Você que me lê, me ajuda a nascer.

terça-feira, dezembro 20, 2011

O Caso "Nêga"Lôra - Claudia Leitte.



Algumas situações me convencem de que todas as áreas do conhecimento deveriam incluir a semiótica em seus cursos. Reparem o que vou dizer e vejam se estou completamente equivocado ou se ao menos ventilo outra possibilidade de encarar essa estratégia de marketing recorrente, entre muitos/as artistas brancos/as do mundo inteiro. O racismo não se estrutura apenas economicamente. Ousaria dizer que o racismo se sustenta, sobretudo, semioticamente, e daí se retroalimenta em todos os outros campos da vida em sociedade, como um vírus mutante.

Por exemplo: A Sra. Milk, nessa campanha, não se apropria apenas de signos ou ícones da cultura Negra, à exemplo de indumentárias, musicalidades, danças e ritmos da mulher Negra brasileira. Seus publicitários foram muito mais competentes que isso. Nessa campanha, que evoca a ultrapassada e supostamente insustentável tese da democracia racial, a apresentam como a “Mulher Negra” em si; portanto, trata-se da constituição de um índice. Do ponto de vista simbólico isso é muita coisa. A Claudia Leite agora é a NêgaLôra da Bahia.

Me fez lemb rar as novelas antigas citadas na Negação do Brasil de Joel Zito Araújo, o famoso Pai Thomás dentre tantos outros personagens negros que eram representados por atores brancos pintados de negros – desempregando os atores Negros. CL poderia ter aceitado o apelido de Negalora e continuado seu caminho. O xis da questão é que ela se fantasia de mulher negra e com isso ridiculariza o universo Negro feminino com seu deboche habitual.

A campanha é fantástica em termos de penetração, pois gera o que mais se busca ao se promover um produto: A propaganda e contra-propaganda espontânea. Lembram-se do famoso “Falem mal, mas falem de mim!” do velho Cabeça Branca?

Volto a dizer, do ponto vista publicitário essa peça é extraordinária, no entanto eticamente nasce encalacrada até o pescoço e talvez aí resida seu maior risco. Toda campanha publicitária opera no fio da navalha.

Ao mirar no público americano (sua meta atual), buscando l egitimar sua ascendência em um batismo equivocado de Carlinhos Brown, evocando uma suposta identidade múltipla, travestindo-se de Nêgalôra, um exemplar grandiloqüente do hibridismo racial que ratifica o famoso “pode misturar” da baianidade momesca, talvez, involuntariamente, detone um canal de diálogo mais intenso sobre o camaleônico racismo brasileiro. 

Meter o dedo nessa ferida racista é algo que nos interessa muito. 

A compreensão de que esse genérico não carrega consigo as diversas interdições sofridas pela mulher Negra real, derruba várias máscaras. Acredito que é nessa brecha que devemos investir; na reafirmação da existência e persistência do crônico racismo brasileiro, suas transmutações e como o mesmo se constitui no cotidiano da mulher Negra brasileira.

A atitude do Brown não é menos inocente, pois revela o quanto nós, homens Negros, somos licenciosos e omissos em relação ao universo de nossas mulhe res. 

Dou seguimento à discussão me perguntando o que essa campanha tenta, ‘silenciomente’, dizer às nossas cantoras Negras, a exemplo de Gal do Beco, Graça Onaxilê, Juliana Ribeiro, Marcia Castro, Margareth Menezes, Mariella Santiago, Mariene de Castro, Will Carvalho dentre outras.

Não estaria CL dizendo simplesmente que pode ser o que ela quiser, até cantora Negra, se lhe der na telha? É a síndrome do “posso tudo” das sinhazinhas baianas e brasileiras.



3 comentários:

Eleni Carvalho disse...

Concordo plenamente!
O mundo segue a ótica eurocentrista-branca-sexista e e devemos colocar sim o dedo na ferida.
Dia desses, olhando dvds no site da livraria cultura vi um lançamento e pensei "É a Shakira? parece a Beyoncé?! É a Beyoncé!" O photoshop usado demasiadamente é justamente pra reforçar essa idéia e não foi a primeira vez que vi uma foto dela retocada demasiadamente!
A mesma coisa acontece com pessoas gordinhas: se na televisão vão abordar o assunto "recheiam" o ator ou atriz pra ter um final feliz magrinho, por exemplo.
O fato é que, silêncio do preconceito velado, incentiva o crime.

Migh Danae. disse...

Beyoncé Knowles fica mais "branca" a cada milhão que ela ganha. Parece que seus fãs brancos e ricos não podem simplesmente conviver com a ideia de gostar de uma cantora preta, preta, preta.
Mas, ainda assim, gosto dela demais. É o exemplo de mulher preta poderosa que está na minha lista. E além do mais, casou com um preto e é mãe de um pretinho. Então, por mais que ela aceite todos os photoshops do mundo (e a gente sabe bem como funciona esse mundo podre do showbusiness), eu acredito que dentro dela o que bate é um coração preto. E o mais legal é que ela sabe disso. Basta ouvir as letras das músicas.
Para mim, ela é o Michael Jackson de saias. E eu tenho CERTEZA que ela nunca vai querer pintar a cara, mesmo que pareça branca nas fotos. Ela é muito mulher preta para se submeter a essa coisa toda. Nada contra Michael...
Todo o preconceito é nojento... com "gordinhas" (aliás, o que é ser gordinha? Minha percepção muda completamente! Quando estou em São Paulo, me acho gorda. Quando estou em Salvador, me acho magra. Enfim, parei com isso e agora só quero saber de ser gostosa!), com baixinhas, com deficientes... demonstra o quanto ainda precisamos crescer para virar gente.

Guellwaar Adún disse...

Valeu, Migh! Lamentávelmente o Ilê Aiyê, no domingo desfilará no bloco da ta 'Nêgalora', legitimando seu personagem e tornando vazio tudo que eu, você, a Elenir Carvalho e tantas outras pessoas refletiram... Lamentável, muito lamentável. A única coisa que vem a minha cabeça, são uns versos que mais parecem axiomas: "A força da grana que ergue e destrói coisas beles...".