Você que me lê, me ajuda a nascer.

sexta-feira, setembro 30, 2011

Dão.

Fiquei aqui me lembrando de um primo de uma amiga que foi uma delícia conhecer. Vi só uma vez o tal moço, mas lembro que ele, quando queria dizer algumas coisas, não conseguia falar só com a boca. Precisava levantar e dançar, cantar, para explicar o que estava sentindo.
Para muita gente, pode parecer loucura, mas eu adorei o moço.
Seu apelido é Dão, e não, ele não é dançarino.
É professor de geografia. Fico pensando em como perdemos nossos movimentos pouco a pouco, como achamos "engraçado" alguém que gosta de pular, dançar, cantar, durante o dia... achamos "engraçado" porque muitas vezes perdemos essa coisa em nós. Quando vemos alguém assim, sorrimos um sorriso nervoso porque "eu aqui escondendo isso, como ela consegue viver bem pondo pra fora essa loucura?".


Quando olho para as crianças e vejo-as tão duras, suas almas de criança presas dentro de corpos que querem pular, gritar, dançar, cantar, rodar e "senta direito, menino", "fica quieto", "um atrás do outro", "em fila", "cabeça pra baixo" nas escolas, em casa. Adoro as contravenções, aqueles que batem na mesa, que sobem na mesa, mas é preciso dizer não algumas vezes, e, quando faço isso, digo baixinho em seu ouvido, "você pode, espera só um pouquinho que ele também precisa dizer algo, vamos ouvir".
Também fico me perguntando o que é o "senta direito". Sentar direito deveria ser o jeito que a criança senta sentindo-se à vontade, mas não, tem um jeito só de sentar. Vai entender as palavras.
Eu, fico aqui, sorrindo para quem dança e sorri pra vida.

quarta-feira, setembro 28, 2011

Palavras.


Cheguei bem, graças a você porque sem sua ajuda nunca ia a chegar no horario pra embarcar! Obrigadao!!!

É sua boa energia que traz o melhor das pessoas quando têm a sorte de passar tempo com você!! 

Seu aviso esclareceu muitas coisas pra mim e sua positividade, independência, seu jeito calmo e objetivo de razonar e resolver as situaçoes, sua generosidade e seu esemplo em geral me ajudam a ficar otimista! 
Sendo so uma menina, e ainda bem jovem, você é o tipo de mulher em que eu quero me desenvolver e te agradeço para mostrar o caminho certo e dar coragem para o tentar de seguir.

Especialmente vivendo em Londres é abastante difficil não se tornar em alguem pessimisto, egoista, amargo e depressivo. Você vai ver quando vai vir me visitar, daqui a pouco se Deus (ou qualquer que seja) o quer. Mi casa es tu casa! Te espero com pressa!

Sinto saudades de seu riso e suas histórias engraçadas!

Desculpa já automaticamente comecei a escrever em português but the next emails will be all in english ;)

Take care! See you soon!

God bless you!


É importante ouvir isso, ler isso. Há algum tempo atrás, tive feridas enormes e pensei que eu não era um bom lugar. Não acho que fiquei melhor. Mas descobri que não existe apenas uma versão da história. Eu prefiro ficar com os finais felizes e a esperança.

terça-feira, setembro 27, 2011

E viva São Cosme e São Damião, Doum.

Conversando no MSN com amigo, ele conta

Pense numa vontade de fazer um Caruru gigante e chamar toda cidade. 
Tô muito triste que mudou o comportamento desse costume tão forte em nossa cultura. 
Não que tenham deixado de acontecer, acho difícil, mas que os Carurus se tornaram um evento fechado, particular, disso não tenho dúvidas. Menos aberto, menos divulgado, menos abundante, menos quiabos, menos participantes e menos noite afora.
Lembro que alguns chegavam a chocar nas datas, eram muitos mesmo. 
Hoje é brutal a diferença. 
Sem aprofundar, o Correio* disse: "Hoje é 27 de setembro se você ainda não arranjou onde comer um bom Caruru, arranje".
#SALVEMOCARURU


sábado, setembro 24, 2011

Niterói, um município irresponsável.

 Por Ana Costa.



A cada dia que passa, sinto mais vergonha da cidade em que nasci.
Niterói é uma cidade que segrega. Posso dizer isso por experiência própria, porque desde criança até a adolescência, morei na periferia. Atualmente moro num bairro de classe média, e apesar do olhar da criança ser diferente do adulto, nesses dois contextos, vivenciei duas cidades com realidades e oportunidades diferentes. Da minha infância para os dias de hoje, a situação das periferias se tornou, talvez, mais precária. Além de que há pobreza e riqueza mais extremas do que a média que conheço.
Poder-se-ia dizer que há desigualdade social em qualquer parte do Brasil. Não resta dúvida. Mas, em minha cidade, por muito tempo, se vendeu um discurso sobre qualidade de vida, classe média alargada, pessoas instruídas, com seus carros na garagem, suas matrículas em escolas particulares, seus planos de saúde, etc.
Até mesmo o Museu de arte Contemporânea (MAC) chegou a ser cenário para uma ou outra novela da Globo. Que ironia! Uma cidade que tem um museu como símbolo, despreza completamente seus professores, a ponto de ignorar seus apelos por negociação durante cinquenta e quatro dias de greve. O que é pior, levados, mais de uma vez, ainda que sob pressão, para mesas de audiências que não aconteceram, ou onde, simplesmente, não foi apresentada nem uma proposta sobre a pauta da categoria.
Artificialidade, já que citamos cenário de novela, essa é a palavra adequada para uma cidade que soterrou milhares de homens, mulheres e crianças, não exatamente pelas chuvas, mas sim pela irresponsabilidade de governantes e elites assassinas de Niterói. Quem matou mais de cem pessoas não foram os temporais. Quanta hipocrisia classificar o acontecido como tragédia natural. Quem os matou foi o mercado imobiliário especulador, hoje em ascensão nesta cidade, foi a prefeitura, foi a câmara de vereadores, foi a indiferença de Niterói. Os mesmos que também matam aos poucos o povo pobre daqui, a classe trabalhadora que vive com baixos salários, sem direito à moradia, a hospitais, à segurança e à educação de qualidade.
Nasci e me formei aqui. Sou graduada pela Universidade Federal Fluminense e hoje, sou professora da rede municipal. Eu não dou aula para os filhos de empreiteiros, empresários de ônibus, não dou aula para os filhos das elites nem das classes médias de Niterói, por isso meu trabalho não tem a mínima relevância para a prefeitura. Para eles tanto faz que eu dê uma aula medíocre, ou que eu realmente me empenhe. Acho que preferem até que eu faça um trabalho medíocre, mantendo o pacto da mediocridade, e dando-lhes menos trabalho.
Os filhos dos trabalhadores pobres, bem como os próprios, são considerados lixo pelos nossos governantes, enquanto suas escolas são tratadas como depósito de crianças-lixo, para os quais elas são mandadas a fim de não perturbarem a “paz social”. A educação – palavra a qual costumam encher a boca para falar – rende-lhes verbas a serem desviadas ou a encherem os bolsos de empresas amigas e meia dúzia de propagandas enganosas em cima de um ou outro bom resultado, fruto de boa vontade e trabalho de algumas pessoas, vampirizado por essa Fundação, Secretaria, ou sabe-se lá mais o que gere a rede municipal de ensino.
Depois de uma audiência, aos 54 dias de greve, para uma negociação que não aconteceu, não quero usar palavras brandas, nem otimismo, porque hoje, só sinto indignação, raiva e muita vergonha de pertencer a esse município falso, irresponsável e segregado. Onde vejo serem mortos de imediato em deslizamentos, conflitos armados, por falta de atendimento de saúde, ou aos poucos, por falta de escolas, educação de qualidade e outras oportunidades, os sonhos de trabalhadores pobres dessa cidade e de suas novas gerações.
Olhem para a face socioeconômica e étnica das crianças, jovens e adultos que estão, neste momento, sem aulas por quase dois meses, por pura irresponsabilidade do governo e verão quem Niterói segrega. Eu sinto raiva e vergonha de viver numa cidade assim.

 

sexta-feira, setembro 23, 2011

Livros.

O que tem pra hoje:

Kamasutra, p. 94.
Ao Sul do Corpo, p. 37.
Formação de professores e religiões de matrizes africanas: um diálogo necessário, p. 79.
Educação e Discriminação dos Negros, p. 103.
Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade/ Memória, histórias de vida e formação de professores, p. 25.
Experiências de vida e Formação, p. 43.
La entrevista, una invencion dialógica, p. 50.
O espaço biográfico, p. 34.
Caminhar para si, p. 95.
Docentes negras e negros rompem o silêncio, p. 90.

Indo ali.

Requiém para Vicente do Espírito Santo.

A partir do governo Collor de Mello, com o início do processo de privatização de empresas estatais, passou a ser realidade das firmas privatizadas a demissão voluntária ou involuntária de trabalhadores, visando
o enxugamento do quadro de pessoal. Essa realidade também se deu na Central Elétrica do Sul do Brasil AS
(ELETROSUL), privatizada em 1998. No ano de 1992, no mês de março, em uma das reuniões sobre o tema de quem seria demitido, foi mencionado o nome de Vicente do Espírito Santo: 43 anos de idade, pai de três filhos em idade escolar, empregado com dezessete anos de serviços na ELETROSUL, onde trabalhava como técnico em telefonia. Sua cor da pele era negra.

Uma vez tendo sido notificado de sua demissão, Vicente quis entender quais motivos fizeram com que sua dispensa fosse efetivada sem justa causa. Pesquisando, descobriu que mesclada à argumentação da necessidade de racionalização do quadro de funcionários, houve motivação de racismo. Um dos superiores havia afirmado que finalmente seria branqueado o departamento no qual Vicente trabalhava. Após tomar conhecimento dos motivos de sua demissão, Vicente buscou sua reintegração na ELETROSUL. Primeiro, em carta enviada ao então presidente da empresa, que abriu uma Comissão de Sindicância para averiguação da questão. Todavia, os resultados desta Comissão não convenceram a direção da ELETROSUL, que ratificou a demissão de Vicente. Este, por sua vez, buscou seus direitos na justiça, tendo conseguido o apoio de diversas entidades da sociedade civil catarinense (Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis, Ordem dos Advogados do Brasil/ Santa Catarina (OABSC), Núcleo de Estudos Negros (NEN)). Durante os anos de 1992 e 1995, a questão tramitou por diversas instâncias do poder judiciário catarinense, na área trabalhista e criminal. Ao final, o Tribunal Regional do Trabalho de Santa Catarina (TRT-SC) deu razão a Vicente. Porém, em 1996, após novo recurso da empresa, o caso foi remetido ao Superior Tribunal do Trabalho (TST). Foram períodos duros para Vicente. Devido a sua idade, era difícil obter outro emprego. Quando o conseguia, não lograva se fixar por um período de tempo maior. Por conta da humilhação sofrida, começou a apresentar problemas sérios emocionais e de saúde. No somatório destes problemas, agravou-se seriamente sua vida financeira.

Naquele ano de 1996, Vicente viria conseguir uma vitória histórica. O TST manteve a decisão do TRT-SC, que havia entendido ter havido fortes indícios de discriminação racial no ato da despedida. Vicente foi reintegrado ao emprego, com o pagamento dos valores do período no qual foi obstado a trabalhar. Em declaração ao jornalista Alexandre Garcia, que cobriu a histórica audiência no Tribunal Superior do Trabalho, Vicente afirmou: “a humilhação foi superada, mas o fato em si é marcante na minha vida enquanto estiver aqui”.

No ano de 2004, Vicente deu nova entrada com uma ação na justiça, desta vez exigindo reparação por danos morais. Desta vez, o processo demoraria outros longos sete anos. No dia 6 de junho de 2011, Vicente, enfim, recebeu a notícia que a ação de indenização por danos morais fôra exitosa. A TRACTEBEL S/A, a empresa que sucedeu a ELETROBRÁS quando da sua privatização, foi condenada a pagar indenização de R$ 50.000,00, e a encaminhar uma carta de retratação pelo lastimável fato ocorrido mais de dezenove anos atrás. Desta vez, ao menos aparentemente, a empresa simplesmente iria acatar a decisão, não recorrendo em outras instâncias dos tribunais brasileiros. Assim, findava um dos processos na esfera da Justiça do Trabalho sobre temática racial mais emblemático da história do sistema jurídico do país. De qualquer forma, o final da história de Vicente esteve distante de feliz. O conteúdo da carta de retratação não seria jamais lido pela vítima. 

Dois dias depois de ser informado que havia vencido a ação por danos morais em primeira instância, o brasileiro afrodescendente Vicente do Espírito Santo veio a falecer de um infarto fulminante. Um triste desfecho para o protagonista de um episódio tão importante ocorrido nos tribunais do país, e que tinha por eixo a questão da discriminação racial nos espaços de trabalho. 

Relembrar este episódio é um modo de honrar a história memória deste trabalhador que há pouco se foi. E de homenagear uma pessoa que deixa como herança aos que ficam o ensinamento de que a dignidade do ser humano é um valor ao qual jamais se deve transigir.

Mais coisas aqui.

quinta-feira, setembro 22, 2011

De chocolate o amor é feito.

Capoeira.

A mamãe dele escreveu

professora, você pode escrever uma cartinha falando sobre o comportamento dele na escola, é que o mestre de capoeira falou que sem isso ele não muda o cordão

Fiquei emocionada e relembrei coisas de minha infância. Escrevi quase duas páginas. A mamãe escreveu de novo.

obrigada pelo livro que você me escreveu. Acho que se você não fosse professora, seria professora! Fico muito feliz ao deixar meu filho em suas mãos. Ele é completamente apaixonado por você

terça-feira, setembro 20, 2011

Capacitação.

Da janela do ônibus eu leio lá fora

No Centro de Apoio a Vida de Santo Amaro oferecemos cursos gratuitos de capacitação para suporte e apoio emocional

Enfim, um curso para nos ensinar a ser gente!

segunda-feira, setembro 19, 2011

Ruud Van Empel.


Querem saber mais?
Leiam e vejam mais aqui e pelo google. Ah, e opinem. O que acham da arte do moço?

sexta-feira, setembro 16, 2011

Prêmio.

Olha só o que eu ganhei.

Nunca vai acabar (?).

Mariana chora no corredor da faculdade. É uma moça negra de uns 34 anos, chora. Uma amiga minha passa e pergunta-lhe o motivo do chororô. Ela avisa que a supervisora de seu trabalho (ela faz a limpeza da faculdade) disse-lhe que não poderia tomar água naqueles bebedouros do corredor central, porque eram só pra gente chique.

Nunca vai acabar?

quinta-feira, setembro 15, 2011

Email.

Me encanto conocerte! tienes una gran sonrisa y alegría!!! Contagias de felicidad y ya quiero escucharte cantar de nuevo!! También pienso que eres muy linda por dentro y por fuera, y espero que la vida nos de la oportunidad de volver a compartir momentos pronto!

Ai, ai.

quarta-feira, setembro 14, 2011

Pelas mãos de vó.

Não nos víamos há cinco dias e quando eu cheguei na sala ele veio com um pacote vermelho de bolinhas brancas. Era um presente. Um cachecol feito pelas mãos de sua avó. O olho encheu d´água mas eles e elas nem ligam mais, sabem que eu sou chorona. Cachecol cor de vinho, combinando com a roupa que eu tinha hoje. Vesti na hora.
Toda boba.

terça-feira, setembro 13, 2011

segunda-feira, setembro 12, 2011

domingo, setembro 11, 2011

Bogotá.

A vida, a vida. Foi assim, numa noite, lá pelas dez, que comecei a falar espanhol e me dei conta de como existem pessoas bonitas no mundo. Uma moça, um moço. Passamos menos de vinte e quatro horas por dias, mas suas energias estão em mim até agora, me acompanham, me cercam, me abraçam. Não conseguiria explicar, mesmo se quisesse qual é a sensação que tenho agora quando lembro de seus sorrisos, suas palavras, olhos e coração.
E eu, que sou tão fechada, tão aberta, tão fechada. Não sei mais de mim. Mas fiz essa viagem para encontrar uma pessoa e me encontrei também. Me encontrei demais. Tive acesso a coisas de mim que nem sabia que  existiam, pude ver, comprovar.

A viagem de Lúcia.

sábado, setembro 10, 2011

Nairobi Aguiar – De vitima a réu.



Desdobramentos nefastos do caso de agressão a estudante Nairobi Aguiar na Unijorge 


Através desta nota informamos sobre o desdobramento do caso de agressão sofrida pela nossa irmã Nairobi Aguiar nos corredores do Centro Universitário Jorge Amado e, ao mesmo tempo, conclamamos as demais irmãs e irmãos para que se coloquem diante do que está posto, não apenas para a referida irmã, mas para todas as mulheres negras desta cidade que não se silenciam diante de experiências de agressão.
Como foi amplamente denunciado, Nairobi Aguiar, estudante concluinte do curso de História na referida instituição privada de ensino, foi agredida com  um tapa no rosto pelo seu colega de classe, o estudante Lucas Pimenta, que foi delegado pela então coordenadora do curso de História da Unijorge, como membro da comissão organizadora do Simpósio de História evento que serviu de cenário para este episódio tão repugnante de racismo e sexismo. Agora Nairobi se encontra imersa numa batalha judicial que inverteu a qualificação dos envolvidos no caso; de vítima, Nairobi agora passou a ser considerada réu.
Logo após a agressão no dia 27 de Maio, Nairobi redigiu através de próprio punho uma carta em qual informava a referida instituição sobre o acontecido e solicitava dados do agressor para instruir devidamente a ocorrência em delegacia especializada. No dia seguinte, a estudante se dirigiu a Delegacia das Mulheres – DEAM logo pela manhã, à fim de registrar a ocorrência, porém o escrivão se negou a fazê-lo alegando que  aquela delegacia só registraria se a mesma possuísse algum tipo de vinculo  afetivo com o agressor. Movida por suas convicções ideológicas, a estudante acionou o movimento social de qual é oriunda no entendimento de que nenhuma agressão à mulher negra deve ficar impune – o que fez com que interrompêssemos o andamento da última atividade do evento em qual aconteceu a agressão. A ação politica realizada no dia posterior a agressão e a comunicação que a agredida fez em próprio punho culminou em um processo de apreciação administrativa do fato denunciado. Tal procedimento supostamente respaldado nos marcos normativos que orientam a estrutura estatutária desta instituição, baseado no postulado do “direito ao contraditório” desdobrou-se numa sindicância que apuraria “imparcialmente” o caso.
Para a sua surpresa, ao tentar registrar a ocorrência, Nairobi verificou que, segundo o escrivão de plantão que a atendeu na 10° circunscrição policial em Pau da Lima, ainda na noite da agressão, o senhor Lucas Pimenta tentou registrar uma ocorrência de agressão contra a estudante. Após escutar Lucas Pimenta, o escrivão o entendeu como agressor e se negou a fazer o procedimento. Nairobi registrou nesta circunscrição policial a ocorrência. No entanto a guia de exame de corpo delito não foi expedida com o argumento de  que a agredida não possuía marcas aparentes em seu rosto.
Em reunião com Nairobi, seu advogado, Dr Sérgio São Bernardo, alguns estudantes, representantes do Centro Acadêmico de História e do Movimento negro, a Senhora reitora Paloma Modesto assegurou que em no máximo 15 dias estaria com o resultado da referida sindicância e que não haveria nenhum prejuízo acadêmico caso a agredida não tivesse condições de assistir aula. A universidade propôs ainda como forma de compensação, um tratamento psicológico disponibilizado pela UNIJORGE, além de se comprometer com a  realização de um seminário sobre relações raciais e de gênero no espaço daquela instituição. Cobramos da Universidade a gravação do acontecimento, uma vez que havia câmeras posicionadas exatamente no local em qual aconteceu o fato, mas representantes da instituição alegaram que ainda não haviam assistido a gravação.
Seguindo a sua orientação jurídica, Nairobi esperou o parecer da sindicância para demandar processo civil contra o agressor já que investigação administrativa verificaria mediante apreciação das imagens do circuito interno de segurança o momento exato da agressão que ocorreu nas dependências da Universidade. No entanto, neste interim, Nairobi acionou o Ministério Público - através do grupo de atuação especial em defesa da mulher  e firmou uma declaração na qual a senhora Promotora de Justiça Márcia Regina Ribeiro Teixeira solicita à UNIJORGE e a 10ª Delegacia as imagens gravadas no corredor no horário do acontecimento. No dia 11 de junho, a Unijorge encaminhou para o Ministério Público do Estado da Bahia um esclarecimento sobre o processo de sindicância, alegando que este ainda estava em andamento e dizendo que as provas só seriam disponibilizadas em caso de determinação judicial.
No dia 27 de junho, 02 meses depois do ocorrido, foi encaminhada a UNIJORGE uma solicitação do resultado da sindicância por escrito, uma vez que as testemunhas já haviam se pronunciado a mais de um mês e o prazo estabelecido pelo estatuto já havia sido extrapolado; No dia 21 de Julho, quase três meses depois do acontecimento, a UNIJORGE, disponibiliza o resultado da sindicância dizendo não haver provas suficientes para dar como procedente a acusação contra Lucas Pimenta. No mesmo dia foi acionado um processo contra Nairobi no 1° Juizado Cível de causas comuns, utilizando inclusive o próprio resultado da sindicância como um dos documentos em anexo.  O caráter tendencioso da posição da Universidade em favor do agressor foi revelado no fato do resultado da sindicância ter alegado que a universidade não possuía as imagens e do documento ter sido informado à Nairobi apenas no dia 25, três dias após o conhecimento do agressor e a abertura do processo civil por ele acionado.
Agora Nairobi tem ameaçado o término de sua graduação em sua fase conclusiva. Sob forte pressão psicológica foi obrigada pela universidade a viver o constrangimento de dividir a sala com um homem que a agrediu física e moralmente.  A apresentação de seu trabalho de conclusão de curso no final do semestre corrente está completamente comprometida, já que seu rendimento acadêmico e a própria produção de sua monografia está sendo inviabilizada por esta situação que por ora lhe está trazendo inúmeros danos psicológicos. A universidade, através de um pacto velado de defesa ao agressor, esperou que se esfriasse o calor dos inúmeros protestos gerados por este fato que causou repúdio e comoção não apenas entre os movimentos negros, mas também entre outros setores da própria universidade. Do ponto de vista jurídico, entendemos que a universidade e Lucas Pimenta estão do mesmo lado e por isso o resultado da sindicância foi favorável ao agressor que por sua vez, foi empoderado pela coordenação do curso de História da referida instituição no Simpósio de História no qual aconteceu a agressão. À Nairobi recai agora o chamado “ônus da prova sem que se possa contar com estas imagens que registraram o exato momento do fato.
Próximo dia 14 de setembro acontece a audiência de instrução e julgamento do processo civil.  Cabe a nós militantes de movimentos negros manter o apoio a Nairobi numa demonstração de que o tapa dado em seu rosto representa uma agressão não apenas física contra uma mulher negra, mas um emblema de como o sexismo em intersecção com o racismo empodera os brancos para tratar nossa gente da forma que trata não apenas nas ruas favelas e instituições carcerárias onde somos maioria, mas também nos espaços estratégicos de poder em quais é rara a nossa presença.


Carla Akotirene
Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas
Mestrado- PPG NEIM- UFBA

sexta-feira, setembro 09, 2011

Trabalho.


Por Bhreno Nunes.

Eu queria...

... ter coragem de uma foto ali.
Mas não tenho.
Gosto de ouvir a voz dele, bêbada ou sóbria, gosto dele.

Mas não devo.
Eu sei.

quarta-feira, setembro 07, 2011

domingo, setembro 04, 2011

sexta-feira, setembro 02, 2011

Aos pedaços.

Aconteceu de novo. À hora do almoço, sento-me ao lado de um mocinho de cinco anos, conversamos às vezes quando nos encontramos pelos corredores. Ele é de outra turma e me cochicha

eu queria ser da sua sala

Não é a primeira vez que ele diz isso. Eu imagino os motivos. Pelo que ele pode observar das vezes que a gente se encontra, a turma com a qual eu passo a maior parte do tempo está sempre em polvorosa. Mas tem mais. A gente começa um papo, entrecortado porque vigiamos a inspetora que nos vigia, ela não pode nos ver conversando. Eu pergunto se a mãe dele é bonita como ele e ele começa:

minha mãe é preta e meu pai é branco

Como ele é bem escuro, eu pergunto se a mãe dele é preta como uma menininha bem pretinha que está a nossa frente. Ele faz que não com a cabeça e diz que a mãe dele é preta como ele. Eu acho difícil que o pai dele seja branco, mas continuamos o papo que ele começou e juntou mais gente para ouvir. A menina da frente diz

minha avó é preta, mas e daí? eu queria ser como ela, eu gosto dela mesmo assim

Estou mais interessada no mocinho porque ele não para de falar sobre sua família, apesar de ter captado a educação racista que ela também está recebendo. Com um ouvido ouço a menina, que vai falando de seu amor pela sua avó preta. Com o outro, ouço o mocinho mandando essa

quando eu nasci, sabia, eu era branco, depois eu me queimei (riso nervoso)! eu queria ser branco

Estou com um pedaço de carne na boca, engasgo, boca cheia de comida e olho cheio de água. Ele sorri pra mim e repete

eu queria ser branco porque ser branco é mais legal, né?

Eu pergunto


mas porque você quer ser branco? 

Ele continua sorrindo para mim um sorriso sem graça e eu não consigo disfarçar, dou uma fungada de lado e baixo os olhos porque ele me olha como se estivesse dizendo a coisa mais normal do mundo, ele, mocinho escuro de cinco anos. Como se tivesse plena certeza do que quer na vida, do que basta para ser feliz

eu queria ser branco, é mais bonito, você não acha?

Minha voz esganiçada diz um

você é tão lindo

E ele emenda, olhando pro prato e riscando-o com a colher, um tanto quanto insatisfeito, decepcionado, nada surpreso

minha família toda diz que eu sou lindo

Levantei mais rápido, deixei o prato na pia e saí andando pra sala das professoras. Pensei que ia conseguir me conter, me controlar. Mas foi demais pra mim. Ainda agora, choro quando lembro dos seus olhos brilhantes me segredando seu desejo mais profundo, certo de que teria a minha aprovação automática se, em sendo preto, tivesse o desejo de ser algo que nunca será. Era como se ele me dissesse

sei que não sou bonito nem posso ser amado e sei também como se consegue isso, e eu quero

Saí da sala das professoras, fui chorar no banheiro. Há quinze anos em escolas, hoje eu sinceramente não conseguir esperar para chorar em casa. Algumas pessoas viram e me abraçaram dizendo-me

não fica assim

Eu queria explicar que eu não estava "assim" por minha causa, mas por conta de um processo doloroso que se arrasta entre nós desde a época da escravização e a maior parte das pessoas não querem nem sequer discutir! Eu tentava explicar, mas eu chorava mais pensando nele, porque não era só ele. Mas eu estava assim por minha causa também. Lembrei da infância e de quantas vezes eu ouvi que meu cabelo não era bonito ou parecia "esquisita". Lembrei de que ainda hoje, isso acontece


Míghian é diferente
Ela parece uma bonequinha!
Você é relaxada (falando de minha aparência)
Seu cabelo é assim mas eu gosto dele


Cansei. Chorei voltando para casa, principalmente porque nesses últimos dois dias, tenho ouvido uma música de Negra Li que eu gosto muito. Há uma parte que diz:


Sou negra livre

Negra livre
Cheguei aqui a pé.
Para destoar
Para dissolver
Para despertar
Pra dizer

Pensem o que quiserem, mas não dá para deixar de escrever essas coisas aqui. São coisas que me tocam, como qualquer outro preconceito. De cor, de classe, de origem, de gênero.

Sangrando.