Você que me lê, me ajuda a nascer.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Simples assim.

Estou com péssimas idéias de títulos. Aliás, demoro mais ali em cima do que aqui embaixo. Normalmente aqui escrevo de uma tacada, voltando só para aparar arestas e arrumar ortografias, gosto de escrever assim na bucha, pá-pum, voltei às cadernetas, por que eu estou aposentando a internet em casa, isso me deixa feliz, por um lado lerei todos os livros e verei todos os filmes que estão na fila para o final de 2007 acabar lindo, limpo. Por outro lado, me assusto com a idéia de não ter algumas informações a tempo, ainda não sei lidar com isso, e com a falta de algumas pessoas que sempre me aparecem na minha caixa em horários malucos, mas que fazer, a internet tem seu preço, e por enquanto não quero pagá-lo. Literal, literato da palavra. Tenho várias cadernetas, para várias coisas, anoto tudo, tudo. Anoto em guardanapo de bar, aliás, é onde eu mais gosto de escrever; estou tristinha por que me escreveram você é um doce num papelzito e eu perdi, meu coração ferido não quer perder mais nada, calma, respira fundo me disseram, você quer que eu ponha Edith Piaf pra tocar, eu disse não, não quero que você saia daqui de perto de mim, então vem, vamos dormir abraçado ali na cama, vem Estou tentando me acalmar, mas o amor tem pressa de acontecer aqui dentro, sei que a queda será vertiginosamente deliciosa, me apaixonarei e não estou preocupada com isso, expliquei para ele que amar faz bem pra mim, que apaixonar-me me faz bem pra vida, ele me disse você não tem 27 anos, e sorriu, e quando ele sorri as coisas ao redor se iluminam, aqui dentro aquece, engraçado como eu sou tão solta e fico sem jeito de olhar pra ele que é tão autêntico, que diz coisas que de tão simples ficam tão tão bonitas como sua cor é linda ou gosto do jeito como você fala, apaixonar faz bem e dessa vez, se não posso muito com ele, queria de novo no cinema poder pegar na sua mão, ele suspira e sorri nas horas em que eu tenho vontade de fazer as mesmas coisas, ele apareceu e se sumir tudo bem, agora eu sei que ele existe e já me disse coisas que valem a pena continuar vivendo. Aliás, é a primeira vez que escrevo tão mal coisas que aconteceram com o meu coraçãozito, essa foi a primeira vez que eu disse tudo que queria dizer antes de escrever aqui, a primeira vez que ouvi tanta coisa bonita sem precisão de serem ditas, o amor tem dessas coisas, não nos preparamos para sorrir e ele vem e inunda a terça-feira, eu não preciso do moço e nem ele de mim, talvez, vá saber, talvez por isso seja tão bonito, é só a vontade de estar ali e mais nada que faz o resto do mundo girar. Respiro fundo

domingo, novembro 25, 2007

Estranhamento.

Choro toda vez que volto de ônibus domingo pela manhã, olhando São Paulo pela janela e as gentes todas, todos mundos, choro de felicidade-tristeza-saudade-incapacidade-solidão. Mas no fundo, me sinto privilegiada. Por amar, sorrir, brincar, comer, dormir, tudo isso e se eu quiser ao mesmo tempo, aqui ou em qualquer lugar. Gosto de São Paulo, gosto de Salvador, gosto de gente me rodeando, me pegando e gosto de olhar de longe gente que se pega, gosto de imaginar a vida das pessoas que vendem bala no ônibus, gosto de conversar com todas elas, gosto de olhar para as pessoas à minha volta no metrô, elas nunca se olham direto nos olhos, gosto de fingir sempre procurar alguma coisa, finjo falar no celular quando estou sozinha, adoro inventar uma vida às vezes, como fazem comigo, pra ficar me perdendo e me descobrir depois. Cada dia que passa, tenho cada vez mais certeza que vou ser escritora. Vou morrer fazendo isso. Mas também queria cantar. Posso compor, então. Dona Mariquinha diz Como é isso, menino? Amor é bicho bom E eu digo Como é isso, menina? O amor são umas pessoas E é uma pena que tanta gente por aí seja tão boba. Eu te amaria mesmo tu sendo bobo, o problema é sua pretensão de achar que é mais bobo que os outros. E se a vida é invenção, como eu sempre digo, gente, vamos inventar finais felizes, enquanto podemos. Nada de chorar amores pequenitos, de estações de ano. Eu quero é que me tomem por inteiro. Despedaçada, sozinha, eu já consigo.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Em trânsito.

Gosto de viajar, e mais ainda, gosto de estar em trânsito. Percebi isso quando me buscaram do aeroporto na última vez: quando cheguei no meu destino, torcia para o carro dar mais umas voltas, não queria parar, gosto mais do trânsito do que da pousada, gosto da idéia de partir e chegar, de chegar para arrumar as malas de novo, gosto gosto. Mas ontem, quando parei para namorar alguém, percebi como faz bem ficar olhando nos olhos de alguém, sorrir olhando alguém sorrir, não será isso namoro, o moço me disse faz tempo que eu não namoro também, é estranho aqui com você e eu sei que ele beija tantas bocas por aí, e eu que beijo outras tantas, mas namorar é diferente, é parar para olhar e nesse olhar deixar todas as coisas acontecerem, bom perder todo o resto do mundo nesse tempo de namoro. Quando sentir muita falta disso, sei que vou ter que dar um jeito na minha vida. E o trânsito vai ser igual via láctea, vou me perder nos carros num trânsito de sexta-feira no centro da cidade grande, carros buzinando e meu tempo parado, dentro do carro do olho de um certo moço. Andando pelo Comércio, Cidade Baixa em Salvador, parei para chupar manga. Numa barraquinha, meio da feira, perguntei pro moço se poderia descascar pra mim, queria chupar manga ali mesmo, adoro cheiro de manga, deve ter sido por isso que amei quando me cantaram dizendo que minha voz parecia manga madura, deve ser por isso que quando vou no mercado sempre compro suco com néctar de manga, adoro essa palavra. O moço devagarzinho lavou, descascou a tal da fruta, tempo suficiente para paquerar e ser paquerada pelos moços na lanchonete, eles também devagarzinho iam trabalhando e conversando comigo, me dizendo que as mulheres, ah, as mulheres, essas não queriam mais saber deles, eu também me lamentava, ah, esses homens, tão malvados... Pierre Verger e suas fotos de gente, porta-retratos da vida. Uma amiga visita a Casa de Pierre em Salvador comigo (pequenita, assim como a praça Castro Alves), me diz velhos têm mapas no rosto E eu disse, escreve isso, caçamba, escreve, escreve, por que eu queria ter pensado isso, todas aquelas marcas que de perto parecem chão do agreste, sertão iluminado de estrelas de tempos antanhos, cada sulco é pedaço de terra que leva e conta histórias deste mundo e de outros, ah, Mia Couto, o que estás a fazer comigo? Leio-te e descubro que não sei nadita da escrita, tu é rei do lugar onde fala, só posso ler-te e embevecer, só posso suspirar para nunca morrer sem ter bebido todas as tuas palavras, néctar de manga. Madura. Então eu vejo que é isso mesmo que eu quero fazer antes de morrer, passar o resto da vida que me falta escrevendo, escrevendo o tempo todo, todo, quer ver? Eu estava no aeroporto em Salvador, e me pus a escrevinhar, uma coisa mais ou menos assim estava aqui sentada, olhando para esses moços e essas moças que estão a limpar o saguão do aeroporto. é madrugada agora. conversam alto, riem, acham graça. são todos e todas negros e negras. a única branca é a supervisora, única sentada enquanto todas e todos os e as outros e outras estão em pé, lavando o chão. também é a única que não sorri, dá ordens. parece não gostar muito daquela festa toda, não deveriam estar macambúzios/as e tristonhos/as por terem que lavar a sujeira dos/as outros/as essa hora da madruga? agualusa está é certo quando fala que festa é jeito de protestar. olho pro outro lado do saguão, já limpo. brancas e brancos tomam café. eu sou a única negra que vai viajar de avião, mesmo salvador sendo uma cidade majoritariamente negra. mas nei lopes já disse isso, não quero me estender. parei de observá-los/as. poderiam ficam sem jeito e parar com as gracinhas. me pediram para mudar de lugar, iam lavar a minha mesa, eu sorri, tentei puxar papo. queria entrar na diversão e quem sabe, tomar uma cerveja na praia qualquer dia com todas e todos eles e elas. deixo pra lá. eles e elas são metidos e metidas. não ligam pra mim. voltam a sorrir, a trabalhar. E eu escrevo e penso tantas coisas como essas, e eu esqueço e eu tenho preguiça de escrever aqui, não sei por que, passa batido. Por isso, se algum dia eu for morrer, quero morrer na praia, de tardinha, escrevinhando qualquer coisa, um laptop na mão e idéias na cabeça.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Blue Rose.

É quando ela canta Maybe she´s just a morning glory Lost in a tangle of vine Maybe she´s just a morning glory Lost in a tangle of vine Que eu fico em paz. Adoro garimpar música. Me faz bem, feliz. Voltei, percebam. Amigos que me amam me mandam cartas e presentes pelo correio. E não é só um. Como eu posso reclamar que não sou correspondida? É coisa de louco: semana passada um exnamorado me disse que me amou tanto e tanto quando eu nem tchuns para ele, isso serviu para acalmar meu coração, é assim que eu me apaixono e não me querem, e eu não consigo ficar triste demais. Triste demais, digo. Tristezinha. É uma pena, como sempre, por que eu queria que desse certo. Mas talvez eu seja só uma menina birrenta e egoísta que quer alguém para chamar de seu. E é normal que se alguém quer só me dar um beijinho não me queira toda nem para sempre. Mas diz aí, nem posso me queixar. Tenho a Liz, tenho a Day, meninotas de nomes pequenos mas que me enchem a vida.

domingo, novembro 18, 2007

Martelando.

Tem uma frase que não sai da minha cabeça. Mas não posso postá-la assim, por que não tem sentido, é frase de uma música que não encontro a letra. Do sambista César Costa Filho, quem souber, me mande. Carvão Molhado. Tem coisa mais chata do que gente que não sabe te explicar tudo direitinho e põe a culpa em você do mundo inteiro não girar ao redor dela? Que que eu faço? Tentei chorar, não consegui, então fui dormir. Não vou ficar levando as dores do mundo nas costas. Dói demais e eu tenho medo de ficar feia assim encurvada. Fico preocupada em medir paixão, mas isso é coisa que não dá. Então fico triste por não morrer de amor, eu levanto, sacudo a poeira e dou a volta por cima assim, como quem toma um cafezinho na esquina. Quero voltar pra casa. Pr'aqui. Pra sempre.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Osso duro de roer.

Assistindo Jogo de Cena, a Andréa Beltrão lembra da infância, você se pergunta o que é representação e o que é real, mas não tenho dúvida que ali ela está falando do que viveu: diz que sente falta da Cidina(chamava-se Alcedina, mas Andréa pequena não conseguia falar o nomão inteiro), empregada que trabalhava em sua casa quando tinha cinco anos, ela diz que sente falta do cheiro da Cidina, uma preta enorme que adorava sorrir, a Andréa mesmo diz que adorava fazê-la sorrir, e quando chegava a hora de ir dormir ela ia pra debaixo do sovaco da Cidina lambendo o açucareiro, não queria mais nada no mundo, só sentir o cheiro dela, fechou os olhinhos e eu ali na cadeira pensando com tanta coisa pra lembrar da infância ela foi lembrar do cheiro da pretona, cadê a mãe dessa menina, deve ter ido trabalhar, mas é isso, ela poderia ter falado da mãe, do pai e das festas e brincadeiras, mas memória é coisa que trai. Assista Ônibus 174 e não verta uma lágrima. Não sei se era a intenção do Padilha, mas não consigo. E também nem tento não chorar, quando vem eu não seguro. Ontem fez um mês, me senti triste no fim da tarde, vai saber. Eu sei. Li ontem o George Clooney falando que sofreu muito com o pai, cheio de convicções e se levantava na mesa do jantar se alguém fazia alguma piada racista, ele torcia para o pai pelo menos uma vez relevar, mas o papai dele era mau, pegava-o pela mão e dizia umas poucas e boas, até nunca mais. E fiquei me sentindo mal quando não mandei um cara ontem, sentado na mesma mesa que eu, ir catar coquinhos. Teve a pachorra de dizer que o apartheid no Brasil foi criado pelo Lula, que as escolas públicas estão infestadas de animais, e ainda sobrou pro garçom, que segundo o dito cujo, não tinha massa encefálica para processar mais de uma coisa por vez, assim como a sua secretária. O sujeito é médico. Do mesmo tipo que matou meu irmão. Depois dessa, decidi não aturar mais isso. Da próxima vez, se pelo menos não disser umas poucas e boas, me levanto e vou embora. Simples assim. Como quiserem: eu acredito, esperançosa e boba, que vai acontecer alguma coisa e bum!, vai mudar tudo. Tenho uma amiga que acha que só vai piorar (é a pioria, nada de melhoria, fessora) e piorar. Tem pra tudo que é gosto. Escolha o que quiser, idéias na cabeça ainda são de graça.

domingo, novembro 11, 2007

Eduardo Coutinho.

Em 2005, saiu carta minha publicada em jornal falando do filme do Coutinho, O Fim e o Princípio. Foi o filme documentário que me fez conhecê-lo; depois dele, tive por obrigação assistir todos os outros (falta-me ainda Santa Marta). Hoje, vi Jogo de Cena. Imperdível. Obra-prima do cinema. Cinemão de quatro estrelas enormes de grande. Qualquer moça da minha idade entra no meu quarto e se assusta. De um lado, foto de Alberto da Costa e Silva, de outro, foto de Coutinho. Amo septuagenários? Nem é isso, mas é o que me disse um ex-namorado, fazedor de filmes: Não tem como ser um bom documentarista jovem, o cara tem que sacar a parada, e demora pra acontecer isso De Coutinho mesmo sei quase nada. A cara dele quase não aparece pra mim, mas gosto de pensar que ele está ali, me conforta ouvir sua voz, sei que no final das contas vai sair tudo bem. Tenho delírios de um dia ser sua discípula, de um dia, pasmem, entrevistá-lo, tenho delírios que me fazem continuar, seguir em direção a tudo que amo (A Via Láctea). Ele estava aqui no Cine Bombril nessa quinta que passou, gelei, não sabia ir e vê-lo e não falar com ele e não parecer tiete, por que eu sou perdidamente apaixonada pelo modo como ele usa o cinema, tranquilamente vai ali e inventa como dizer as coisas, é isso então. Mandei uma carta pro moço, mandarei outras. Coragem, coragem. Chega a doer tanta naturalidade assim exposta (a frase é minha, o grifo é meu, sobre O Fim e o Princípio, dois anos atrás)

terça-feira, novembro 06, 2007

E vírgula.

agora fica repisando essa porra a vida inteira e quem gosta de falar sou eu vc que tá repisando esse caralho porra vc complica as coisas já admiti errei caralhooo pq vc não fala assim: e quero te ver de novo negão, vou tá aih tal dia...tal dia queria sair contigo e conversar fiado não sei onde, dá pra vc? aih eu respondo: sim ou não ou talvez negão, vou tá aih tal dia...tal dia queria sair contigo e conversar fiado não sei onde, dá pra vc? mas nããããããooooooo.... eu perguntei isso da outra vez vc quer uma resposta generica e tu disse sempre há possibilidades não discuto isso o fato da gente se ver claro que eu vou te chamar pa sair num quero porra de resposta genérica caralho nenhum quero q tu preste atenção em mim no q eu faço, ops, no q eu falo e eu nunca quebrei jura nenhuma nunca disse nada que não cumprisse (ainda num deu tempo) *ri* blz vou reparar mais

Eu prefiro ponto. E vírgula.

Fui dormir tarde querendo ir dormir cedo mas o conto me despertou. Escrevinhei tanto e tudo, mas acho que valeu a pena. Por que minha alma, ah, essa nunca foi pequena. Ele, sempre ele que me salva. Me arrebata. Me faz morrer duas vezes e me faz renascer sempre sorrindo. Mas não vou falar dele. Não vou falar mais nada. Da próxima vez, tiro a roupa (dele?) de cara. murro em ponta de faca c quer conversar e conversar e conversar e conversar é talvez seja a desculpa até na hora q é pra gente se beijar pa falar com tu vc quer conversar naquela hora ali que merda não precisava de desculpa porra era só beijar a gente tava junto pá caralho tu num entendeu porra nenhuma ou entendeu não sei diga aih entendi? nem eu tinha entendido e depois eu te disse que eu tinha medo de querer tu e tanto e muito como foi como é que eu ficava pondo panos quentes tu vai dizer, conversa e eu vou dizer, é mesmo por isso queria te ver de novo tem o gostar pa entender isso mas e a poesia do gostar num quero que tu me veja pq eu disse tudo isso se tu acha que já foi já era UHAUhUHAuha como assim a poesia do gostar? vc fica com essa porra de insegurança num tenho mais isso quantas vezes vc perguntou se eu te vi pq eu quero eu sei o que eu quero ou pq eu tô só "sendo legal" eu não sou legal mas num posso enfiar uma faca no seu pescoço não faço nada q eu não queira se vc não acredita q eu posso querer estar com vc inclusive trepar comigo ehe porra pelo menos acredite q eu sou egocentrico o suficiente pra só fazer o q eu quiser e será tudo da lei eu já sei que tu num presta e etc e? mas vc quando te conheci passou a ser aquilo que eu escrevi no conto e foi foda pra mim descobrir pq eu num quero e eu rejeitava isso

segunda-feira, novembro 05, 2007

Arte.

Conversando com um moço chamado Gabriel lá no MAM, em visita ao Panorama Brasileiro 2007 que todo ano "eles" organizam, acho que consegui sintetizar o que sinto pela arte contemporânea. Mandei assim pra ele: Sabe o que é, essa coisa de arte feita agora assim, representando a realidade, tudo bem, mas é só mais uma representação, não me diz mais nada, eu sei que aquele monte de tv uma olhando para outra quer dizer por que eu vivo aqui, nesse mundo, então é isso, tem aquela coisa da arte clássica ser o prenúncio de uma nova realidade, ou brincar com realidades, acho que pouca gente faz isso hoje no campo da arte, sugerir novos olhares, o que mais acontece é que as pessoas pegam os mesmos signos e ficam reinventando, entende? Não sei, mas tu pega o Gilberto Gil com o cd' Quanta e ele já viajava em física quântica e ditava as normas, hoje a gente ouve um cd do fim do século passado e baba com as revelações, para mim todo/a artista é um visionário Ele me animou e disse que muita gente pensa isso. Ufa. E agora há pouco eu li o que pensa a Alicia Fernandez, sobre a questão de gênero e o conhecimento nas escolas, em como a menina e o menino são marcados e devem responder a este ou aquele estímulo. Meninas escrevem no diário por que não conseguem força para dizer o que pensam. Meninos são ousados, são estimulados a isso. Apesar das mulheres serem o grande número em educação, quem escreve os livros e ditam normas são os homens (isso vale também para os sindicatos, grupos de estudo, áreas de conhecimento, etc). Vale a pena estudar o assunto. O que não dá é querer propor uma técnica para fazer isso. A gente só vai conseguir pirar a cabeça das crianças, colocar as coisas de pernas pro ar utilizandos outros jeitos para educar, e não as mesmas fórmulas batidas de técnicas e resultados. É um assunto que me interessa, até por que eu estudo sobre isso há uns cinco anos. E não consegui mudar tudo: o ranço machista impregnado em minha educação escolar e do cotidiano ainda me prejudicam muito. Saber disso já ajuda bastante. Sei contra quem e o quê tenho que lutar. Mas sem adotar uma postura masculinizada, sem caricaturas. Talvez esse seja o maior desafio. Não sei por que escrevi todas essas coisas. Leio muita coisa interessante, o tempo todo. África, racismo ambiental, cinema, Mia Couto, poemas em francês, cartas de amor; esqueço-me de mencionar tantas coisas aqui, reclamo comigo mesma mas não consigo, quando vejo, a vontade louca de contar para alguém sobre o último artigo que li já passou, passou. Deixo pra lá. Me disseram que sou corajosa, e verdadeira. Por dizer quem sou, por falar abertamente das minhas feridas, por não querer mais nada além de um beijo, por não querer me apaixonar de verdade, nem me aproximar. Me disseram que me gostaram mais ainda depois disso. Tentei argumentar que não duraria muito, mas persistem: me levaram flores, foram à minha casa, me agarraram por um beijo, eu solícita deixei, mas será só daquela vez. Não mais.

domingo, novembro 04, 2007

Sobre o passado.

Acordei tarde, gosto estranho na boca. O sol ia alto lá depois das janelas fechadas, senti o mormaço aqui dentro. Dormi em casa, na casa que morei até os meus 18 anos, aqui é só a mãe e uma gata agora. Lembrava dele, do bar, do aperitivo sem graça e da cachaça no bar do lado. Passava das duas da manhã e a gente ainda ali, colega do tempo da faculdade, mesmo curso, coisa que ele me lembrou logo de cara, não, eu não lembrava disso, nem mesmo depois do sexo, mas eu acho que me lembraria de um cara enorme daquele andando nos corredores da universidade, um cara enorme um tanto nerd e cheio de sonhos, era o cara por quem eu morreria e voltaria à vida já naquela época, o cara por quem eu me apaixonaria perdidamente. Naqueles tempos também eu era nerd e cheia de sonhos, talvez por isso nunca houvesse notado o moço, vai saber. Conversamos muito antes de transar no carro dele e eu já o queria só pra mim, ele falando sobre os reinos esquecidos do Zimbábue, sobre Benin e Daomé e eu imaginando ele pondo a toalha no lugar e guardando os sapatos, eu sorria mas não era daquele papo, sorria por que já me via caindo naquela merda de abismo chamada amor, chamada solidão. Mesmo sozinha há tantos anos continuava exigente, eu queria aquele homem sem erros, de óculos com a perna quebrada e que não falava pouco. Me agarrava como se fosse a última coisa que quisesse fazer na vida, como se estivesse esperando por mim durante todos aqueles anos, mas era só impressão minha, eu sabia, era uma impressão para me animar, aquele gosto estranho na boca continuava. Um gosto estranho para um dia estranho, quase cinza. Eu voltei aqui só para buscar umas coisas, documentos e fotos velhas, meu quarto agora servia de depósito, de meu só uma cama e um baú, minha mãe odeia o passado, diz que cheira mal e não há produto de limpeza que dê jeito. Voltei e já precisava ir, não voltei para me apaixonar. Não posso ficar, estou amarrada numa cidade longe daqui, cidade que não é minha mas que é onde agora eu me viro pagando contas e correndo. Não devo ficar, mas pensei em ligar para cancelar o vôo que vai depois de amanhã, alegar um mal-estar com a tal comida típica da cidade natal e pedir uns dias à chefe, ficar aqui. Levantei da cama. Me animei em procurar entre as fotos velhas, aquelas que eu tinha separado para jogar fora, por que não tinham graça, tinham enquadramento ruim ou eram tempos que eu queria esquecer. Mas agora queria ver o que tinha ali do meu tempo de estudante, algum indício daquele moço enorme, quem sabe. Sentei novamente. Encontrei fotos de um último encontro, uma delas foto mal-feita em que só um pedaço de mim aparecia, o resto era multidão. Mas ele estava lá inteiro, dava pra saber que era ele, mesmo cabelo, era ele morando ali no espaço de uma foto que era minha, no mesmo espaço que eu. Mesmo espaço, não no mesmo tempo. Eu não me lembro. Acho que não me lembro nem do que eu era nem o que eu queria naquela época, parece que faz muito tempo mas na verdade foi ontem, eu ainda não cresci e continuo sem saber de muitas coisas, e talvez por isso eu tenha ido embora. O quarto, a casa e a cidade ficaram pequenas para mim, pequenas para a minha desesperança de continuar ali, tentando ser feliz do mesmo jeito que todas as pessoas que eu conhecia. Achava que eu devia fazer algo novo, acreditava que na vida a gente tinha que pelo menos fazer alguma coisa de grande e muito importante, saí correndo atrás disso, mas até agora, só arrumei solidão. Engraçado, na foto ele também parecia me olhar, coisa de doida agora, mas ele estava mesmo olhando na minha direção, olhando na direção daquele pedaço de corpo estático na foto, vai entender. Deitei e olhei pro teto, naquele quarto que tanto me viu chorar nos tempos de faculdade, por me sentir a mais feia da minha classe, comigo as coisas sempre aconteciam depois que tinha acontecido pra todo mundo, todos os traumas de adolescência eu senti também na faculdade, eu nunca achava que estavam olhando pra mim ou que queriam falar comigo por que eu era bonita ou coisa parecida, tratei de enfiar a cara nos livros e fazer o tipo cult-de-óculos-moderninho; desconfio que sempre tive amigas e mais amigos por que fazia as atividades em grupo colocando o nome de metade da sala no trabalho, mas aí eu penso, fazer o quê, a gente sempre paga alguma coisa para ser aceita em qualquer lugar que se queira ir ou estar, nesse caso me sentia feliz de poder pagar com a única coisa que eu tinha que eram as atividades extra-classe, assim o pessoal tinha mais tempo pra namorar, sair ou dormir, além de serem todos meus amigos e minhas amigas, rirem de algumas das minhas piadas e não me chamarem de esquisita por vestir a mesma camiseta durante os cinco anos de curso. Fechei os olhos. Minhas idéias estavam em trânsito, meu corpo flutuando naquele lugar, minhas responsabilidades lá fora, bem longe, depois das janelas e meu coração esbaforido, pronto pra sair pela boca e cair no colo do moço, assim que o visse de novo. O celular estava à mão. O número dele também. Naqueles cinco anos longe de casa, ele me encontrou virtualmente, trocamos números, nunca soube pra quê. Mas agora eu deveria ligar. Chamou duas vezes. Ele respondeu falando meu velho apelido, sem nenhum “oi” ou “olá”. Tentei combinar palavras engraçadas para montar assim umas frases de efeito, daquelas que só pessoas inteligentes conseguem formular na hora da precisão, e perdi o chão quando ele me disse que eu já havia dito bobagens demais na noite anterior. Silêncios. “Mas eu gosto de você”. Silêncio de um lado, respiração ofegante do outro (aqui na minha cidade natal, é ele quem corre). “Apesar de tudo, eu gosto de você, preta”. Falou isso como se não fosse nada, eu gosto de você e é isso, não precisamos de mais nada aqui, tá tudo bem, suporto suas bobagens e sexo bêbado no primeiro dia, como o sol aí fora e você teima em não ver, eu gosto e só, sem adjetivos, penduricalho da gramática que só atrapalha a ação do verbo. Talvez minha impressão tivesse sentido, talvez nossas vidas já fossem uma da outra e estivessem apenas nos esperando nessa cidade, para encontrarem-se de novo, para não se perderem no céu azul, queriam se encontrar em terra firme, olhando nos olhos, sorrindo sorrisos. Agora parecia me lembrar de tudo, até o motivo do gosto estranho na boca, saí correndo daquele último beijo ontem, não tinha mais nada a fazer, mais um olhar dele e era eu dizendo sim, vou casar, ter filhos, uma casinha com varanda, essas bobagens que dizem que toda mulher sonha em ter quando chegam assim na minha idade. Desliguei, desligamos. Voltei a dormir, agora o sono é para descansar de amar, vou abrir os olhos só pra sonhar acordada e brincar de ser feliz, amanhã eu cancelo o vôo. Por hoje não posso mais, alguém me gosta e não preciso entender por quê.