Você que me lê, me ajuda a nascer.

terça-feira, agosto 31, 2010

Mulheres negras.

De um lado, uma moça negra muito bonita, espera na rua um carro que a leve longe dali. Ou perto também, bastando para isso pagar. Está no ponto, no seu ponto de todo dia. Sorri quando eu sorrio para ela, peço uma informação. Atravesso a rua e do outro lado, mais uma mulher negra, esta senhora, varre o chão da rua. Está no lugar de sempre, no lugar que disseram que ela deveria estar, naquele dia, sempre. Eu atravessando a rua, mulher negra, fiquei pensando no movimento entre uma e outra, e onde eu estava nesta história toda. Certamente sou uma incógnita para muita gente, saindo do lugar e do ponto onde me disseram para ficar, atravessando a rua, pegando um ônibus e vindo para a universidade. Chegando aqui, a moça da segurança me sorri, ela era a faxineira da escola onde trabalhei uns anos atrás, está contente, conseguiu melhorar de emprego, agora quer estudar, por que ouve aqui e ali a conversa do benefício da educação para a população negra. Tem três filhas, mas não deixa de sonhar. As pessoas aqui da universidade estranham que temos tanto conhecimento uma da vida da outra, eu sei seu nome e lembro muito bem de onde ela vem. Eu também me lembro muito bem de onde eu vim.

domingo, agosto 29, 2010

Partida, meu coração partido.

Ele vai embora. Mas vai feliz, todo bonito. Eu também fico feliz então. Meu coração partido lembra que eu também quero ir e sorri um sorriso tímido pro moço que vai embora. Um beijo, Elidio.

sábado, agosto 28, 2010

Escola.

Eu ouço as histórias que as mães contam sobre a precariedade das escolas, sobre as diretoras e as professoras que nada fazem para melhorar a qualidade no atendimento das escolas públicas, o que as fazem se matarem mais ainda de trabalhar para pagar uma escola particular de bairro, sem qualidade mas com menos crianças, o que muda significativamente o modo como a criança se desenvolve na escola, por que relação humana é tudo para todo mundo, quem dirás para criança pequena. Eu vou ficando triste com isso, vou falando para elas que devem reclamar, mas é doloroso por que eu não posso tomar a frente de tudo, elas precisam ir e denunciar, aí eu vejo como é tudo muito difícil, complicado, as mães precisam de tempo para reclamar, e o tempo é gasto trabalhando mais um pouco para pagar a escola particular, afinal, lá a menina está feliz, brinca, dá risada e não tem traumas. De todo modo, a gente precisa de tempo, e nunca temos, para nada, e damos preferência a resolver as coisas de uns jeitos que doam menos, por que reclamar tem isso de levar tempo, de demorar, de não dar certo, de encontrar outras respostas, então vai lá, eu pago e tudo bem, melhor assim, machuca menos, é mais rápido. Não sei. Não sei o que fazer, me pego ouvindo as histórias, e pensando no que mais eu posso fazer além de me indignar.

São Luís.

Kirimurê.

Espelho virado ao céu Espelho do mar de mim Iara índia de mel Dos rios que correm aqui Rendeira da beira da terra Com a espuma da esperança Kirimurê linda varanda De águas salgadas mansas De águas salgadas mansas Que mergulham dentro de mim Meu Deus deixou de lembrança Na história dos sambaquis Na fome da minha gente E nos traços que eu guardo em mim Minha voz é flecha ardente Nos catimbós que vivem aqui Eira e beira Onde era mata hoje é Bonfim De onde meu povo espreitava baleias É farol que desnorteia a mim Eira e beira Um caboclo não é Serafim. Salve as folhas brasileiras Oh! Salvem as folhas pra mim! Se me der a folha certa E eu cantar como aprendi Vou livrar a Terra inteira De tudo que é ruim Eu sou o dono da terra Eu sou o caboclo daqui Eu sou o dono da terra Eu sou o caboclo daqui Eu sou Tupinambá que vigia Eu sou o caboclo daqui Eu sou Tupinambá que vigia Eu sou o caboclo daqui Eu sou o dono da terra Eu sou o caboclo daqui Por Maria Bethânia, (mas letra de Jota Velloso)

Frase do dia.

O amor é sede/ depois de se ter bem bebido. Guimarães Rosa

sexta-feira, agosto 27, 2010

Ibirapuera, 2010.

Por que eu gosto do fotógrafo e nem tanto da fotografada na foto.
Na verdade, sempre vejo fotos que ele tira de outras moças e as acho lindas lindas, mas nunca acho que fico assim tão linda quanto elas quando minha é a foto.
Talvez por que elas sejam lindonas e eu só linda. Mas, uma coisa é certa: nas fotos que ele tira de mim, alguma coisa que nunca outras pessoas conseguiram "aparece". Eu me vejo nas fotos muito mais agora do que antes.
Talvez ele seja bom com isso, imagens.
Ou por que quando a câmera pisca, ele também pisca pra mim.
Talvez seja paixão (e saudade).

quarta-feira, agosto 25, 2010

Ele.

Ele e todas as coisas que me diz. Hoje me disse eu adoro quando tu tá feliz, animada É bobo, mas ele gosta de mim. E diz que gosta de me ver feliz. Só isso já me faz ter certeza que é alguém por quem vale a pena sorrir. Lembro dele me dizendo euteamo quando tudo estava desmoronando, eu nem respondia direito, mas foi bom ouvir. E ele ainda repete assim.

domingo, agosto 22, 2010

Viagem.

Um monte de dias sem escrever nada, só falando e ouvindo coisas bonitas. A vida também é feita disso. A vida também é feit-iço.
Andando na rua eu ouço coisas que sinto muita vontade de escrever, sempre. Fico me perguntando se todo mundo ouve as mesmas coisas que eu ouço do jeito que eu ouço ou sou só eu no mundo inteirinho que deus deu que entende as coisas desse modo.
Algumas coisas me deixam triste. Ando nas ruas, nas cidades, procurando os negros e as negras e sempre as/os encontro em maior número, em posições subalternas: lavadores de carros, guardadores de carros, seguranças, garçonetes, lavaderas, passadeiras (em Maceió vi uma senhora que às 23 horas levava para casa um fardo de roupa limpa para passar; esperava o ônibus no ponto, em frente a um condomínio de luxo. Fiquei pensando nas desumanidades todas do mundo e o que fazia a dona das roupas não ter o mínimo de sensiblidade para pelo menos, com seu carro, levar as roupas na casa da senhora, já de idade, sozinha no ponto de ônibus), quituteiras (em São Luís uma senhora de idade também passa por mim vendendo doce com o tabuleiro na cabeça, a foto seria incrível mas a tristeza não deixava tirar, fico pensando por que que tem sempre que ser ela, a mulher negra, por que que tem que ser ela, a guerreira, enquanto para todas as outras mulheres, os adjetivos são outros e não ligados à força e coragem), engraxates, moradores/as de rua. Mas não era bem assim em fins do século 19?
Em todas as cidades por onde passei, essa coisa se repete e vou ficando desanimada de viver. Mesmo em cidades onde o número de negros e negras é significativamente maior (e a gente bem sabe que muitas cidades, apesar de ter um grande número de negros e negras, não revela isso nas pesquisas simplesmente por que muita gente ainda não "descobriu" de que cor é), os negros e negras estão sobrerepresentados em posições vistas como inferiores (por que eu não acho que ser passadeira seja inferior, mas é se elas ganhassem 20 salários mínimos, seria bem bom passar roupa por aí. Mas essa ideia de separar "trabalho manual" de "trabalho intelectual" é coisa ocidental).
De viver.

quarta-feira, agosto 18, 2010

sexta-feira, agosto 06, 2010

Coração.

Penso em tu e sinto cosquinhas no coração. Por que até as deusas amam e sentem cosquinhas.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Agressão.

Não sei o que é pior: Dado Dollabella dizendo que sua maior sentença foi ter namorado com Luana Piovani ou quem o entrevistou publicar isso. Ainda é assim: a mulher leva um tapa na cara e é a culpada de tudo. Como se querer ser feliz e fazer o que gosta fosse um problema.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Cabelo, de novo.

Eu digo pra ela mas agora você vem todo dia de cabelo solto, não quer mais pôr presilha? Ela me diz eu quero o cabelo solto, lindo igual ao seu O cabelo dela solto bate no olho, no rosto, ao vento. É grande e faz caracol. É mais lindo que o meu.

Pergunta.

Onde está você agora?

Poesia.

Daria um filme Uma negra E uma criança nos braços Solitária na floresta De concreto e aço Veja Olha outra vez O rosto na multidão A multidão é um monstro Sem rosto e coração Hey, São Paulo Terra de arranha-céu A garoa rasga a carne É a torre de babel Famíla brasileira Dois contra o mundo Mãe solteira De um promissor, vagabundo Nego Drama, Racionais MC's.

As meninas.

segunda-feira, agosto 02, 2010

Ela.

Ela me pergunta se eu sinto saudade dele. Não tinha pensado nisso. Demoro pra responder, como sempre. Mas respondo que não. Dele, não. Talvez de umas coisas que eu aprendi a gostar. Eu gosto dela. E vou sentir saudades dela, agora que eu sei que vou embora mesmo. Minha voz embargou, fiquei emocionada assim, por que vou ficar longe de muitas mulheres que eu conheci bonitas. Mas é a coisa da vida ser injusta mesmo. Só o amor é que salva tudo.