Você que me lê, me ajuda a nascer.

quarta-feira, março 26, 2008

23.03.2008 Numa das últimas cenas de Juízo, novo filme-documentário de Maria Augusta Ramos, um garoto de 20 anos é “grampeado” (termo utilizado quando um adolescente que cumpre medida correcional e foge é apanhado) na rua por policiais; ele atesta que está trabalhando, e a juíza e o promotor perguntam para ele por que ele fugiu, já que ele tinha conseguido L.A. Ele responde Eu não sei o que é isso, dotôra, então naquele dia que eu saí daqui teve uma rebelião e eu fugi E ela diz: L. A. é liberdade assistida, garoto, pra quê tu fugiu? Tu ganhou a tua liberdade naquele dia que tu veio aqui E ele responde Mas eu num sabia o que era Todos/as riem, o pessoal que assiste ali no cinema ri, mas eu só consigo bufar de raiva contra a juíza e seu assecla. Engraçado, ela incompetentemente não soube presidir uma audiência, não soube explicar para um garoto que tinha apenas a terceira série o que seria do seu futuro, usando jargões ininteligíveis mesmo para nós, ditos “civilizados e inteligente”, e agora ria. Ria da sua própria incompetência? Não, ria do garoto, tratando-o como imbecil. Quando o mesmo disse que era engraxate agora, e que ganhava bem, ela riu ainda mais alto. Tive ganas de voar no pescoço da infeliz juíza. Quem era na verdade imbecil? Não assistam o referido filme, se vocês não dispõem de muita paciência. Eu chorei o tempo inteiro. Eu tive raiva o tempo inteiro. Eu fiquei aqui pensando quem são estes e estas juízas que se acham realmente acima do bem e do mal para definir a vida de uma criança de quartoze anos, dizendo o que ela deveria ou não fazer da vida dela. A juizinha, branca por sinal, faz questão de dar sermões para as/os adolescentes sobre como se comportar na vida, procurem emprego, não façam filhos, ora faça-me o favor, bem que dizem, deus não dá asa a cobra. _____________________________________________________________________________________ Teve um tempo que eu me gabava de ter nascido em Itabuna por que Jorge Amado nasceu lá, nasceu numa fazenda na zona rural de Itabuna. Hoje tenho minhas dúvidas. Além dele ser um cara que mudou de idéia com relação à política assim abruptamente (era comunista e se desencantou com Stálin, mas bem na época que para ele era conveniente fazer alianças políticas em seu estado com os grandes baianos), dizem que leu Gilberto Freyre e se encantou com a mestiçagem; Moreira Salles, de quem eu gostava depois de ter visto Notícias de uma guerra particular e de que eu desgostei depois de ter visto ao vivo por ser boçalzinho demais pro meu gosto disse que Jorge Amado, seguindo Freyre, via a mestiçagem diferente dos primeiros teóricos que sobre essa questão abordaram: para os dois supracitados, a mestiçagem na verdade era um fator de orgulho para o Brasil e era o que o diferenciava dos demais países (sabe o não-sei-o-quê que dizem ter Buenos Aires? É, Brasil também tem, mon ami), lhe tornava particularmente original. A questão toda é que no Brasil a mestiçagem nada mais é que o escopo do branqueamento total da nação: é a partir da disseminação da idéia de mestiçagem (e aqui uso mestiçagem não apenas com relação ao casamento inter-racial, mas também às imposições culturais, sociais e econômicas por quais os/as negros/as devem se adequar para se sentirem parte da nação brasileira) que branqueamos todas as nossas práticas, e por quê? Por que na verdade, a mestiçagem visa atingir a parcela negra da população, é ela que tem que se considerar mestiça, para poder fazer parte, ainda que minoritariamente, dos espaços destinados às pessoas “civilizadas”, aos brancos; o negro precisa se dizer mestiço para se aproximar do branco e nunca o contrário. O branco, esse não quer se dizer mestiço: este é branco e cabou. Ora, e por que o/a negro/a não pode ser negro/a e cabou? Aí o branco te diz Deixemos a mestiçagem e sua prática para os pretos; pelo menos, não ficam por aí se amotinando com idéias absurdas como essas de cotas e políticas afirmativas, querendo a parte que lhes cabe nesse imenso latifúndio chamado Brasil. Farinha pouca, meu pirão primeiro. Não posso negar que gosto de alguns livros de Jorge, assim como me apaixonei por Borges, até saber que ele era racista e ouvir de uma argentina enquanto estive em Buenos Aires que o cara era um tremendo de um aristocrata chato e metido a besta. Não posso dizer que não me divirto com algumas de suas personagens. Mas também não posso dizer que concordo com todos os estereótipos que constrói sobre a cidade de Salvador e seus/suas habitantes. Acho que Jorge Amado deve ser mais estudado pela comunidade negra que pesquisa literatura brasileira. Por que o moço também disse, certa vez que quando lhe disseram que era um escritor de putas e vagabundos, que foi o maior elogio que já lhe fizeram. Isso não deixa de ser um ponto a seu favor. _____________________________________________________________________________________ Assistam Sicko, do Michael Moore. Aprendi a gostar do cara, e vou dizer por quê. Só vou dizer por que li a maioria das criticas sobre o filme, mas não li ninguém dizendo isso que vou dizer, uma coisa tão óbvia. A primeira coisa que devemos levar em consideração quando falamos de Moore e do seu trabalho é que ele dirige e filma falando para os cidadãos e cidadãs dos Estados Unidos; prova disso é que o texto do filme é construído sempre em “nós burramente votamos no Bush”, ou coisa parecida, então, se ele fala para o pessoal “lá de cima”, temos que considerar que ele utiliza uma linguagem e uma técnica para que as pessoas que lá vivem entendam. E aí eu lembro do Slava, palhaço do Cirque du Soleil que disse que tinha de adaptar as piadas do show em NY por que as pessoas não entendiam o texto como ele tinha montado. Moore sabe disso, sabe que as televisões dos Estados Unidos criam fatos, heróis e mitos, como qualquer outra mídia no mundo. E tendo certeza disso, ele também cria, mas vai na contramão do que está criando a mídia em geral: ele fala de Fidel Castro e todos/as nós assistimos e pensamos, mas não é assim, o cara não é bonzinho desse jeito. Mas também não é mau, só que parece que Moore sabe que explicar que a vida não é dividida entre bem e mal para um cidadão norte-americano é coisa muito complicada e que demandaria muito tempo: assim, ele constrói verdades fast-food (afirmações rápidas com umas pitadas de algum embasamento histórico, de simples assimilação, com ilustrações divertidas e piadas nonsense no meio), que vão na contramão do que diz a grande mídia norte-americana para sinalizar apenas que as coisas não são o que parecem; essas verdades fast-food aguçam seu paladar e te dizem que se você quer provar um pouco mais, agora um prato completo com entrada e sobremesa, tem que correr atrás, se informar em fontes outras que não a CNN ou qualquer outro canal de TV’. É assim que ele diz que os/as franceses/as são legais (quando a gente sabe que isso é variável demais), que o Fidel não é o diabo e por aí vai. Não se enganem: o/a brasileiro/a “médio/a” (odeio essas generalizações) não é tão burro como querem que a gente acredite. E sim, as/os norte-americanos/as não são tão inteligentes como querem que a gente acredite. Também não são burros/as. São o que são, e que pena. A verdade é que eu adoro falar mal dos EUA, como todo/a brasileiro/a “médio/a”. Ehe. Mas a grande sacada do Sicko eu acho que é o lance dele dizer que o que os caras querem é que você se endivide mais e mais na vida, por que se você está endividado, você não consegue organizar sua vida e então começa a afetar emocionalmente e também a sua estima, daí você fica sem vontade de fazer mais nada, perde as esperanças de correr atrás do que realmente quer e ama por que tem que pagar as contas da faculdade, é isso, achei uma grande sacada, e então eu fiquei feliz por não ter dividas e por ser uma pessoa esperançosa e cheia de planos para o futuro e ser otimista e ter como meta não ter mais nenhum cartão de crédito. Outro lance do filme é que as duas únicas pessoas que morrem durante o filme por falta de atendimento médico são negras. Sim, todas as outras pessoas têm contratempos com relação aos planos de saúde e saúde pública, mas as duas únicas mortes são negras. Alguém falou em genocídio? _____________________________________________________________________________________ 25.04.2008 Chorei, e choro. Um moço passa por mim quando desço a ladeira, estou quase chegando em casa. Me dá boa noite, segue andando. Chorei, por que eu sempre dou boas noites, e achei lindo que alguém me disesse assim, mesmo não sabendo o meu nome ou onde eu moro, o que significa que sim, eu posso continuar acreditando que existem pessoas legais no mundo, por que eu existo, então elas existem. Ontem me disseram Pare de sonhar, menina, ninguém se importa com ninguém, não se iluda, e não mude nada na sua vida por causa de ninguém E eu Mas mesmo se passar pelo outro caminho não me tirar pedaço e fizer feliz quem eu amo E riram, e completaram Psssss, cala a boca, não ta vendo, no final você só se dá mal, fica aí chorando por coisa pouca, ninguém acredita que você é tão sensível assim Não consigo acreditar nisso. E tu? Prefiro ficar com a conversa de outra moça, que me disse Tem horas que sabe, quando cai um vaso, aquele vaso que enfeita a mesa da sala, cheio de flores, ele cai no chão e você vai lá e conserta, mesmo que tu faça direitinho não fica mais igual e aí se ele cai de novo e às vezes uma lasquinha dele vira pó tu cola e cola mas nunca mais fica do mesmo jeito e tu tem que decidir o que vai fazer com o vaso, ou joga fora ou entende que ele pode até existir mas que não, não vai ser como antes Não vou ficar me culpando por ser boba e romântica e sensível. Não vou ficar lutando contra isso, por que vou sofrer fingindo ser o que não sou. Prefiro chorar quando me dão boa noite. Pelo menos é mais original. E agora eu já sei, disse Amy Whinehouse Love is losing game

Um comentário:

daiza disse...

ciao linda! beijoKiss