Você que me lê, me ajuda a nascer.

domingo, novembro 15, 2009

Declaração de Amor.

Às vezes as mulheres acreditam mais nas mentiras que os homens contam do que eles mesmos. Mas não é difícil ser mulher – eu mesma se voltasse, gostaria de voltar mulher todas as vezes para esse mundo, ou então queria voltar cavalo-marinho. É difícil viver, com todas as coisas que a vida tem. E se é difícil para mulher, é também para o homem, que fica muitas vezes esperando a mulher quebrar tudo para vir atrás segurando os cacos. Talvez eles pensem que não podem dar a cara pra bater, por conta da sociedade machista e todo aquele papo que a gente conhece. É quase uma súplica masculina, venham, nos ajudem, comecem a revolução sexual, sem vocês não conseguiremos. Fogo é que tem horas que cansa demais. Por que na história, as honras vão sempre para eles, não importa o que se faça. Quando se escreve o nome de uma mulher ali, todo mundo fica admirado e agradece com algo que deveria ser, por si só, regra. Quer um exemplo? Eu sempre achei que gostava tanto de ler por causa de meu pai. Só de meu pai. Pensava assim quando queria imaginar que com tudo de feio que ele fez com a gente, tinha algo do que me orgulhar. Mas mainha me contou esse fim de semana que na verdade, ele tinha parado de estudar e ela, para incentivá-lo, matriculou-o na escola novamente e começou a estimulá-lo à leitura quando percebeu que era um caminho possível para educação dele, já que não era muito chegado a educação formal. Meu pai se apaixonou pelos livros, isso é verdade. Mainha já não lia tanto, ocupada que estava com os afazeres domésticos e com a gente. Afinal, ela também precisava ensinar-nos a aprender. Todo mundo aqui em casa é meio fanático por leitura, e até meu irmão, que não gostava muito de escola também – desconfio, pelas conversas que tive com ele, que achava que os professores subestimavam os alunos e por isso, ele foi perdendo o interesse. Gostava apenas de um ou dois professores que realmente davam aula – lia bastante para um garoto de 18 anos. E é justamente isso que me preocupa: quantas e quantas mulheres já nao leem mais tanto por conta de outros afazeres e a história “esquece” de contar o quanto elas foram importantes para a compreensão que se tem do mundo? São fraquezas, mas é também por que este mundo em que vivemos é moldado em bases masculinas e portanto, o homem não precisa, quando as letrinhas do filme sobem, dar créditos às mulheres – fico aqui pensando nos homens que fazem isso publicamente para muitas vezes receberem elogios e suspiros de mulheres presentes, mas no dia-a-dia, não mudam suas práticas machistas. Essa coisa de ler foi e é fundamental para minha vida. Hoje as pessoas ficam meio admiradas com o fato deu conseguir escrever bastante em pouco tempo, digo, em momentos onde preciso fazer um pequeno texto ou um resumo – um curso de formação, por exemplo. Isso veio da observação do mundo à minha volta, veio da leitura, veio da escrita – mainha achava o máximo a gente ter diário e escrever tudo sobre a nossa vida pessoal neles, e para mim escrever diários foram grandes estímulos para a organização do pensamento . Fui perguntando para mainha por que isso de estudar tanto. Ela acabou me contando uma outra história. Uma tal de tia Amália, na década de 60, interior da Bahia, na roça do Berimbau, para ser mais exata. Essa história eu conto depois. É dureza posicionar-se contra o machismo, pois como tudo na vida ele se metamorfoseia e comparece de outros modos e maneiras. Se antes o homem sentia-se ameaçado quando as mulheres trabalhavam em subempregos e o machismo teve de ser combatido com outras armas, hoje as mulheres, que estão disputando os espaços de poder se sentem compelidas a “cederem” aqui e ali para aqueles “colegas” de trabalho – “estamos todos no mesmo barco”, eles dizem, mas você sente que não quando esses mesmos colegas não poupam adjetivos para qualificar (ou desqualificar) mulheres em geral – “não é com você, veja bem, mas a chefe de tal seção é realmente uma piranha”; se não cedermos, vai parecer que estamos sempre em guerra contra tudo e contra todos, e aí, já sabe, os homens inventaram também um modo de desqualificar as mulheres que assim se comportam: “ela é mal-amada, faz tempo que não transa com ninguém, deixa ela”. Na hora do vamos ver, os homens apelam e justificam suas atitudes por conta das mulheres que são agentes do racismo – ah, mas se a gente não come a gente é viado, mulher gosta de homem safado, etc – e esquecem de balizar suas práticas em respeito às mães que os criaram muitas vezes sozinhos, em respeito àquelas mulheres que encontraram na vida e que lhes mostraram que as coisas só podem funcionar se estivermos junt@s, deixando de lado as picuinhas e desavenças pequenitas. Eu só queria escrever isso tudo por que eu me perguntava muitas vezes por que fiquei tanto tempo sozinha. E agora mais do que antes, mais do que nunca, entendi que era justamente por não ter encontrado um interlocutor com quem eu pudesse conversar sobre tudo isso de maneira inteligente, por não encontrar alguém que soubesse que a luta feminista (polifônica em sua construção social, vamos entender. Não há uma luta feminista, mas lutas, e feminismos) não é besteirada de mulher mal-amada, que não fosse dormir de cara feia depois de cada discussão acalorada sobre o que é ser mulher. Ainda bem que enfim, encontrei. Essa coisa toda que escrevi é, na verdade, uma declaração de amor.

2 comentários:

Mjiba disse...

Que lindo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!I Love you!!!!!!!!!!!!!!!
beijocas

Migh Danae. disse...

Ainda bem!
Ufa!