, afirma o pesquisador. “É uma negação sistemática de nossas origens e ancestralidades. Nosso trabalho cartográfico pretende justamente reverter isso. Esquecimento e invisibilidade só serão combatidos com valorização”.
OFICINAS – E para capacitar quem está na ponta do ensino, ou seja, instrumentalizar esses multiplicadores para a correta leitura e apreensão dos conteúdos no mapa, o CIGA promoveu dois dias de oficina. Participaram do treinamento professores, educadores e gestores que atuam na promoção da igualdade racional.
Para Vânia Souza, da secretaria de Educação do DF, “o próprio nome diáspora é interessante, não só por trazer um estranhamento inicial, mas por provocar reflexões. Esse mapa certamente dará suporte a muitas aulas na rede de ensino”. Segundo Rosivaldo Gomes, educador do Pará “em geral diáspora é algo associado apenas a judeus. Temos de desconstruir e deslocar também esse conceito. O mapeamento se somará ao esforço trazido pela lei 10.639, de 2003, que obriga o ensino da história e cultura da África, a qual não vem sendo cumprida”. A diretora do Museu da Abolição, em Recife, também destacou a importância estratégica da iniciativa em seu potencial de mudança cultural. De acordo com Cleison, professor de geografia e aluno de pós-graduação da UnB, “o mapa é o elemento que faltava. Até então só tínhamos contato com as temáticas de diásporas ligadas a judeus e europeus. Os materiais didáticos privilegiam a Europa centralizada e vêem a África apenas como oferta de mão de obra, ignorando as contribuições culturais verdadeiras”, avalia.
O produto cartográfico colorido em grande formato (1,20m x 1,74 m) está sendo vendido por R$ 100. Informações adicionais podem ser encontradas no site www.ciga.unb.br.


Extraído daqui.

Debates e perspectivas para a institucionalização da Lei número 10.639/2003.


sexta-feira, setembro 07, 2012

Mais do mesmo (ou Migh gosta de passado).


Quero falar de um homem.
Alguém me perguntou sobre ele este fim de semana. Lembrei dele. Aliás, nunca esqueci. Muitas coisas que tenho hoje vieram de um tempo em que estávamos juntos. Nunca ficamos juntos, mas ele me deu mais lembranças do que muitos homens que se disseram meus pela vida. Ele está por toda a minha casa. Nas pequenas e nas grandes coisas. Em cima e em baixo. Nas imagens também (e por trás delas). 

Senti vontade, liguei. Mandei sms. Ele está com outro alguém, disse-me que quer começar de novo. Eu fiquei feliz demais, desejei toda a sorte do mundo porque, pela primeira vez, depois que não estamos mais juntos, senti que ele realmente quer de novo, com alguém. Isso é, de verdade, muito bom.

Aqui dentro, o que sinto é um carinho descontrolado por ele. Emoção boba de ter sentido amor por muito tempo, dele por mim. Eu sempre tive certeza que ele me amou e, agora, por mais que pareça o momento mais bizarro para acreditar nisso, eu sinto ainda mais forte.

Ainda mais forte.

quinta-feira, setembro 06, 2012

Observando crianças.

Passei uma hora e meia no aeroporto de Congonhas, observando as crianças que trabalham como engraxates ali. O primeiro menino que reparei, negro, pediu um lanche. O casal olhou, olhou, respirou fundo. O moço levantou, foi até o caixa, pagou um lanche, alguma coisa para comer. Ele pediu algo para beber, o moço foi embora. Ficou pedindo para outro rapaz, este fingiu não ouvir. Ele saiu comendo o lanche, creio que não pudesse ficar por ali por muito tempo sem não estar engraxando. 

Observei depois, um menino branco fazendo o mesmo serviço. Ele conseguiu engraxar os sapatos (eu acho), e o rapaz, que esperava uma mulher, apresentou o garoto à ela, que o abraçou. O rapaz afagou sua cabeça. Ficaram alguns minutos conversando os três, animadamente. Ele tirou uma nota de vinte reais, alguns conselhos e saíram juntos, andando para o lado de fora do aeroporto. Neste papo, consegui pescar o homem dizendo a mulher: "Ele acertou minha idade, sabia?".

Para ser uma pesquisa, eu precisaria de mais tempo e de observar mais crianças. Mas, refletindo sobre o que aconteceu com estas duas, pergunto-me: Há diferença entre ser uma criança negra e uma criança branca engraxate? A criança branca pobre já percebeu isso, com dez ou onze anos, o capital racial que há em sua cor? 

Pode-se dizer que o rapaz branco já conhecia o menino branco e com ele tinha relação, visto que conversavam animadamente. Mas essa permissão de "fazer amizade" entre eles não me pareceu uma coisa possível com o menino negro. Questões.


Fonte: Internet

domingo, setembro 02, 2012

sexta-feira, agosto 31, 2012

Quatro e vinte e cinco.


Acordaram-me. Não acreditei, desliguei o telefone. Ele ligou novamente. Disse-me estar bêbado. Perguntou se havia me acordado, acho que para quebrar o gelo. Ficou pior, resmunguei um sim e já estava desligando quando ele emendou, num portunhol que nunca havia tentado comigo. Logo ele, que sempre tinha falado comigo em espanhol, que sempre tinha sido ele mesmo.

Pensei em desligar, mas ele emendou:

Passei a noite bebendo, assim tomava coragem para falar com você. Você sabe que eu gosto de você faz tempo, mas você acha que é brincadeira. Eu quero viver com você. Estou disposto a mudar minha vida para ficar contigo. Você quer ir embora, vamos. Eu vou para onde você quiser. Eu sei que não sou brasileiro e não tenho pegada. A tal pegada, é isso. Eu sei. Mas eu quero você. Você não acredita em mim

Fiquei calada. Não consegui dizer muita coisa. Tentei enrolar uns motivos, mas a verdade é que não ia adiantar dizer qualquer coisa, nada. Ele só estava dizendo que me amava, do jeito dele, há três anos. O que fazer, o que dizer. Ele começou a chorar, a ligação caiu. 

Não consegui mais dormir. Fiquei pensando em todas as conversas que eu e ele tivemos, e em como eu não consigo ver nada que nos ligue, assim, para termos uma vida juntos. Não sei os motivos do amor, do amor dele. Mas, de algum modo, escrever isso aqui, registrar, é um modo de mostrar meu respeito a este sentimento. Não posso corresponder do modo que ele gostaria, mas sinto que são essas coisas ao meu redor que me fazem bem, me fazem feliz e melhor. Esse amor, de algum modo, chega em mim. Sei também que isso, para ele, não serve para nada. Mas, para mim, amar ainda é mais importante do que ser correspondida. 



domingo, agosto 26, 2012

Jazz, jazz.

(Fonte: Internet)

Jazz – o documentário de Ken Burns

"Acho que andou saindo de novo, agora apenas importado, e com 10 ou 12 DVD’s a um preço exorbitante. Eu comprei quando ainda existia a versão pagável lançada no Brasil pela Som Livre – um box com 4 DVD’s e um total de 12 episódios que agora estão disponíveis aqui.

Vale muito a pena ver, por causa da cuidadosa edição de imagens (fotografias e filmes da época), áudios (as principais gravações históricas), depoimentos de críticos, jornalistas e músicos.

O trabalho contou com a consultoria principal de Winton Marsalis, o que significa um viésdixieland ou revival. O time de comentaristas é unânime em adotar aquelas visões mitificadoras, o negócio todo de glorificar heróis e omitir da história o fato de que os caras eram uns malditos e que o jazz só ganhou respeitabilidade no meio cultural norte-americano muito a posteriori (meio parecido com o que aconteceu com o samba no Brasil, que tem uma historiografia semelhante).

Sempre recomendo como antídoto a leitura do História Social do Jazz, de Hobsbawn, que apesar de ter mais de 50 anos da primeira publicação, continua sendo a principal referência disponível em português para uma abordagem histórica crítica e fundamentada sobre o jazz. Tem o livro pra vender por aí.

É importante especialmente para não comprar essa ideologia toda de uma pureza original em um passado distante, uma origem geográfica claramente definida, visões mistificadoras da improvisação como forma superior de criação, entre outras coisinhas".


Extraído daqui esse texto.


Olha os trailers!


Presente de aniversário!


segunda-feira, agosto 20, 2012

Sobre poliginia, relacionamentos abertos ou "o que querem as mulheres negras?"

Casamento entre zulus (Fonte: Internet)

Nestes últimos dias, passei um tempo ouvindo histórias. Muitas histórias sobre mulheres e algumas sobre homens e nossas diferenças. Não cheguei a muitas conclusões, mas quero registrar aqui o que acho que aprendi.
Uma das coisas que ouvi foi a expressão poligamia (relacionada à poliginia, prática onde um homem relaciona-se com mais de uma mulher). Em tese, quando ouvimos esta palavra, acreditamos que é a ideia de relacionamento contrário à monogamia. A monogamia seria a relação entre um homem e uma mulher (escrevo a partir de minha referência heterossexual. Aqui também, não estou falando de poliandria, nome que recebe a prática da poligamia realizada por mulheres). Poligamia seria, assim, várias relações ao mesmo tempo. Quando um homem diz-se poligâmico, imaginamos que ele tem relações com várias mulheres. Na maioria das vezes, pensamos que estas relações não implicam em compromisso ou responsabilidade, seja material ou emocional. 
Conversando com um amigo nigeriano, ele me contou o que significava a expressão poligamia em sua vida. Descobri que, se alguns homens acreditam que dizer-se poligâmico implica em não-compromisso ou responsabilidade, para ele, é o contrário. Nascido e criado em Osun, cidade próxima a capital da Nigéria (Lagos), para ele, poligamia é o que o irmão de seu pai pratica em sua família. A mãe dele é viúva de seu pai, que tinha um irmão e tornou-a sua segunda esposa. Antes disso, sua mãe havia sido casada com um homem que não tinha irmãos e, por isso, casou-se de novo com seu pai. Quando perguntei se ele desejava ser poligâmico, disse-me de cara que não, porque não conseguiria assumir tantas responsabilidades. 
Ouvindo o relato do diplomata Alberto da Costa e Silva, tenho também outras impressões sobre poligamia. Ele conta que a mulher de seu motorista em Lagos, desabafando-se com sua esposa, pergunta a ela se seu marido (o diplomata) tinha apenas uma mulher. Quando ela responde sim, a mulher do motorista demonstra surpresa e pergunta como ela o agüenta, sozinha, todo o tempo.  Além disso, o diplomata contou, nesta palestra em que estive presente, que ter várias mulheres fazia com que seu motorista tivesse uma família estendida para além daquilo que conhecemos, visto que todas as suas quatro sogras eram também suas mães. Assim, num mesmo ano, ele teve que não apenas festejar dois aniversários de suas mães, como também chorar o luto de duas delas. 
Essa é a poligamia que conheci, conversando com meus amigos e ouvindo este relato. Julgo dizer que, neste ponto de vista, homens que não querem compromisso material ou sentimental, emocional, seja lá o que for, não são poligâmicos. Podem ser, entre outras coisas, homens bastante inseguros. Não quero aqui dar uma resposta única a este movimento chamado relacionamento, afinal, as pessoas se relacionam, vivem, amam e desamam. Muitas até mesmo mentem. O que me preocupa é estarmos usando uma expressão para designar outras coisas, outros sentidos. 
Homens inseguros ou com baixa auto-estima precisam ser amados. Talvez procurem captar esta sensação enquanto transam, ou usem sua inteligência para cativar um grande número de mulheres, visto que, quanto mais mulheres o procuram e o querem, mais ele sente-se melhor e fortalecido. Esta é uma boa saída para esconder sua própria incapacidade de lidar com as conseqüências da vida, com os compromissos e responsabilidades do crescer, do envelhecer. Conversei com um homem que confessou-me que, em dois meses, havia transado com vinte e duas mulheres. Quando perguntei o que ele estava querendo com isso, acabou confessando que quem ele realmente queria não tinha dado a mínima bola pra ele. Histórias. 
Roger Bastide, em seu livro Candomblés da Bahia, faz uma nota de rodapé e comenta que o modo como se relacionavam negros baianos em Salvador em fins do século dezenove era uma recriação de contextos poligâmicos vividos no continente africano. Ele chega a afirmar que, a prática de homens negros, de terem uma mulher num e noutro bairro de Salvador, devia-se a organização das sociedades a quais estavam ligados em seus países de origem, sendo apenas este modo uma ressignificação desta prática no Brasil. Eu não concordo com Bastide. Não acho possível explicar de maneira tão sucinta o fato de homens negros em Salvador terem mais de uma mulher. Acredito que este tema precisa ser estudado muito mais profundamente.  A lógica utilizada por Bastide para analisar estas relações, é uma lógica eivada de conceitos vindos de uma sociedade européia e ocidental.
Acho assim que, homens negros brasileiros equivocam-se ao usar o termo poligamia para designar o fato de namorarem com várias mulheres ao mesmo tempo. Nessa lógica, estariam associando-se ao pensamento bastidiano sobre nossas práticas sociais. Dizendo isso, não condeno homens e mulheres que se relacionam com várias pessoas. Condeno sim, mentiras. Não acho que precisemos disso para manter estas relações. 
Na verdade, acho bem difícil entender a poligamia praticada especificamente por estes grupos que citei, porque nossa lógica ocidental nos impede de enxergar outras formas de relação que não sejam monogâmicas. A monogamia, assim como a poligamia, tem a ver com compromisso e responsabilidade (além de ter a ver também com contextos históricos, econômicos, entre tantos outros). Entendo que, não querer estar apenas com uma pessoa, e estar com várias sem compromisso, não pode ser uma prática encarada como poligâmica. E não estou falando de sexo. 
Não acho que o fato de homens terem várias mulheres sejam uma ressignificação da poligamia e nem acho que a monogamia seja a única solução possível. Dizendo isso, passo para um outro ponto que também envolve o tema. 
Os relacionamentos abertos, aqueles que muitas pessoas execram, para mim, são apenas relacionamentos onde a regra única do relacionamento fechado (monogamia) é posta em debate. Não significa, porém, que ela não será acatada em determinados momentos e contextos. O relacionamento aberto, para mim, difere do relacionamento fechado não porque me dá a possibilidade de ter várias pessoas, mas porque me dá a possibilidade de conversar sobre o assunto. O que chamo aqui de relacionamento aberto tem mais a ver com idéias do que com, como todo mundo pensa, sexo desenfreado.
Certa vez, conversando com um amigo, eu disse que onde o relacionamento fechado impõe uma regra única, o relacionamento aberto impõe o diálogo. E não é ele não contenha regras. Em minha opinião, tem tantas quantas forem necessárias para que a relação se estabeleça. Não discordo de quem opte pelo relacionamento fechado e não vejo certezas nem erros em nenhum dos dois. Acho que depende muito do que estamos desejando viver com aquela pessoa, naquele momento. Incomoda-me um pouco a ideia bizarra que as pessoas tem de relacionamento aberto sem conhecer.
Já tive relacionamentos fechados e abertos. Em todos eles, o que realmente contou para mim foi o quanto eu estava envolvida neles.Todos eles foram bons e ruins. Mas uma coisa da qual não pude prescindir foi da honestidade. Não acredito que um homem e uma mulher passem a vida toda desejando apenas uma pessoa. Sei que muitas pessoas fazem escolhas e ficam apenas com uma pessoa boa parte da vida, mas não acho que este é o único modo de escolher viver uma relação. O único modo de viver uma relação que não consigo concordar é aquele baseada em mentiras. 
Conheci homens que me amaram e que me fizeram acreditar o quanto todas as generalizações sobre os homens são absurdas. Conheço alguns que ainda me amam, até hoje. Eu posso sentir isso. Para além dos homens que me amam ou amaram, conheço outros tantos maravilhosos. Passaram pela minha vida e ainda me encantam a sua honestidade e cuidado comigo. E, mais uma vez, não estou falando de sexo. Sei que sou abençoada. Mas, mais do que isso, eu acho que encontro estas pessoas porque acredito nelas.
Aí então deparei-me com outra pergunta, bastante demandada: Mas, afinal, o que querem as mulheres negras? Pensando-me como mulher negra inserida num contexto histórico e cultural, posso responder por mim. Mas sei que minha resposta pode espelhar algumas outras e também indicar caminhos de mais tantas. 
Se respondo “ser feliz” ou “ser amada”, vão me dizer lugar comum. Mas então eu digo de maneira mais detalhada: eu quero viver relações com homens onde eu possa ser eu mesma, Míghian Danae, com minhas caras e bocas. Com meus muxoxos e sorrisos. Com minhas durezas e fraquezas. Com quem eu não precise apertar a tecla SAP o tempo todo, para fazer-me entender nas coisas do cotidiano. Com quem eu possa contar quando não possa contar com mais ninguém, nem comigo mesma. Com quem eu não precise mostrar tudo de mim mas, se preciso for, não tenha medos de me expor ou de ser ridicularizada. Com quem eu possa ter longas conversas sobre raça, classe, futuro, política, religião, sexo ou futebol (não necessariamente nessa mesma ordem). Para quem eu tenha que invariavelmente dar o pior de mim, certa de que ele compreenderá que não sou apenas aquilo ali. Com quem eu não precise ser guerreira e nem travar batalhas. Com quem ainda acredite que é possível fazer coisas junto e que entenda que uma alegria ou vitória será sempre nossa, nunca só minha ou só dele. Com quem me devolva um carinho e que saiba devolver um elogio, feito apenas para agradar.  Eu já passei bastante tempo sozinha para saber que sim, agora eu posso e quero fazer coisas junto, porque já sei  de mim o suficiente para dizer-me para alguém. 
Eu não sei. Sou só uma mulher negra anônima, no dizer de Lélia Gonzalez. Mas, nesse mesmo dizer, Lélia me diz que eu sou aquela quem pauta as transformações, justamente por ser essa tal “anônima”. Não sou, nunca fui alguém que teme a solidão de um homem. O amor são umas pessoas. Eu exerço-o o tempo todo, com muita gente e em vários lugares. E mais uma vez, não estou falando de sexo aqui. E também não estou dizendo que ele não seja amor.  
Mulheres negras sempre amaram e amam para além dos domínios da carne, muito embora a carne também precise ser amada. Satisfaço meus desejos amando pessoas e amando a mim mesma, sinto prazeres outros que não os sexuais quando posso ver esse amor crescendo e se espalhando entre as pessoas que estão ao meu redor. Às vezes, soa bobo demais falar de amor. É nessas horas que lembro de bel hooks e Cornel West, Geni Guimarães e Sara Tavares. E não me sinto sozinha acreditando nas esperanças do amor, nas certezas que comecei a ter, há algum tempo, de que as coisas sempre parecerão um tanto a resolver, a vida é mais do que resolução de problemas e explicações sobre deus, morte e natureza.

Tudo isso eu pensei ao som de Coltrane, Dedicated to You (e Charles Hayden, Ella e Nina também).



segunda-feira, agosto 13, 2012

Elles.


Preciso falar: estou cansada de filmes franceses. Tenho uma amiga que mora em Paris e está aqui, espantada com o número de filmes franceses que passam em São Paulo. Disse que lá, nem tchum Brasil. E disse que, talvez nem lá, passem tantos filmes franceses assim, ao mesmo tempo. Vai entender.
Quando você vê poucos, ainda se encanta. Mas depois de ter visto sei lá, uns duzentos, você enche mesmo. Tem um que eu gosto:



Bom, tem outros tantos. Mas, de cara, eu lembro desse.

quinta-feira, agosto 09, 2012

Andanças (e discordâncias).



Fotos: Militão de Azevedo


Fui ver o monte de fotos que Militão de Azevedo fez de negros e negras livres no começo do século vinte, estão lá no Museu Afro-Brasil.
Fiquei ali, extasiada, olhando para os cabelos daquelas moças e senhoras, pensando em como poderia fazer algum daqueles penteados em mim, lembrando de minhas parentes, colegas, senhoras mais velhas, que também punham o cabelo daquele jeito.

Lembrei de uma amiga, cabelo liso, que uma vez me disse, 

adoro seu cabelo, do jeito que você bota, ele fica

Mas todo mundo tem suas coisas com cabelo. Eu tenho as minhas, ela tem as delas. O que é mais legal é aprender, todos os dias, a gostar de si mesma como se é. Eu pelo menos acho (sinto saudades demais dessa moça).

Fiquei ali, parada, olhando cada foto, uma a uma, demoradamente, aprendendo sobre mim, vendo de onde vinham minhas coisas. 

Essa semana também fui ver a exposição Joias de Crioula, na Caixa Cultural. Me peguei chorando, emocionada, ao pensar que aquelas joias deveriam estar com suas famílias, herdeiras que são de todo aquele ouro e exuberância. As fotos me arrancavam ainda mais lágrimas, pois eram fotos sem nome, apenas com o codinome "crioula baiana". As joias, sem dúvida, são lindas. Mas há tanto sofrimento e sujeira nessa história toda, ainda mais ao saber que este acervo, com mais de mil peças, está em poder de uma família branca em Salvador, no Museu Carlos Costa Pinto

Me pego pensando: como foram parar lá? Quais os caminhos? Para além das dores e de todas as negociações que tivemos de fazer para conseguir estas joias, os caminhos que nos fizeram desfazer-se delas deve ser muito mais dolorido. 

Quero acreditar que pode ter sido diferente. 
Mas, infelizmente, minha esperança não é assim tão grande como o mar. 


Sol (breve poesia).

Por uma frestinha da minha janela de minha casa
Entra o sol
Eu me coloco bem ali
Todas as tardes
E espreguiço a vida de tomara-que-caia e banho tomado.

Ando com uma dúvida
O sol na frestinha me espera
Ou sou eu que o espero?
Acho que ele me nota, uma mesa tão grande e eu aqui, espremida
Por onde ele entra, sentada
Escrevendo essa poesia.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Equilibrada (pelas pontas).

Não chegarei nunca ao caminho do meio. Antes, vou pelas beiradas. Sou honesta. Sou oito ou oitenta. Choro pelas bobagens mais bobas e também sinto as coisas mais duras do mundo.

Sinto tudo, choro tudo. Equilibro-me pelas pontas. Vou com força, vou com tudo. Prefiro sentir muito e sempre do que ter um coração pedindo socorro.

Eu falo isso aos quatro cantos, aos quatro ventos. Para amigas e inimigas.


Estou completamente apaixonada. Tudo bem, tem muita gente que não acredita nisso. A gente tem uma ideia de que paixão é coisa que te arrebata, você não consegue fazer mais nada da vida, vive suspirando, sonhando acordada. Tudo bem, é tudo isso. Mas, além de tudo isso, eu vivo, e bem feliz. Adoro estar apaixonada. E não, não sou correspondida.

Pensem o que quiserem. Tem gente que diz que isso é sofrimento. Sofrimento para mim é não amar, não se apaixonar, não sentir. Me apaixono, conto pro moço, ele fica avisado. Às vezes, dói ficar perto demais. Perto demais eu sonho, suspiro mais forte e vez por outra, incomoda. 

Amor não é nada do que disseram. Mas, também não é aquilo que você pensa que é. É mais. E é menos também. 



Copa Vidigal.


sábado, julho 28, 2012

A vida dos peixes.


Pina 3D.


É coisa linda gente que entende o mundo inteiro e transforma tudo isso num gesto, numa dança. Mais não digo.

sexta-feira, julho 27, 2012

Liberada, por Shirley Campbell.


LIBERADA ©

Yo ya no busco razones para mi piel
no busco más excusas ni explicaciones para la redondez de mis nalgas
o la natural cadencia en mi andar...
no justifico ya mi natural agrado por los tambores o la necesidad de mi cuerpo
de danzar al ritmo que le tocan...

Hace ya tiempo que deje de explicar antepasados
que justifiquen mis labios o mi extraordinaria nariz
o la hermosura incólume que me acompaña desde tiempos inmemoriales
no justifico más mis sincretismos 
ni mis pasiones, ni mi sensualidad
yo ya no otorgo razones para mi ser.
Me convertí en mi misma
me aprendí
soy yo.

Tengo certeza de mi misma y de los míos
no necesito autorizaciones para ser
no pido ya permisos para vivir.
Hoy disfruto con sobrada elegancia mi negrura
la llevo con honor, con garbo y distinción
la paseo por parques, mercados y plazas
por escenarios, anfiteatros simples coloquios y grandes conferencias
con placer me colma el alma
el discurso y la vida.
Ya no intento disimularla en mi cabello
en mi tez o en mis distinguidas alocuciones
...la aprendí de memoria
desde adentro, con historia y desde el centro del alma.

Por eso, ya no preciso de razones para ser
porque me descubrí limpia
brillante
victoriosa
incólume
probada
bendecida
batallada
negra
ya no, 
no preciso razones 
hoy soy yo
liberada.

quarta-feira, julho 25, 2012

Cópia.

Eu queria entender porque as pessoas passam mais tempo da sua vida tentando ser uma cópia mal-feita de alguma coisa que lhe disseram ser bonita (a saber, mulher branca, olhos verdes ou azuis, europeia, magra) e menos tempo tentando ser original, ou seja, elas mesmas. 
Conheço mulheres que passam a vida toda com lente azul, cabelo sempre pintado de loiro, regime que faz ficar doente, só pra atender exigências que vem de fora dela. Tudo bem, eu concordo que somos bombardeadas por todas essas coisas o tempo todo, mas faz tão mal assim, desliga a televisão, desliga o mundo. 
Sabe o que é? Vou falar de mim.
Ser eu mesma me consome tanto tempo, visto que o bombardeio para que sejamos outra pessoa, uma pessoa que nunca conseguiremos ser (a saber, mulher branca, olhos verdes ou azuis, europeia, magra), que por um segundo eu quase entendo porque as pessoas passam a maior parte da sua vida só querendo ir com as outras, com a multidão.
Cansa, cansa.
Mas, ainda assim, eu prefiro o cansaço de lutar para ser eu mesma do que o despedício de meu tempo tentando ser outra pessoa. Isso aí, além de cansar mais ainda, deve doer a cabeça e o coração.

segunda-feira, julho 23, 2012

O sangue que circula.

Tenho problemas de circulação do sangue quando sofro por amor. É engraçado, mas ele demora a circular, eu sinto quando ele entope minhas veias e sob minha pele meu corpo se avoluma, criando bolhas de sangue pelo meu corpo.
Fui a uma hematologista renomada, fiz todos os exames. Ela me fez várias perguntas, riu comigo, perguntou coisas da minha vida como "o que faz nas horas vagas?", "qual seu filme predileto?". Abriu os exames e disse que eles não continham nada de irregular. 
Me chamou de canto e perguntou se tinha alguma coisa que pegava, se eu estava mal, triste, coisas do coração. Disse que tinha acabado de sair de uma relação bastante complicada. Ela disse, pode ser, pode ser. E perguntou se eu tinha alguma crença. 
Agora, outras relações complicadas. O sangue não circula bem, depois de algum tempo. Tento não ficar preocupada com isso, mas preciso falar. E não para qualquer um. Preciso falar para quem precisa ouvir. Ou pra quem, pelo menos eu acho, tem que ouvir.
Nem sempre consigo. As pessoas não querem ouvir tudo sempre. Querem falar muito, falar muito, mas não querem ouvir coisas sobre elas mesmas que nem elas mesmas conseguem dizer.


Segui a vida, tentando falar tudo o que sinto. Eu consigo. Minha amiga diz que é complicado conviver comigo às vezes, porque falo tudo, as pessoas não estão acostumadas, as pessoas se assustam. Mas, ainda assim, ela acha melhor.
Mas, no fundo, eu sei, foi um elogio. E eu adorei.

Exposição Joias Crioulas.

sábado, julho 14, 2012

Beije seu preto em público.



Uma semana e essa agonia. Entendi, enfim, o que me atormentava. Eu queria de novo aquela coisa da hora em que ele me segurou pela cintura no vagão do trem e me beijou. Eu flutuei, eu quase voei. Fiquei boba e queria repetir toda hora, mas ele estava falando algo muito sério, algo que eu estava prestando muita atenção e que, depois disso, passou a ser secundário (eu esperava entre um intervalo e outro a hora em que eu poderia me aproximar bem devagar do rosto dele e ele me pegar de novo, pela cintura, como ele tinha feito, sem avisar), mas que eu, muito fina, não deixei que ele percebesse. 

Aí lembrei que fazia muito tempo que eu fazia isso, namorar em público. Em parte porque sou uma chata de galochas e nunca gostei muito de agarra-agarra na frente de todo mundo. Sim, eu sou uma chata. Mas, dessa vez, nesse dia, eu senti que era o que eu precisava, e o que deve ser gostoso também num namoro, beijar o pretinho em público. Ser beijada. Agarrada. E as pessoas olhando, admirando nossas belezas pretas e cabelo e sorrisos e agarramentos no meio do trem. Isso também é bom, entre tantas outras coisas de um namoro.

Quando cheguei em casa, meus dois amigos hóspedes me disseram, de sopetão, sem terem combinado:


Nossa, você está linda!


Eu disse:


É amor!


Mas nem era. Era simpatia, quase amor. Era amor àquele momento em que ele pegou na minha cintura e me fez quase voar. Mas, acho que também tem muita responsabilidade nessa coisa toda. Você pode sentir prazer, quase amor, mas não pode se entregar. E não sei, talvez não esteja fazendo isso direito. 


Mas, encontro respostas conhecendo minha mãe. Ela é assim:

[...]
Nanã também tem relações com Xangô.

Outros tabus conservam igualmente características ameaçadoras ainda que veladas. 

Não gosta de homens, e é praticamente assexuada, possuindo grande capacidade de trabalho, é autossuficiente, tem hábitos austeros e intolerante a preguiça, falta de educação, desordem, desperdício.
[...]