Você que me lê, me ajuda a nascer.

quarta-feira, março 26, 2008

23.03.2008 Numa das últimas cenas de Juízo, novo filme-documentário de Maria Augusta Ramos, um garoto de 20 anos é “grampeado” (termo utilizado quando um adolescente que cumpre medida correcional e foge é apanhado) na rua por policiais; ele atesta que está trabalhando, e a juíza e o promotor perguntam para ele por que ele fugiu, já que ele tinha conseguido L.A. Ele responde Eu não sei o que é isso, dotôra, então naquele dia que eu saí daqui teve uma rebelião e eu fugi E ela diz: L. A. é liberdade assistida, garoto, pra quê tu fugiu? Tu ganhou a tua liberdade naquele dia que tu veio aqui E ele responde Mas eu num sabia o que era Todos/as riem, o pessoal que assiste ali no cinema ri, mas eu só consigo bufar de raiva contra a juíza e seu assecla. Engraçado, ela incompetentemente não soube presidir uma audiência, não soube explicar para um garoto que tinha apenas a terceira série o que seria do seu futuro, usando jargões ininteligíveis mesmo para nós, ditos “civilizados e inteligente”, e agora ria. Ria da sua própria incompetência? Não, ria do garoto, tratando-o como imbecil. Quando o mesmo disse que era engraxate agora, e que ganhava bem, ela riu ainda mais alto. Tive ganas de voar no pescoço da infeliz juíza. Quem era na verdade imbecil? Não assistam o referido filme, se vocês não dispõem de muita paciência. Eu chorei o tempo inteiro. Eu tive raiva o tempo inteiro. Eu fiquei aqui pensando quem são estes e estas juízas que se acham realmente acima do bem e do mal para definir a vida de uma criança de quartoze anos, dizendo o que ela deveria ou não fazer da vida dela. A juizinha, branca por sinal, faz questão de dar sermões para as/os adolescentes sobre como se comportar na vida, procurem emprego, não façam filhos, ora faça-me o favor, bem que dizem, deus não dá asa a cobra. _____________________________________________________________________________________ Teve um tempo que eu me gabava de ter nascido em Itabuna por que Jorge Amado nasceu lá, nasceu numa fazenda na zona rural de Itabuna. Hoje tenho minhas dúvidas. Além dele ser um cara que mudou de idéia com relação à política assim abruptamente (era comunista e se desencantou com Stálin, mas bem na época que para ele era conveniente fazer alianças políticas em seu estado com os grandes baianos), dizem que leu Gilberto Freyre e se encantou com a mestiçagem; Moreira Salles, de quem eu gostava depois de ter visto Notícias de uma guerra particular e de que eu desgostei depois de ter visto ao vivo por ser boçalzinho demais pro meu gosto disse que Jorge Amado, seguindo Freyre, via a mestiçagem diferente dos primeiros teóricos que sobre essa questão abordaram: para os dois supracitados, a mestiçagem na verdade era um fator de orgulho para o Brasil e era o que o diferenciava dos demais países (sabe o não-sei-o-quê que dizem ter Buenos Aires? É, Brasil também tem, mon ami), lhe tornava particularmente original. A questão toda é que no Brasil a mestiçagem nada mais é que o escopo do branqueamento total da nação: é a partir da disseminação da idéia de mestiçagem (e aqui uso mestiçagem não apenas com relação ao casamento inter-racial, mas também às imposições culturais, sociais e econômicas por quais os/as negros/as devem se adequar para se sentirem parte da nação brasileira) que branqueamos todas as nossas práticas, e por quê? Por que na verdade, a mestiçagem visa atingir a parcela negra da população, é ela que tem que se considerar mestiça, para poder fazer parte, ainda que minoritariamente, dos espaços destinados às pessoas “civilizadas”, aos brancos; o negro precisa se dizer mestiço para se aproximar do branco e nunca o contrário. O branco, esse não quer se dizer mestiço: este é branco e cabou. Ora, e por que o/a negro/a não pode ser negro/a e cabou? Aí o branco te diz Deixemos a mestiçagem e sua prática para os pretos; pelo menos, não ficam por aí se amotinando com idéias absurdas como essas de cotas e políticas afirmativas, querendo a parte que lhes cabe nesse imenso latifúndio chamado Brasil. Farinha pouca, meu pirão primeiro. Não posso negar que gosto de alguns livros de Jorge, assim como me apaixonei por Borges, até saber que ele era racista e ouvir de uma argentina enquanto estive em Buenos Aires que o cara era um tremendo de um aristocrata chato e metido a besta. Não posso dizer que não me divirto com algumas de suas personagens. Mas também não posso dizer que concordo com todos os estereótipos que constrói sobre a cidade de Salvador e seus/suas habitantes. Acho que Jorge Amado deve ser mais estudado pela comunidade negra que pesquisa literatura brasileira. Por que o moço também disse, certa vez que quando lhe disseram que era um escritor de putas e vagabundos, que foi o maior elogio que já lhe fizeram. Isso não deixa de ser um ponto a seu favor. _____________________________________________________________________________________ Assistam Sicko, do Michael Moore. Aprendi a gostar do cara, e vou dizer por quê. Só vou dizer por que li a maioria das criticas sobre o filme, mas não li ninguém dizendo isso que vou dizer, uma coisa tão óbvia. A primeira coisa que devemos levar em consideração quando falamos de Moore e do seu trabalho é que ele dirige e filma falando para os cidadãos e cidadãs dos Estados Unidos; prova disso é que o texto do filme é construído sempre em “nós burramente votamos no Bush”, ou coisa parecida, então, se ele fala para o pessoal “lá de cima”, temos que considerar que ele utiliza uma linguagem e uma técnica para que as pessoas que lá vivem entendam. E aí eu lembro do Slava, palhaço do Cirque du Soleil que disse que tinha de adaptar as piadas do show em NY por que as pessoas não entendiam o texto como ele tinha montado. Moore sabe disso, sabe que as televisões dos Estados Unidos criam fatos, heróis e mitos, como qualquer outra mídia no mundo. E tendo certeza disso, ele também cria, mas vai na contramão do que está criando a mídia em geral: ele fala de Fidel Castro e todos/as nós assistimos e pensamos, mas não é assim, o cara não é bonzinho desse jeito. Mas também não é mau, só que parece que Moore sabe que explicar que a vida não é dividida entre bem e mal para um cidadão norte-americano é coisa muito complicada e que demandaria muito tempo: assim, ele constrói verdades fast-food (afirmações rápidas com umas pitadas de algum embasamento histórico, de simples assimilação, com ilustrações divertidas e piadas nonsense no meio), que vão na contramão do que diz a grande mídia norte-americana para sinalizar apenas que as coisas não são o que parecem; essas verdades fast-food aguçam seu paladar e te dizem que se você quer provar um pouco mais, agora um prato completo com entrada e sobremesa, tem que correr atrás, se informar em fontes outras que não a CNN ou qualquer outro canal de TV’. É assim que ele diz que os/as franceses/as são legais (quando a gente sabe que isso é variável demais), que o Fidel não é o diabo e por aí vai. Não se enganem: o/a brasileiro/a “médio/a” (odeio essas generalizações) não é tão burro como querem que a gente acredite. E sim, as/os norte-americanos/as não são tão inteligentes como querem que a gente acredite. Também não são burros/as. São o que são, e que pena. A verdade é que eu adoro falar mal dos EUA, como todo/a brasileiro/a “médio/a”. Ehe. Mas a grande sacada do Sicko eu acho que é o lance dele dizer que o que os caras querem é que você se endivide mais e mais na vida, por que se você está endividado, você não consegue organizar sua vida e então começa a afetar emocionalmente e também a sua estima, daí você fica sem vontade de fazer mais nada, perde as esperanças de correr atrás do que realmente quer e ama por que tem que pagar as contas da faculdade, é isso, achei uma grande sacada, e então eu fiquei feliz por não ter dividas e por ser uma pessoa esperançosa e cheia de planos para o futuro e ser otimista e ter como meta não ter mais nenhum cartão de crédito. Outro lance do filme é que as duas únicas pessoas que morrem durante o filme por falta de atendimento médico são negras. Sim, todas as outras pessoas têm contratempos com relação aos planos de saúde e saúde pública, mas as duas únicas mortes são negras. Alguém falou em genocídio? _____________________________________________________________________________________ 25.04.2008 Chorei, e choro. Um moço passa por mim quando desço a ladeira, estou quase chegando em casa. Me dá boa noite, segue andando. Chorei, por que eu sempre dou boas noites, e achei lindo que alguém me disesse assim, mesmo não sabendo o meu nome ou onde eu moro, o que significa que sim, eu posso continuar acreditando que existem pessoas legais no mundo, por que eu existo, então elas existem. Ontem me disseram Pare de sonhar, menina, ninguém se importa com ninguém, não se iluda, e não mude nada na sua vida por causa de ninguém E eu Mas mesmo se passar pelo outro caminho não me tirar pedaço e fizer feliz quem eu amo E riram, e completaram Psssss, cala a boca, não ta vendo, no final você só se dá mal, fica aí chorando por coisa pouca, ninguém acredita que você é tão sensível assim Não consigo acreditar nisso. E tu? Prefiro ficar com a conversa de outra moça, que me disse Tem horas que sabe, quando cai um vaso, aquele vaso que enfeita a mesa da sala, cheio de flores, ele cai no chão e você vai lá e conserta, mesmo que tu faça direitinho não fica mais igual e aí se ele cai de novo e às vezes uma lasquinha dele vira pó tu cola e cola mas nunca mais fica do mesmo jeito e tu tem que decidir o que vai fazer com o vaso, ou joga fora ou entende que ele pode até existir mas que não, não vai ser como antes Não vou ficar me culpando por ser boba e romântica e sensível. Não vou ficar lutando contra isso, por que vou sofrer fingindo ser o que não sou. Prefiro chorar quando me dão boa noite. Pelo menos é mais original. E agora eu já sei, disse Amy Whinehouse Love is losing game

sábado, março 22, 2008

18.03.2008 O meu povo viu o terreno ser limpo, arado, viu o tempo passar. Alguns diziam que era pra ser hospital, meu povo sorriu, umas mulheres mais animadas disseram que seria um parque para as crianças, todo mundo feliz vendo aquele mundo de terra que se não fosse utilizado para algum bem pro meu povo ia ser ocupado de casas, então todo mundo esperou, ficava na janela até de tardezinha vendo os caminhões irem e virem para limpar o mato, aprumar tudo, mas nada de chegar material, concreto, cimento, não dava pra saber o que seria, mistério. E mais e mais caminhões passando, chegando, o bairro pequeno de ruas estreitas não cabia tanto caminhão, tinham até atropelado um garoto na esquina da rua principal por que a rua principal de principal só tinha a cara, por que não tinha tamanho nem porte para ser avenida, mas os caminhões não paravam, iam e voltavam, vinham cheios de entulho do centro ou de outros lugares da cidade e voltavam vazios para voltar de novo, isso começava cedo, a bem dizer de madrugada, quando a cidade toda acordava muitos caminhões e muitos entulhos por ali já tinham passado, ninguém dá muita bola pra isso. E foi então que esquecendo do terreno baldio meu povo teve a notícia, triste notícia que o terreno a ser aprumado não ia ser nada além do que o mais novo aterro de lixo da cidade, vinte reais e cada caminhão que ali chegava poderia despejar o que quisesse, o dono do terreno arrendou por uns trinta anos aquele serviço ali, por isso estranharam aquele terreno alto, para evitar o consumo da terra logo de cara, não tinha cara de hospital nem parque, eles e elas se enganaram, por que quiseram, até shopping as mocinhas suspirando imaginaram por ali, com cinema barato e pipoca grátis, mas é só um aterro, só um aterro ali de frente da casa do meu povo, que ainda espera o asfalto chegar no fim da rua, por que político esperto agora não põe mais asfalto de má qualidade, ele asfalta só metade da rua, aquela que dá pra frente da rua que parece avenida, mas que de avenida não tem nada, atropelou mais um, vai lá ver.

domingo, março 16, 2008






Fotos, fotos.

Nem babem, mandei mail pro CECIP e Marcelo me deu telefone pra falar com Coutinho.
Bafoooooo

Eu, eu e eu.

quinta-feira, março 13, 2008

08.03.2008 Solidão étnica, já ouvistes falar? Poético, né? É, mas dói. Dói. Maria Nilza da Silva em seu doutorado cunhou a tal expressão e eu achei bom botar aqui assim, pra que vocês saibam que toda mulher preta que bemsucede passa por isso. No livro Gostando Mais de Nós Mesmos: perguntas e respostas sobre a auto-estima e questão racial, publicado pela Ed. Gente em 1996 já se dizia Em geral, esses homens (negros) não são sensíveis às mulheres negras nem estão disponíveis para relacionar-se com elas (mulheres negras) E aí eu vejo um monte de muié se lamentando, no meu pé reclamando que o moço não ligou, que a faz sofrer. É assim, gente, os zômi são sujeito esperto como nós, eles sabem bem como pisar no coração de uma mulher, não por que já foram mulher mas por que sabem que somos de um jeito que quando apaixonamos arriamos tudo e então é por ali que ele vai te pegar, por que não tem mais aquilo de te pegar pelo dinheiro, pelas contas pagas, nada disso, então ele vai querer continuar dominando tudo mas como, só se for arriando o seu coração, e quando ele descobre que dá certo, que tu fica triste, que tu abaixa a cabeça uma vez aí já viu, não tou dizendo que tem que ser má, só tou dizendo o que acontece, os zômi tão certo, as muié também, e assim a vida vai, e não que eu nunca tenha feito isso, só estou discorrendo sobre o assunto e dizendo que eu sei disso, o que em suma não adianta muita coisa, mas vamos lá. Prefiro ficar sozinha agora. Escolhi amar um homem que nem entende o que é isso que eu sinto, mas talvez o escolhi pra resolver um problema meu, de não querer ficar sozinha de todo, né? Ainda não sei, mas hoje, quando recusei pela segunda vez essa semana ter alguém pra sorrir quando abrisse os olhos tive alguma certeza, aquilo que eu sinto por ele tem algum fundamento, eu digo não e penso nele, bendito crédito que acabou no dia de hoje e não me permite fazer loucuras como declarações mil no meio da noite. Não quero criar vínculos nessa cidade, por que quero ir embora. Já tenho gente demais para amar aqui, e vou sofrer, como sofro longe de todos de lá. De lá, de cá, é sofrimento que não acaba, mas é alegria que não tem mais fim também, o que fazer com isso, sensações todas que me tomam, eu só sei que me recolho e me escondo por que quero, eu sei, tou fazendo de caso pensado, o que não melhora as coisas, mas enfim, eu sempre digo a verdade, pelo menos a minha. Sabotagem, eu adoro essa palavra, auto-sabotagem, e eu quero que você se toptoptop. Eu achei que era poesia, mas tava escrito num livro acadêmico-rebuscadinho Toda razão (logia) tem uma filia (sentimento) E depois tem outra frase, que Ed leu pra mim hoje, do Miguel Sanches Neto Escrever é como caçar caranguejos À maneira do guaxinim E sabe, você só vê os defeitos da outra pessoa que estão também em você, caso contrário você não saberia nominá-los assim tão na bucha. Quando descobri isso fiquei mal e triste por ver o quanto eu sou uma pessoa que precisa melhorar muito. _____________________________________________________________________________________ 09.03.2008 Ontem sentada num bar com duas pessoas quase desconhecidas (leiam meu blog, gente, uma vez eu disse que São Paulo é a cidade dos encontros fortuitos e fugidios) em plena Paulista em obras, um garçom veio e uma delas, mocinha de Capivari perguntou, com o cardápio na mão perguntou o que vocês tem? O garçom com uma cara cansada disse o que tem aí, E apontou com o queixo na direção do cardápio. Eu ri, na hora, e peguei no braço dele, dizendo Nossa, tu é demais, é isso mesmo, tá aí Ela hesitou um pouco e disse, já rindo que pergunta mais cretina eu fiz No que vem o paulistano, nascido e criado em São Paulo, e acrescenta Ô amigo, numa boa, pro teu bem, vou te dizer, não responde mais assim não. Agora se eu quisesse eu poderia levantar e ir embora, só pelo jeito que você me respondeu O garçom nem se abalou, eu continuei rindo e puxei papo com ele, contei do caso do paulistano colega que chegou em Porto Seguro e se irritou por que numa lanchonete pediu um suco de frutas e a mocinha respondeu ah, mas vai ter que fazer, moço... Ele riu comigo enquanto o paulistano dizia que falava desse jeito por que as pessoas são mal-educadas mas não toleram falta de educação com elas, que paulistano é assim, que São Paulo é perversa, mas aí eu perguntei, mas a cidade é feita de gente, né, então o paulistano é perverso e ele disse sim, e então só de sacanagem eu emendei tu também é, e ele confessou, é, eu também, pronto, é isso aí, fechou o círculo. Por isso que eu fico com a resposta das crianças. Minha aluna, a gente falando de planetas, saiu o papo de vida em outros lugares, e ela, no alto dos seus nove anos bem vividos me responde com toda a segurança do mundo mas é claro, né, se tem vida aqui por que não vai ter em outros lugares? Ficamos discutindo esse assunto e ela se achou no direito de levantar do lugar dela e me perguntar será que eles não são terroristas, professora? Eu adoro essa menina. Precisa ver quando ela precisa ir ao banheiro. Me diz estou apertadíssima, professora. Assim, apertadíssima. Vê se eu agüento. Mas bonitinho é aquela outra, que quando eu disse que precisava de carinho por que não estava bem, me abraçou forte e disse precisamos ficar juntas Como se já tivesse nascisdo poetisa, com oito anos e me ensina a viver. Toda prosa na poesia. É só pra ouvir frases como essa que eu acordo cedo, trabalho e não ganho quase nada. E pra terminar, mais um: eu lá na frente perguntando, é ou substantivo ou adjetivo, gente? E levanta o mocinho é subjetivo, professora Me ensina, o que você responde depois de uma dessa? _____________________________________________________________________________________ Tem uma frase a palavra me persegue Eu vejo essa frase o tempo todo na minha cabeça, dentro e fora de mim. Olho para os lados e vejo pelo canto do olho as letras saindo de fininho, palavra, persegue, me, a. É possível ser atormentada pela palavra, nascer e morrer por ela, viver e se alimentar dela? Estarei louca ou a palavra me persegue? Leio coisas e coisas e elejo coisas e coisas para mim, uma palavra ou outra eu pesco aqui e ali, mosaico de vida que nunca se apresenta inteira, dá vontade de continuar aqui só pra ver como vai ser, se tem final. Mas como disse o vô de Laranjeira, moço do Nordeste de Amaralina que mudou pra Ilha de Itaparica ainda menino e agora mora em São Paulo eu só acredito que tô morto depois que eu morrer Melhor assim, não? Eu fico com a resposta das crianças, mas com a beleza dos vincos no rosto dos velhos. _____________________________________________________________________________________ Sem querer desci na frente do cemitério da Consolação. Nunca havia entrado ali, aproveitei. Cemitério. Na hora veio na minha cabeça umas fotos de uma exposição que vi no ano passado na Caixa Cultural, sobre o dia dos mortos num lugar na África. As pessoas fazendo festa em cima dos túmulos, tomavam banho, pintavam a cara, dançavam, era divertido. Invocavam os mortos, dançavam com eles/as, agradeciam. Muita gente sabe que meu irmão morreu. Morreu, gente, odeio eufemismo como falecimento, faleceu, essas coisas. Morreu, sinto falta, choro, mas morreu. A morte nunca foi um problema para mim, na minha família ela foi tratada como algo muito simples, até por que nunca perdemos ninguém tão próximo. Tenho uma outra idéia de vida, de morte. A gente cresce aprendendo a ter uma visão ocidental de tudo aquilo que nos acontece. Deixemos então que outras pessoas e culturas nos ensinem a viver, por que de certo na vida, só a morte. E por que cargas d’água ainda assim dói tanto? Ele morreu. Não está aqui como eu estou. Mas está de outro jeito, em outras coisas, pessoas e caras. Está em mim. Por isso acho perfeitamente comum lugares onde as pessoas comem seus mortos. Nada mais natural querer engolir um pedaço daquilo que mais se ama, levar dentro, fazer com que vire parte de nós, estomago, pele. Maluquice? Uma amiga me contou uma coisa, um brasileiro no cemitério viu um japonês pondo arroz em cima do túmulo do parente, o brasileiro começou a rir e perguntou quando é que o seu parente vai vir comer o arroz? E o japonês: no mesmo dia que o seu vier cheirar as flores que você trouxe Me deixe passar com a minha dor. ______________________________________________ você tem baixa-estima Me disse o cara ontem quando eu recusei o convite dele para vir aqui em casa. Eu disse não, eu sei que sou linda, de verdade, me amo até demais, mas não disse o resto, não disse tudo que penso, que eu penso que só tem uma pessoa no mundo agora que merece tocar meu corpo, sentir meu cheiro, beijar meu sorriso. Por que eu sou tão especial que eu não posso ficar por aí assim, mas nem é por que ele não era um cara legal, mas sim por que agora eu sei que Elee* existe e então as coisas começam a se complicar. Elee* é a única pessoa que me merece. Pena que as coisas não sejam simples sempre. _____________________________________________________________________________________ 12.03.2008 Mais uma, garçom. Você lembra da sua primeira decepção amorosa? Aha. Meu aluno chega hoje na sala, nove anos, boné no rosto, cara triste; olhando pro chão, profere as seguintes palavras: não quero mais ver o mundo Todo mundo pergunta porqueporqueporque. E ele Todos têm seus motivos Chego nele e falo aí, quando você quiser conversar, tamos aí. Ele assente com a cabeça, me diz que só vai olhar pra lousa e nada mais. Vai sentar. Passado um tempo, chamo-o e faço a pergunta fatal: é dor de amor? Ele ainda olhando pro chão me acena um sim, eu mando: é a... é, professora. Ela me mandou um bilhete de volta, dizendo que gosta do... Nessa hora, tira os olhos do chão e me encara, olhinhos miúdos, olhinhos pedindo ajuda, como fazer com essa coisa que não se sabe o que é mas também não pode ser o que dizem, como saber o que é amor, o que é delírio, afinal eu tenho nove anos, não pode, né? Penso que ele pensa tudo isso mas não sabe me dizer, como no dia que perguntei se tinha entendido a lição de Matemática e ele me disse não e eu disse o quê, e ele disse não sei dizer o que não entendi, professora, por que não entendi. Entendeu? Pergunto o que muda ela escolher outro cara, o que ele queria com ela, o que ele poderia ter com ela eu posso arrumar um emprego, tem uma moça lá na rua que contrata criança de nove anos diz meio choroso Me assusto, continuamos conversando, eu dizendo pra ele que acontece, que nem sempre quem a gente gosta gosta da gente, e falo eu também gosto de um cara que não gosta de mim, isso acontece, e eu tou aí, viva Ele aos poucos vai olhando firme para os lados, eu emendo e depois, se você ficar desse jeito ela vai ficar mal é isso que eu quero, fessora, quero que ela saiba que eu fiquei mal mas não seria melhor você ficar numa boa, e então ela ia pensar, nossa, que menino legal que ele é, divertido e coisa e tals, perdi de gostar dele como ele gosta de mim Ele senta, vai pensar, pensar. Nos encontramos na escada da escola, ele indo pro banheiro, eu ainda insisto sabe, gostar de alguém tem que fazer bem, não pode fazer mal, gostar é coisa boa E ele dispara eu sei, professora. Só quero saber o que eu vou fazer com as outras 24 cartas que escrevi pra ela Respiro fundo e manda pra ela, são dela, ela vai gostar de receber Ele parece concordar comigo e me entender. Somos solidários um ao outro. Temos um segredo que selou para sempre nossa amizade de professora e aluno. _____________________________________________________________________________________ mighdezanos. Longe de casa, 10 anos, e essa cidade me atravessa. Saí de casa pra estudar faz exatos 10 anos, e nunca mais consegui voltar. Ou nunca mais quis. Dizem que não quero. Eu digo que não posso, não devo. Não agora. Passou, passou. Passou? Não sei, são 10 anos de tanto de mim e tanto de me aprender. Tem dias que quero ficar só, como hoje, escrevendo, escrevendo. Ouvindo música (Jill Scott, ouça você também), remexendo a poeira dos livros e coisas, do coração. Solidão, não sei direito o que é. Às vezes eu sinto, mas não é sempre que estou sozinha que é ruim. E nem sempre que estou acompanhada quero companhia, então é coisa de doida se eu disser que não estou satisfeita com meus dez anos longe de casa, feitos de sólidão, sódade e sórrisos. Tenho conhecido mais de mim do que eu poderia prever, e adoro saber mais e sempre de mim, mais que antes, sempre mais mas nunca o suficiente que eu não possa suportar saber. E eu não deveria dizer, mas chego em casa e danço olhando pro espelho, ponho biquíni e fico olhando se tem vizinho na janela, mas depois vou na área estender calcinha e esqueço do biquíni, é assim a vida. Li numa revista do mês passado Neyde Veneziano dizendo que não vivemos mais numa cultura de massa, e sim numa cultura de mídia Concordei, pensei e li o resto antes, as obras tinham de ser niveladas pela média; agora, com a explosão das mídias, há uma diversidade para atender ao consumo individualizado. Aí, oxente, concordei mais não. Eu acho que sempre foi cultura de mídia e cabou, quarto poder nada, é tudo ali, definem o que vai ser notícia. Pergunta tostines aqui não cabe, não é a gente que faz o que passa na tv ou na tv passa o que a gente faz, tudo junto e misturado, mas ainda acho que a mídia, ela é má, má como uma pica-pá. Tava pensando nisso e me vi olhando os brinquedos que dizem ser feitos para as crianças, aquelas peças de encaixe montatudo, por que que quase todas usam as mesmas cores e formatos? E além disso, por que o quadrado só monta com quadrado? Por que não inventam um montatudo onde tudo pudesse montar com tudo, de verdade? As crianças olham aquilo e eu sei, elas têm capacidade de mais, então passam-se 10 minutos e enche o saco, elas vão brincar com a caixa de papelão e inventar que é um disco voador, por que ela sabe que na real a vida tem mais círculos e losangos que supõe aqueles vãos quadraditos de poucas cores.

sexta-feira, março 07, 2008

Yo.

Ele me chamou, nos chamou, no ônibus, eu desci. Meio da Rua Augusta, desci, desci, nem pensei. Qualquer coisa se não valer a pena eu tenho um bilhete único, não perco a sessão do cinema, é isso. Mas ele valia a pena, falava yoruba e vinha da Nigéria, com mais um amigo conhecia das coisas do candomblé e era de Ogum. Me olhava com olhar doce e dava vontade de ficar do seu lado só pra ouvir ele dizer num português arrevesado, eu djhuro Me deixou, eu subi a Augusta. Aliás, eu a-do-ro subir a Augusta vindo da República, adoro tomar o ônibus ali na Ipiranga perto do bar Brahma, que por sinal estava cheio de brancos e brancas e quando eu preta mais uma amiga preta chegou parecia coisa de outro mundo, mas voltando ao percurso eu adoro aquela rua ali, vai saber, cheira a coisa velha e acabada, eu gosto-gosto. Mas tenho que dizer que antes de subir a Augusta um branco bebum parou diante de nós, pretos e pretas que éramos rindo e ensaiando inglês, yoruba e português, parou pra dizer que a gente era foda, que o nosso povo era foda, que merda de gente branca que não entendia isso, ou entendia e enraivecia, vai saber, e veio abraçando, todo mundo da rua do outro lado da calçada já olhando, e quem passava de carro ou parava também nos olhava, que coisa é essa, quatro pretos lindos todosjuntos é coisa que não se entende, né branco, foi quando ele disse, esse moço que parou aqui, isso é um sinal que a gente vai se ver de novo. E a gente se viu de novo noite adentro, e depois foi o domingo com nigerianos que moram perto da minha casa, com visita no domingo e comendo comida típica de lá, olhando o rosto deles com as marcas de onde vieram, e eles cantavam e dançavam eu também dancei e me disseram, você é africana e eu disse, você é baiano. Ele sorriu. Queria dizer tanta coisa, queria tirar foto de quando ele comeu com a mão, queria comer com a mão também pra mostrar pra ele que eu sabia, mas não fiz nada disso. Disse pouco, e me emocionei boba quando ele disse, você vai conseguir, mas não é por que eu vi nada, não é por que eu senti nada além, é por que você quer e você vai conseguir, não é por Alah ou Ogum. Olho marejou, fui embora. Ele só não entende por que eu pago a conta e sou viciada em cinema. Tenha paciência comigo, ele disse. E disse também, numa noite dessas sonha pra mim Não sonhei pra ele, mas dormi sorrindo.

quinta-feira, março 06, 2008

Baiana.

Você... está parecendo uma baiana hoje.. te ofende se eu te disser isso? Amarelou um sorriso sem-graça na cara da moça. Olhou pra baixo. Eu disse, mas ora, eu sou baiana, tu num sabe? E fui andando, pensando que num lugar onde ser baiano é coisa pejorativa, ela ficou assim sem jeito de dizer que eu de cabelo empinado e brinco de chita parecia baiana, mas ela queria me explicar eu sei, eu vi, não aqueeela baiana que dizem pejorativamente, mas aquela que estereotipadamente tietava em horários nobres tempos atrás. É isso. Contando um, dois, dez, eu aguento, mais um dia. Mas quem me ama mesmo, passa lá em casa e pega a lista de livros pregada na porta, preciso de estudar, preciso de comprar livro, mas o dinheiro anda mais curto do que perna de cobra, filosofia de malandro, no bolso ele falta e nunca sobra. Você já pensou quantos pontos de vista uma vista pode ter? Cegou.

domingo, março 02, 2008

As coisas não mudam assim do dia pra noite, nada vai ser como antes também, então se acostume e peça uma cerveja para acompanhar suas dúvidas, a solidão vai bater na porta quando você menos espera, você vai ver. E eu só queria saber se quando ele fala comigo é comigo que ele fala ou com ele mesmo, se quando me olha olha pra mim ou quer ver seu reflexo refletido na minha íris, se ele é tão egoísta não vou dizer que sou romântica, se ele é comedido e faz humrum eu não vou me apoquentar, uma hora as coisas se ajeitam e eu entendo que a vida não vai ser como eu pensei sempre, como eu planejei, será que vai demorar para que eu entenda isso e me aquiete? 28.02.2008 E é quando eu fico sozinha que penso, é só da boca pra fora, ele nem pensa em mim, nem sabe quem eu sou e nem se importa comigo, quando você fica sozinha muito tempo começa a achar que o mundo todo não presta, ou então começa a desdizer do amor, fica rabugenta, não aceita qualquer conselho e nem é qualquer roupa que te cabe, quando a solidão aparece tu quer ser forte mas ela te desmonta e vai criando em você outras resistências, como em mim essa de não me deixar aproximar ou conhecer, me conheço e tá de bom tamanho, não quero ter trabalho, não quero gostar de você então nem venha, fique aí mesmo onde está, não tente mais nada comigo. Eu só queria um homem pra chamar de meu? Não, eu só quero um cara pra quem eu possa escrever longas cartas, pra mandar mensagens no meio da noite, pra comprar um livro e pensar em ler rápido pra mandar pra ele, pra ver um filme e ficar procurando o que ali parece com ele, só pra isso, e um assim eu nem preciso de correspondência, só que ele não me encha o saco e não me desacredite, mas que também me diga oi de vez em quando, que se importe comigo, como eu estou e minha família, que me pergunte qual a cor que eu mais gosto e qual é o meu signo, não precisa me amar e nem ficar comigo, só existir. Eu não sei se ele existe, ou se é forma etérea que vira só verdade quando eu penso muito, anjo? Eu deveria desescrever tudo isso aí, por que fico dando murro em ponta de faca. Tenho passado um tempo sozinha para ficar comigo mesma, para saber o que quero quando estou com outras pessoas. Descobri, por exemplo, que não tenho paciência para todas as pessoas do mundo. Não tenho. Não consigo ser legal com todo mundo, e a cada dia que passa, menos legal eu sou, por que estou ficando velha, por que quero as coisas do meu jeito, eu arrumo e largue aí, não mexa, assim é aqui dentro, sou cheia de preconceitos e soluções infalíveis para a minha vida, eu digo amanhã eu começo e começo mesmo, tudo de novo, eu sempre consigo me virar, mas isso vai dando uma sensação de auto-suficiência e cada vez mais você acha que consegue viver sozinha, até que vem um cara que você pum se apaixona e você joga todas as suas chances fora, por que você passou quatro anos dentro de uma caverna se escondendo do mundo e acha estranho que alguém queira estar com você pelo simples fato de estar, ponto. Aí faz tudo errado, chora, quer casar, tudo no primeiro encontro, tudo que os manuais sobre homens e mulheres e relacionamentos, dos mais rebuscados aos mais fuleiros dizem você desdiz e desfaz, se ferra, viu, viu? Desisti, eu sei de tudo, mas ó, ó, não adianta nada. Melhor não saber de nada e ó, ó, adiantar tudo. Eu me leio e penso, taí, queria ser eu lírica. Eu prosa sempre.

Salvador, negro amor.

Ter a Lagoa do Abaeté como quintal de casa; ir em Jaguaribe no final da tarde pra molhar os pés; pegar um ônibus que dá a volta no mundo só pra passar pela orla de Salvador; comer acarajé assim que chega na cidade; ir no Pelourinho pra subir e descer ladeira e nada mais; tomar refresco em frente ao plano inclinado; entrar na lojinha do Verger e não comprar nada, mas prometer que da próxima vez leva alguma coisa; andar do Campo Grande ao Carmo e depois reclamar do cansaço; tomar cerveja vendo o sol se pôr na Cruz do Pascoal; achar brega baterem palmas quando o sol se põe no Solar do Unhão; falar pra todo mundo que não ouve Psirico, mas cantarolar Todaboa bem baixinho; chamar bolinho de estudante de punheta; comer pititinga na praia por que é o prato mais barato; ser paquerada por homens casados que sempre estão se separando; bater papo com o moço que vende dvd’ pirata; comer aipim com carne seca de manhã cedo; não conseguir acordar tarde; não conseguir dormir cedo; sentir cheiro de mofo na rua do Taboão; não assistir televisão; paquerar o vizinho, o pai do vizinho e o tio do vizinho; tomar cerveja todos os dias; namorar, namorar, namorar, mas sem perder o foco; sentir saudades antes de ir embora; não entender a solidão paulistana que fala Zeca Baleiro; Salvador, negro amor.