Você que me lê, me ajuda a nascer.

terça-feira, junho 17, 2008

Seu Florêncio e Dona Teté.

Em casa, domingo chuvoso, sem muito dinheiro? Tome uma lotação, vá em direto na casa de Seu Florêncio e Dona Teté, zona sul de SP. Os dois baianos. Conto pro Seu Flô que tá passando no cinema documentário sobre a construção de Brasília pelos nordestinos, final da década de 50. Ele me diz, como quem não diz nada Eu tive lá também E desfia o rosário de histórias. Vai contando de onde veio, para onde foi, o que fez, o que não fez. Mas só tem graça de ouvir com Dona Teté do lado, que vai contando o não-dito pelo Seu Flô. Quando lhe pergunto, por exemplo, por que é que veio pra São Paulo, se a vida tava tão boa e quietinha lá pros lados do interior da Bahia. Foi mulher, esse danado não ficava quieto, bolinando mulher dos outros Ele faz cara feia, e me pergunta se eu quero saber a história por ele ou por ela. Olha o relógio, me diz que tem que ir pra igreja. Me diz também que quietou, agora tá com 72 anos, e é crente. Mas que como é que vai dizer não pra mulher bonita, me olha com uns olhinhos miúdos e me pergunta, sem maldade Eu tenho culpa, menina? Deixo Dona Teté falar. Ela também tem as suas histórias, que por vezes encontra com as dele, outras é história de mulher só, na lida. Digo pro Seu Flô que vou comprar uma câmera pra vir filmar tudo isso que ele me conta, ele me diz, mas pra quê, e depois emenda, se vier, venha cedo, por que um dia só não dá conta. É um moço esnobe, no fim das contas. Quando tu pensa que acabou, vem arrastando as chinelas lá da casinha de trás vó Toninha, mãe de criação de Dona Teté. 89 anos, quer falar também. Entre uma história e outra, sua neta pede conta a história da sua bisavó, índia caçada pelo bisa. Como era mesmo o nome dela? Vó Toninha olha pro lado, faz cara de surpresa e emenda mas quá, menina... deixa eu ver... vou consultar o registro... isso é lá pergunta que se faça, menina? Vou lá saber o nome da minha bisavó? Conversa vai, milhões de histórias vêm, Seu Florêncio já todo enbonitado pra ir pra igreja, são seis e meia da tarde. As duas moças falando, vó Toninha me contando um dia meu marido veio querendo me enganar, me deu uma carne preu comer e dizia por que dizia que era carne de sucuri e de que era, vó? era carne de jibóia, minha filha oxente, vó, e como você sabe? Vó Toninha me olha com a cara de pena, me sinto besta, olho bem pra cara dela e sei agora qual é a cara da sabedoria minha filha, uma é de água, outra vive na terra, assunte Vai ficando tarde, vai ficando mais frio, e eu não quero ir embora, aquelas histórias têm o cheiro, o gosto e a quentura de saudade e de família, ficar ali e comer biscoitinho feito ali mesmo, tudo ali, ali. Acaba não, mundão.

2 comentários:

day disse...

vovô e vovó

Migh Danae. disse...

Lindooooo!