Quem bate à porta?

Segunda-feira, Maio 28, 2012

Chororô (Mariene de Castro, Abre Caminho).








Final de semana de emoções. Assisti no sábado pela manhã o DVD Mariene de Castro, Abre Caminho. Já o conhecia, mas nem sei porque nunca tinha visto. Dessas coisas que eu faço comigo mesma, como ouvir Criolo quando todo mundo está esperando o segundo cd. Assisti o DVD e me peguei chorando de soluçar em muitos momentos. No DVD, tem muita coisa de Salvador e muita coisa de mim. As ganhadeiras de Itapuã, grupo que tive o prazer de conhecer pessoalmente e que conheço a proposta, me emociona sempre (a tradição de mulheres vendendo quitutes e peixes na orla de Salvador durante o final do século dezenove e todo o século vinte é coisa que me faz arrepiar só de pensar. Os ditados orais "olha o peixe, o amendoim torrado" e o modo como falam é coisa que tem tanta história... lembro de um homem negro muito alto e bem forte que vendia bolo de tapioca em Pau da Lima na década de noventa. Ele falava de um modo que a frase "Bolinho! Olha o bolinho!" saía como "Bolires! Olha o bolires!". A gente brincava de imitá-lo na rua e, para mim, um grande dia foi quando, ao ir visitar minha avó que ainda mora no final de linha, descobri que ele era vizinho dela, porta de frente. Descobri o "bolires" e sua família, filhos e mulher. Ele, que para mim era uma lenda viva, havia criado sua família fazendo aquilo).


Depois, há um grupo de dança infanto-juvenil de Fazenda Coutos, Grupo Plim. Também choro vendo aquelas crianças dançando, sambando, querendo um amanhã feliz para todas e não apenas para algumas delas. Falem o que quiser, mas Mariene de Castro, a tabaroinha, é uma mulher iluminada demais. Fia de Oxum em tudo e por tudo, devota, agradecida. Sinto-me feliz por poder conhecer este trabalho.

Mais coisas sobre o trabalho da moça aqui.

Domingo, Maio 27, 2012

Revelação.

Eu nunca deixei de falar o que sinto, não vai ser agora. Falei, escrevi, falei e falo. Não tou nem aí para os pessimistas de plantão. Aprendi com minha mãe, bell hooks e mais um monte de mulher preta que não posso ficar calada, mesmo que pareça contramão.
A gente defende as nossas ideias falando.
E o meu amor eu cultivo praticando.
Não importa o tanto da correspondência. Pessoas não são iguais, não amam como você ama, não tem obrigação de amar como tu ama. E não espere.
Eu amo. Apenas.
Pode parecer doloroso, mas estou no mundo a la Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Dona Graça e tantas outras.

Histórias de família.

Uma hora no telefone com mainha e ela esclarecendo histórias antigas de família. Com muita vontade de ir procurar mais a fundo a família de meu pai. Não é que eu não o conheça nem nada, mas hoje não temos mais um contato assim tão estreito. Sei de meu pai pelo que mainha fala e sei da família dele que não conheci (meu avô, parentes distantes) pelo que ela sabe, que também é muito pouco.

Uma coisa que eu sempre quis saber era como foi formada a família de mainha e de painho, digo, como cheguei até aqui, quais foram as pessoas e cores que se encontraram. Descobri muito até agora, mas, ainda quero mais.

Qualquer dia desses, escrevo tudo isso aqui. Ou num livro. Ou quem sabe, um documentário.

Terça-feira, Maio 22, 2012

Segunda-feira, Maio 14, 2012

Axé music (?)


Engraçada a vida.

Eu, quando morava em Salvador (e em outras cidades da Bahia), quase nunca ouvia a chamada música baiana. Na verdade, não precisava. Ela estava em todos os lugares por onde eu passava, fazia parte de minha vida, mesmo que eu não apertasse o play. 

Agora, morando em São Paulo há oito anos (nove, quase dez? Não, não!), quem bota Olodum para tocar sou eu. E Araketu, Banda Mel, Parangolé. Ouço tudo. Fico boba como lembro de cor letras como 

Criaram-se vários reinados
O Ponto de Imerinas ficou consagrado
Rambozalama o vetor saudável
Ivato cidade sagrada
A rainha Ranavalona
Destaca-se na vida e na mocidade
Majestosa negra
Soberana da sociedade
Alienado pelos seus poderes
Rei Radama foi considerado
Um verdadeiro Meiji
Que levava seu reino a bailar
Bantos, indonésios, árabes
Se integram à cultura malgaxe
Raça varonil alastrando-se pelo Brasil
Sankara Vatolay
Faz deslumbrar toda nação
Merinas, povos, tradição
E os mazimbas que foram vencidos pela invenção 

E outras como

... o nome desse orixá
Está gravado na história
Eu não posso mencionar
Gerado, foi criado
Está esculpido na mente
Muito além da minha consciência
Gerado, vou cantar no meu ifé
A palavra mais justa de um rei
No seu culto candomblé
 

Não é que eu não gostasse disso quando eu morava lá. É que era tão presente que... eu não precisava parar para escolher um cd' para ouvir. Saía na rua e isso estava tocando, assim como o samba duro em minha porta, o povo a rebolar. Não era um evento marcado com dias de antecedência pela internet. Aí eu ia pro palco do rock, eu gostava de coisas como Jethro Tull. 

E gosto disso tudo, ouço de tudo um pouco. Mas minha memória afetiva está povoada dessas coisas cantadas na minha língua. E agora, ouço muito, me apego a tudo que me lembra infância. 

É engraçado também algumas permanências. Tem uma música evangélica que eu lembro demais, todas as vezes que eu vejo um livro de Monteiro Lobato (sim, eu li tudo quando era adolescente. E tenho tudo, mesmo que hoje eu tenha uma outra visão sobre a obra do tal senhor):

quero lembrar, cristo ama você
apesar dos difíceis momentos
e de todas as situações
e hoje é tempo de olhar e ver
tudo novo de tornar
novo horizonte enxergar

Eu lembro dessa música porque, na época, ela tocava muito no rádio. E eu cantarolava. Eu abro o livro, começo a leitura de Reinações de Narizinho e essa música vem, como cheiro. E essas todas que escrevi e todas as outras, e mesmo aquelas que não são baianas mas foram cantadas por cantoras como Simone Moreno, Margareth Menezes, Alobened Airam e outras tantas. 

Música tem dessas coisas. Cheiro, som, visão, corpo. Tudo junto. Misturado. É por isso que é tão gostoso.

E, logo hoje, comentando sobre música com as moças no trabalho. Sobre o que seria axé, funk e pagode. E em como a gente definitivamente não ouve nada disso no rádio. O que passa no rádio não é música. É alguma coisa que chamada "empreendimento comercial com algumas notas no meio". Claro que, entre trinta ECANM, a gente ouve uma música e outra. Nessa proporção.

Segunda-feira, Maio 07, 2012

Domingo, Abril 29, 2012

Chica Xavier.

Sabe desses livros que a gente encontra garimpando para pesquisas acadêmicas? 
O livro Damas Negras: Sucesso, lutas, discriminação, de Sandra Almada, pela Editora Mauad, ano 1995, foi um deles. Fiquei sabendo do livro por outro livro igualmente belo, A Negação do Brasil, de Joel Zito Araújo, Editora SENAC, ano 2004. 

Em tempos de Spike Lee no Brasil para falar de nossos/as negros/as, Joel Zito Araújo é um dos convidados para este documentário, assim como Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal. Eu teria uma lista de negros e negras que deveriam ser entrevistados por Spike Lee. Todo mundo tem uma lista dessas (A primeira desembargadora negra do Brasil, Luislinda Valois, com certeza, é uma das mulheres que eu gostaria de ver entrevistada. A gente quase não a vê na televisão brasileira. Eu tenho a sorte de, morando em Salvador, conseguir um material maior falando sobre ela). Como eu acredito que ele esteja falando sobre ascensão, não sei se vai perguntar a alguém de baixa renda o que acha do racismo e do preconceito no Brasil. Seria, no mínimo, um bom registro dessas tensões todas. 

Seria ótimo que alguém também perguntasse, ao jornal Folha de São Paulo, sobre seus editorais sem sentido e sua campanha aberta contra cotas nas universidades públicas brasileiras.

Ops, eu estou aqui para falar do livro de Sandra Almada. Preciso transcrever parte do livro aqui. Entrevista com Chica Xavier, atriz negra baiana candomblecista, que completou em fevereiro de 2012, 80 anos. Todas as entrevistas contém passagens muito boas de serem transcritas, mas eu reproduzo aqui uma parte em que Chica fala sobre questões da cidade do Salvador no começo do século vinte. Acho ótimo poder conhecer registros como esse, que falam um pouco como a ocupação de uma cidade vai se transformando pouco a pouco, quanto mais a exploração e a colonização vai se instalando. Sou uma aficcionada pela questão geográfica no Brasil, sobretudo nas grandes cidades, embora não fale muito sobre isso neste blog. Por isso é que gosto tanto do livro de Maria Nilza dos Santos, chamado Nem para todos é a cidade: segregação urbana e racial em São Paulo. Já falei dele aqui algumas vezes. 

Leio bastante coisa sobre a ocupação da cidade de São Paulo e seu "novo" pedaço na Zona Sul, dos migrantes nordestinos. Chamo de segunda leva migratória nordestina, ocorrida na década de 80, visto que a primeira, acredito, tenha sido por volta das décadas de 40-50 (deveria ser mais disciplinada e andar com um gravadorzinho para ter registrado as histórias de um casal negro morador na região do Vale do Ribeira, contando-me sobre a São Paulo da década de 50. Ela, jovem negra paulistana, apaixonou-se por um homem negro cearense, e seus pais tinham muito medo do relacionamento, visto que a ideia que se tinha era que os nordestinos, todos eles, andavam armados com uma grande faca, também conhecida como "peixeira". Ele, por sua vez, contou-me que veio para São Paulo porque, em sua cidade natal, campanhas organizadas e subsidiadas pela prefeitura - que incluíam chamadas com carros de som pela cidade, falando sobre as maravilhas da capital paulista - fê-lo crer, assim como grande parte de sua geração, que São Paulo era a terra das oportunidades. Não vir à São Paulo era o mesmo que não querer "melhorar de vida", o mesmo que perder uma grande chance). 

É possível notar que São Paulo possui uma porção sul significativamente maior que as outras zonas, justamente por conta do alargamento dessa zona da cidade, em detrimento do grande número de migrantes que para cá vieram, instalando-se nas áreas consideradas de mananciais da cidade. Grajaú, Parelheiros e Marsilac são os distritos paulistas que colaboraram para a mudança no mapa da capital paulista e no alongamento da silhueta "Zona Sul".





Gosto especialmente desse trecho da entrevista, porque Chica não estava falando diretamente sobre a geografia de Salvador, quando começa a contar-nos parte de sua história. Ela está falando sobre religião e, quando vemos, estamos aprendendo sobre como a cidade foi paulatinamente ocupada por seus colonizadores e, assim, temos a certeza que os bairros onde hoje instalam-se a elite branca da cidade eram, em sua maioria, bairros negros (assim como Liberdade e Bixiga, em São Paulo. Não é sintomático que o Bixiga tenha uma rua chamada 13 de maio?).

Sandra Almada: A senhora nunca pensou em publicar um livro contando sua vivência dentro da cultura afro-brasileira?


Chica Xavier: Eu tenho muitos livros da religião de candomblé e outros de cultura negra. Tenho um dicionário em iorubá e um dia ainda, se diminuir a minha preguiça, vou escrever sobre os orixás, os "encantados", os caboclos, do meu ponto de vista, aquilo que eu sinto... Existe um "encantado", dentro do candomblé, que é mais da linha de caboclo, que é uma coincidência muito grande. Eu estava guardando esta história para o meu livro, mas vou lhe contar. Nasci num lugar, em Salvador, que não existe mais. Era uma roça de candomblé. Embora minha mãe não soubesse nada de candomblé, não tivesse nenhum passado ligado a candomblé - porque ela foi educada por padrinhos brancos, ricos, que a criaram dentro de todas as leis da Igreja católica -, quando ela resolveu sair, se libertar desses padrinhos e ir trabalhar fora, ela conheceu o Anísio Teixeira, trabalhou com ele, e arrumou um namorado que foi o meu pai. Quando ficou grávida e viu que se tornaria mãe solteira, fugiu de todo aquele ambiente e foi se esconder no mato para ter a filha, desenvolver a gestação e me esperar. Ela se escondeu num lugar chamado "Roça da Sabina", era nas Quintas da Barra, que hoje em dia é um bairro refinado, mas antes era uma roça de candomblé de mãe-de-santo que se chamava Sabina. Esse nome está até registrado nos livros de Edison Carneiro. Ela é falada, conhecida. Eu vim descobrir isso na época que fiz Magé Bassã (personagem da novela Tenda dos Milagres, exibida na Rede Globo em 1985), porque peguei o livro dele para saber um pouco  mais dos pais-de-santo e mães-de-santo da Bahia que eu não conhecia. Então, descobri, por coincidência, que eu tinha nascido nessa roça da Sabina [...]

Em tempo: Escrevi que moro em Salvador. Ia consertar, mas adorei o ato falho. 
Em tempo mais uma vez: Chica Xavier é casada desde 1956 com Clementino Kelé, ator negro. Orgulho demais de ser mulher preta baiana, como Chica Xavier! 


Girimunho.


Raul: O início, o fim e o meio.


Terça-feira, Abril 24, 2012

Pessoas.


Algumas senhorinhas novas chegaram à natação. Uma delas, toda serelepe, tem quase oitenta anos. É uma mulher branca, divertida e me lembra a minha segunda mãe, pelo número de impropriedades que fala no meio da aula de hidroginástica. Ela contou-me que, na primeira vez em que o professor pediu-lhe para abrir as pernas, ela lembrou-se do marido e de sua viuvez e confessou-lhe que fazia tempo que não fazia isso. Mas agora, disse-me, os exercícios estão ajudando-lhe a ter mais equilíbrio.

Depois segredou-me que algumas moças da aula não gostam de sua brincadeiras. Foram fazer reclamações à esposa do professor. Ela mesma, a esposa, não ligava muito. Preocupou-se mais porque as mocinhas estavam falando. Ela me diz, num misto de tristeza e irritação:

O que é que essas moças querem, minha filha? Eu já vi de tudo nessa vida... e eu quero ser feliz. Conheci muita gente que me ensinou a graça da vida. Trabalhei muitos anos penteando peruca de Dercy Gonçalves. Você acha mesmo que eu vou me importar com o que estão pensando de mim aqui? Fui muito feliz com meu marido, quero homem de outras não. Gozei muito, agora só quero me divertir e lembrar dos bons tempos. 

Dessas pessoas que eu encontro pela vida.

Segunda-feira, Abril 16, 2012

Belezas.



Na aula em que frequento este semestre na faculdade, há várias mulheres. Meu olhar fixa-se numa moça muito bonita, que está sempre muito cheirosa e bem-arrumada.
Ela tem a pele bem escura, cabelos curtos e pretos, assim como seus olhos. Talvez para muitas pessoas ela passe despercebido, visto que a beleza de uma mulher negra não é aquela que mais apreciamos em nossa sociedade.
Fico pensando no que me faz ver a mulher negra, aquela de pele mais escura, como a mais bonita dentre todas as mulheres que frequentam a aula. Quero ser como ela. Linda, sorridente, educada, bonita. Quero ter sua pele, seu cabelo e olhos. E fico pensando que o mesmo sentem as meninas negras quando olham para uma menina branca, certa de que nunca conseguirão ter seus olhos, seu cabelo, sua pele.
Sim, minha pele não é a mais escura de todas. Mas olho para pessoas de pele escura - homens e mulheres - e acho a coisa mais linda do mundo. Sem exceção.
Não tenho precisão de como começou essa paixão reverse. Mas tenho em casa bons exemplos: tenho fotografias de homens e mulheres negras espalhadas pelos quatro cantos da casa, fotos onde eles e elas não estão esfomeadas, doentes, sujas e feias. Há alguns anos, meus sonhos eróticos também são povoados por homens negros.
Fui construindo esse gosto e essa beleza é para mim tão visível que perguntei à moça: Cansa de ser bonita, não? Ela, muito lindamente, sorriu.
Não era mesmo pra responder.

Sábado, Abril 14, 2012

Sobre dançar (ou sobre mim mesma).

O professor me pega. Ele fala pro moço que dança comigo que eu não devo conduzir nada, que estou ali para ser conduzida. Olho para ele com ímpetos de voar no pescoço e esganá-lo, afinal, ele me conhece há apenas um mês e acha mesmo que pode dizer o que eu posso fazer ou o que podem fazer comigo.

Respiro fundo, mas percebo que, quando danço com ele, ele precisa de muito esforço para me levar. Eu não deixo, eu não me deixo ser levada. Ele me diz para sentir a música, sentir meu corpo. E eu, que pensava ser muito "resolvida" com tudo isso, descubro que preciso aprender um pouco mais.

Mais sobre mim. Entrar em uma aula de dança, definitivamente, não é apenas para aprender a dançar. Nada é só o que parece. Quando eu pensei em fazer dança, nem era nessa aula. Mas, por conta de meu calendário estes meses, encarei dança de salão, para não ter que esperar quando teria tempo para dança contemporânea, que é a a aula que eu quero fazer. Nunca pensei que ia descobrir tanto sobre mim mesma,  precisamente, nessa aula.

O moço que me acompanha na aula é um docinho (vocês sabem o que significa para uma mulher negra quando ela diz que o homem é um docinho? Ok, pesquisem sobre isso). O professor pede para ele me conduzir, mas ele fica sem jeito, acho que o meu jeitão de "nem pense nisso", deixa ele assim, receoso. Por algumas vezes, quando o professor dá o comando para ele, eu executo. Tudo isso porque ser conduzida é uma coisa estranha pra mim.

Não tem como. Eu vou me mostrando na aula inteira, em como não gosto ou gosto disso e daquilo.
Mas é só uma aula, e eram pra ser só dois meses nessa aula.

Não era para tanto. Era só aprender a dançar, o professor fala para eu não tirar os olhos dele e eu, que acho lindo encarar as pessoas de frente, fico sem jeito de olhar nos olhos dele o tempo inteiro, me atrapalho com os pés. Ele fica numa boa, faz isso todos os dias com muitas pessoas. Olhar nos olhos é parte do trabalho dele. Por isso, numa aula de dança você não aprende só a dançar.

Eu sempre acho massa começar a aprender uma coisa nova. Penso sempre nas crianças e em como elas encaram novas experiências todos os dias e, estar numa posição de aprendiz me dá mais sensibilidade, para entender como elas se sentem, como se sente qualquer pessoa que está aprendendo. Confesso que, com o passar do tempo, utilizando essa técnica para me tornar mais sensível, acabei achando que já sabia tudo sobre como ser aprendiz. Mas, mais uma vez, me peguei descobrindo como ainda sei muito pouco sobre mim mesma em muitos aspectos.

Saio da aula cheia de ideias. Em como é bom poder conhecer meu corpo e como o que eu penso "dita" o como do meu corpo. Ainda não sei muito sobre isso, estou experimentando. E entendendo como a gente, mesmo sabendo que não sabe tudo, endurece tanto e chega num ponto que acha que o que sabemos é suficiente. Bobagem. Nunca vai ser suficiente. Há sempre alguma coisa para aprender que vale muito a pena. E que muda muito o modo como nos vemos e vemos as outras pessoas.


Sexta-feira, Abril 06, 2012

Eu e mainha, mainha e eu.







Histórias (de amor).

Eu faço natação na mesma academia fazem cinco anos. Parece pouca coisa, mas muito aconteceu desde que entrei. É uma academia pequena, que fica num bairro próximo ao meu, e os donos e donas são as mesmas que gerenciam o negócio. Coisa de família. O professor que me dá aula é casado com a filha do dono. Na verdade, ela é mais dona que o pai, junto com as duas irmãs.

Quando eu entrei lá, eles ainda namoravam. Depois, ficaram noivos. Casaram faz mais ou menos dois anos e meio. Acompanhei toda essa trajetória, e acompanhei também a gravidez da moça, complicada. Agora, um filhotinho nasceu, todo sorrisos e alegria. Tem quase dois anos e não para. Me diverte o tempo inteiro enquanto espero a hora de nadar.

Fico meio boba e emocionada com meu professor contando as histórias e peripécias de seu filho. A última foi quando ele comeu um caramujo. Moram numa casa com quintal grande e, sempre que possível, lá está ele sujando-se de barro e comendo coisas que mexem e saem da terra. O pai ri, me contando que ele nunca para, me contando as técnicas que eles estão desenvolvendo para acalmá-lo quando ele está elétrico demais, tudo em vão. Ouço embevecida, ouço feliz. Ele conversa muito. Comigo e com todas. Brinca, faz gracinha, sabe o jeito certo de falar as coisas e não parecer demais ou de menos.

Sempre achei fantástico o modo como a mulher dele lidou com as pessoas no trabalho, com ele. Nesses cinco anos, nunca vi uma briga sequer dos dois na frente de todo mundo, nem fumaça de briga, nada. Ela, ela mesma, nem sabe nadar. Não quer conta. Administra muito bem as coisas da academia, mas nunca entrou uma só vez na água nesses cinco anos que estou lá, e olha que eu vou em todos os horários possíveis.

Nunca consegui mudar de academia. Pode não ser a "melhor" do bairro em infra-estrutura, mas é a única, me contam meus colegas, em que eles se sentem bem. Eu nem arrisco em comparar. Talvez por ser gerenciada pela família toda, é pequena, mas aconchegante. Me sinto bem lá e, vez por outra, faço-os rirem quando digo que vou lá para bater papo e não para fazer exercício, porque pagar natação sai mais barato que pagar sessão terapêutica. Somos uma família, mesmo que seja só por algumas horas durante a semana. Minhas colegas de natação (colegas também) entraram no espírito da coisa e passamos a aula dando risadas. Claro que tem os mais sérios, mas esses não importunamos. O professor também sabe conduzir de modo que pessoas "sérias" não se sintam afetadas (prova é que elas continuam indo no mesmo horário), e que a gente continue dando muitas risadas.

Destes colegas de natação, há um que tinha 13 anos quando eu entrei. O rapaz, agora com 18 anos, me assusta. Cresceu demais, e cruza a piscina em menos de um minuto (ou será meio?) facilmente. Constantemente olho para ele e dou risada, lembrando quando ele era só um molequinho, quase um girino. Ele diz lembrar-se de mim também. Disse que sabe as cores de todos os maiôs que usei. Me divirto. Engraçadinho.

Conheço também a mãe do professor. Uma senhora apaixonante. Conversamos por horas quando fazemos hidroginástica juntas. Ela é migrante de uma cidade do interior do Ceará. Faz tempo que não a vejo.

Fico feliz de poder conhecê-los. O casal. E não estou falando de traição, brigas e tristezas. Desentendimentos. Acho que tem tudo isso ali. Mas, acima de tudo, parecem duas pessoas que sabem que querem muito ficar juntas, aconteça o que acontecer. Acho que é isso que faz deles personagens de uma história de amor.



Segunda-feira, Março 19, 2012

Domingo, Março 18, 2012

Sábado, Março 17, 2012

Cenas.



Cena 01:

Rio de Janeiro, Tijuca. Quero trocar um dinheiro, chego à banca. Morando em São Paulo há alguns anos, tenho receio de pedir assim, de cara, "troca pra mim?". Dois homens brancos de meia-idade conversando, um deles é o dono da banca de revista. Pergunto se tem cartão postal. Diz que não e me diz onde tem. Faço cara de preguiça e digo que é longe, do outro lado da rua. Digo que quero trocar o dinheiro. Ele diz, mas isso é fácil. E me estende a mão, pede o dinheiro. O outro moço branco está com cara de simpático.

Cena 02:

São Paulo, Pinheiros. Depois de um dia cheio e trens que não passavam nunca, volto para casa. As pessoas conversam no celular, contam da demora do trem, se irritam. Eu não estou tão chateada, as cinco cervejas com as amigas me deixaram mais falante e sorridente. Mas, tenho sono. Um rapaz entra no trem para vender balas. Ele está irritado, como as pessoas. Pragueja o tempo inteiro porque não conseguiu vender nada nos últimos três vagões que entrou. Implora que alguém compre. Diz que não está pedindo, diz que está vendendo e que normalmente as pessoas enfiam a mão no bolso e pagam com gosto o triplo do valor, pela mesma bala no shopping, mas se recusam a comprar e ajudá-lo. Silêncio no trem. Ele também fica em silêncio. Depois volta, a mesma conversa. As pessoas incomodam-se e uma moça pede algumas balas. Ele diz até que enfim e aí, todo o estresse represado vira uma gargalhada abafada. Mas o moço, esse continua irritado.
Quando desço, ouço a moça que estava ao meu lado contar para o segurança do trem que o moço vendia balas. Segundo a lei do trem, isso não é permitido.

Grandes cidades. 

Terça-feira, Março 13, 2012

A noite não adormece nos olhos das mulheres.

Conceição Evaristo
(Em memória de Beatriz Nascimento)

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
do nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.


E o Cadernos Negros volume 34 - contos afro-brasileiros já está por aí, nos corações e ruas.
Vc pode encontrar em São Paulo na Casa da Preta, Rua Inácio Pereira da Rocha, 293. Tel.: (11) 3031-2374.

Segunda-feira, Março 12, 2012

Quinta-feira, Março 08, 2012

Relacionamentos (ou o contrário).

Eu estou de férias de mim mesma, escrevendo menos e fazendo coisas mais simples. Mas ainda viva e pondo intensidade no regar das plantas, conversar com as vizinhas, abraçar uma criança. Tive sonhos com palavras, elas me perseguem também dormindo.
Lavando pratos, pensei numa poesia mais ou menos assim:


Ela faz ele encontrar com ele mesmo todas as vezes que conversam.
Olha fundo em seus olhos, lhe dá paz. Segurança.
Ele troca o ralo do banheiro e também o chuveiro (nas raras vezes em que ela o queima, alternando entre inverno e verão o tempo inteiro). 
Perfeito.
Não fosse ele querer, além de tudo, roubar-lhe a alma.

Depois pensei, não, não, estou aqui reafirmando os estereótipos. A gente estuda tanto para descobrir que tudo que nossa vó diz tem muita razão, muita ciência. E o que essas pessoas sábias sabem desde que nascem é: ficar junto é a melhor coisa que temos a fazer.
Mais pessoas muito importantes chegando em minha vida. Estou bem feliz para elas, de dentes abertos e alma lavada. Há velhas pessoas, há pessoas que eu amo, muito embora tudo me diga que eu não devesse fazer isso comigo mesma. Não estou preocupada com isso.
Estou preocupada em sentir. Sentimentos não são motivos, são sentimentos. Não justificam nada e não querem responder nada, só querem existir. E eu os deixo todos saírem para fora, amor, ódio, alegria, tristeza.


Quarta-feira, Março 07, 2012

Domingo, Março 04, 2012

Sabedoria Materna.

Quando mainha ouviu, no filme Histórias Cruzadas, a mãe da jornalista Skeeter falar que, às vezes, a coragem pulava uma geração, disse um é mesmo, no meio da sessão. 
Não acho bem que, no caso de nossa família, a coragem tenha pulado uma geração. Talvez tenha mais a ver com falta de oportunidades. Ontem, conversando com mainha, perguntei à ela o que fazia com que, mesmo não tendo tido acesso à universidade, achasse que para suas filhas, esse lugar era tão importante. Fiquei com isso na cabeça quando voltei de uma visita à casa da senhora que me acolheu aqui em São Paulo há quase oito anos. Agora, há duas meninas negras com mais ou menos a mesma idade que eu tinha quando fui mora com ela. Uma de Minas Gerais, outra da Bahia. Elas trabalham o dia inteiro, não sobra muito tempo para estudar. Na verdade, não sobra muito tempo nem para sonhar. Acordam às cinco da manhã e chegam em casa às nove da noite. 
Mainha então me contou coisas que eu já sabia, outras não. Disse que foi criada mais com a família de seu pai, que valorizava a educação das mulheres, mesmo no interior da BA, há quase cinquenta anos atrás. Uma família de negros e indígenas, que tinham alguns médicos e advogados, muitas professoras. Ela sempre falou de sua tia Amália, que falava da importância de estudar. Essa minha tia-avó nunca casou. A gente vai visitar a moça sempre que pode, ela mora num lugar lindo, uma casinha no meio de um mundo de terra, que ainda precisa de gerador para ver-se o noticiário e com um banheiro muito simples. Uma fonte de água limpa e animais vivendo soltos, o que, à primeira vista, pode assustar muito (tomar carreira de boi e picada de galo, na hora, é emocionante, mas, depois, vira graça e lembrança boa).
Uma delícia de lugar. Lembro que a primeira vez que o namorado de mainha foi lá e viu um monte de mangas no chão, caídas, ficou louco. Queria botar tudo dentro de um saco e trazer para casa. Ele, que sempre morou na "cidade", achava tudo aquilo uma belezura e um desperdicio! Até os bois e as vacas, os cavalos e as galinhas que por ali andavam devem ter rido dele.  
Mainha foi criada nesse lugar. Depois, veio para a cidade. Mas a vontade de estudar nunca passou. Formou-se em Nível Médio depois de casada, e sempre quis fazer faculdade de Comunicação Social (que nem sei se ainda existe!). Meu pai não tinha terminado o Ensino Fundamental. Todas as vezes que a gente se estabelecia num lugar, lá ia mainha procurar vaga para ele terminar de estudar. Ela mesma terminou o segundo grau em uma cidade diferente da que tinha começado. Lembro de algumas fotos dela com a farda do segundo grau, sorrindo no meio de suas colegas. Mainha estava trabalhando e na época, não tínhamos celular para nos comunicar. 
No dia de inscrição para o vestibular, fiquei numa fila de mais de nove horas para conseguir o tal papel que me dava a garantia da inscrição. Cheguei em casa quase meia-noite e isso para mim que, à época, tinha dezesseis anos, era bastante tarde. Estava sozinha, com fome e com medo. Não entendia ainda tanto esforço e nenhuma ajuda de meu pai para ir me buscar no ponto de ônibus. 
Lembro de tudo, até da roupa que vestia! Um vestido rosa com florzinhas pretas. Não gostei da experiência, porque me senti só. Fiz o tal vestibular, passei. Comecei a estudar. Minha mãe ajudou-me muito para que eu não trabalhasse em empregos como vendedora de loja ou coisa parecida enquanto estudava. Na verdade, ela nunca cobrou que eu trabalhasse enquanto estudava. Nunca. Isso nunca foi discutido em minha casa. Eu estudava, isso era um trabalho, ponto. 
Eu perguntei à ela como ela teve esse tino, mesmo tendo poucas experiências escolares. Disse que pensava à frente, tendo visto a experiência das pessoas da família de seu pai, que estudaram. Isso é ancestralidade.  
O esforço feito por mim e por mainha já aparece. Fui visitar as moças e senti-me mal por trabalhar apenas quatro horas por dia. Quando elas chegaram do trabalho, eu já estava cansada de não fazer nada. 
Amo meu trabalho, mas não quero morrer de trabalhar. Alíás, para amar meu trabalho, eu preciso continuar assim, trabalhando pouco. Qualquer dia eu falo mais disso.
No outro dia, tive que acordar mais cedo para ir ao trabalho. Era o dia de entregar minha dissertação de mestrado e eu peguei duas lotações para trabalhar. Comecei a chorar, dentro da lotação. Mas ninguém me olhava, eu sempre choro em trens e lotações quando tenho vontade, quase nunca as pessoas te olham dentro dos olhos por aqui, acho que até percebem que você está chorando, mas nunca tem certeza. Chorei pensando que há menos de oito anos passava sérias necessidades, mas, ainda assim, peguei o dinheiro que eu tinha, comprei uma passagem para Salvador, de ônibus, para reunir referências, para tentar uma bolsa para mestrado (curso que só comecei a fazer 06 anos depois que cheguei aqui). 
Era isso mesmo que eu queria que mainha explicasse, porque que eu fazia isso, o que é que me movia. Ela me contou tudo isso que eu contei e ainda disse que era tudo que ela sempre quis para ela. 
Por isso, eu sou o que sou porque vi com os olhos de mainha. 

Loo Nascimento.

Quer ver beleza?
Aqui.

Aproveito e copio uma das fotos aqui.


Tão forte, tão perto.


Viola Davis está no elenco. Linda e ótima atriz, demais.

Sábado, Março 03, 2012

Filhota.



Eu gosto assim, verde com letras prateadas. Fiquei olhando, olhando. Mas não abri, ia achar muitos erros, a gente sempre acha. Mas feliz demais, bum-bum baticum-bum!
Mas mais feliz ainda com amigos e amigas perto, sorrindo, escrevendo coisas lindas para mim. Chorei, chorei.
E mais não escrevo. Vou ali fazer tudo que não fiz por alguns meses, cuidando que estava da gestação da moça.
Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí...

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012

VI Simpósio Nacional de História Cultural.

Quer ir?
Vem aqui.

Histórias Cruzadas.


Mais mainha.

Uma das coisas mais legais do filme é quando o cara afirma pra moça:

Você nunca namorou, dá pra perceber.

E ela

Porque?

Ele

Porque você é sincera demais.

O resto? Bem, o resto é coisa pra "inglês ver". Fico com vontade de escrever muito sobre esse filme, mas quando as letrinhas sobem e vejo o nome de Viola Davis e Octavia Spencer não estarem em destaque no começo da lista, eu desisto.

Isso acontecia na época de dona Ruth de Souza (leia o livro de Joel Zito de Araújo, A Negação do Brasil) e acontece agora, com atores e atrizes negras, na televisão brasileira.

Foi ele.




Sem Internet.


Passei 04 dias sem internet. Não saí de casa pensando em fazer isso, mas, no primeiro dia de estadia em minha casa, achei que poderia fazer isso facilmente e não me opus. Não me preocupei em checar emails nem em ver a quantas andavam as menções no twitter. Não fui ao Facebook, muito embora quando, ao tirarem uma foto minha, ter pensado que lá seria o lugar certo de postá-la. Me diverti horrores. Como sempre me divirto, com internet também.

Minha mãe odeia internet. Simplesmente elabora uma nova frase e um novo motivo para odiá-la cada vez que eu vou para casa. Apesar de fazermos muitos serviços pela Internet – não ela, mas eu, para ela – não vê sentido nenhum no notebook que ganhou e conexão rápida para acessar a tal rede. Quer aprender a usar, mas não a Internet, enfim... A questão é que ela acha – e com razão – é que nós, todos nós, passamos bem menos tempo estudando ou pesquisando. Na verdade, ela percebe que passamos a maior parte do tempo batendo papo e vendo a vida dos outros, das outras. 

Ela não está errada. Ela quer bater papo ao vivo. Ela fala para que eu chame as pessoas para irem lá em casa. Para eu ir à casa delas. Muitas discussões bobas que travei com amigas e conhecidas que contei a ela, começou pela internet. Ela não vê sentido, então, em ter uma página na Internet que possa remeter a algum tipo de problema de relacionamento. Eu evito de contar à ela, mas, ainda assim, há muitos deles e eu não consigo deixar de contar, porque sim, somos do tempo que contamos TUDO uma à outra.

Quando começo a contar alguma história, ela vem com a clássica pergunta: “Mas como você ficou sabendo disso”. Se eu falo que foi pelo Orkut, Facebook ou Twitter, ela ouve e emenda: “Para que alguém precisa de uma página com informações se vai acabar brigando por conta dela? Porque as pessoas escrevem suas vidas ali? Você realmente leva a sério o que as pessoas escrevem ali? Não é só aparência? Você mesmo não escreveu que está viúva na sua página?”. Ela não se convence, e acho ainda que ela tem mais razão do que eu. Não falo muito, enfim.

Ela acha que o que todas essas páginas fazem de "bom", não supera o que fazem de "ruim". Eu concordo. Encontrar alguém de mil anos atrás não é sempre a melhor coisa do mundo. Há pessoas que passam, ponto. Ponto mesmo. Não fico me remoendo com isso. Conheço pessoas que nunca passarão. E, por sinal, elas estão comigo até hoje. Sem precisar de Facebook, nem nada parecido. Além do que, a simples ideia de que não precisamos mais encontrar as pessoas para resolver os problemas deixa mainha em polvorosa. Quando conto que resolvi alguma coisa pelo telefone, ela quase tem uma síncope. Mas, hoje ela entende que moro longe demais de pessoas que amo (e odeio), que não dá para esperar. Ainda assim ela diz, se é possível segurar raiva, espere para quando vê-las pessoalmente.

A gente precisava descobrir se o cinema estava funcionando no feriado, e a coisa mais engraçada que ela disse foi: "Depois que inventaram o telefone, a gente nem precisa sair de casa...". Achei lindo. Eu amo essa moça.  

Chegando em casa, comi lentamente meu vatapá com o feijão tropeiro tão carinhosamente preparado por mainha. Depois de ter lido as notícias do dia num jornal impresso, vim aqui postar esse texto (escrito enquanto voava até minha casa) para vocês.

Não havia nada de muito importante nos emails. Nada que não pudesse esperar mais uma semana (ou duas). Então, eu sorri. Lembrei de mainha. Que só queria me mostrar sua orquídea.



Quarta-feira, Fevereiro 15, 2012

VII CONGRESSO BRASILEIRO DE PESQUISADORES/AS NEGROS/S


Evento: VII Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) (COPENE 2012)
Local: será sediado na cidade de Florianópolis - SC

Tema: “Os Desafios da Luta Antirracista no Século XXI”

Homenageados: Vicente Francisco do Espírito Santo (in memoriam) e os professores Abdias do Nascimento (in memoriam), Lélia Gonzalez (in memoriam) e Kabengele Munanga

Quando: 16 a 20 de julho de 2012

Site: www.abpn.org.br/copene

Objetivo Geral do Congresso

O objetivo geral do congresso é reunir pesquisadores(as) negros(as) e discutir, apresentar, ampliar e avaliar as ações e estratégias de combate ao racismo, as políticas públicas direcionadas à população negra brasileira e as produções científico-acadêmicas elaboradas nas últimas décadas. Deste modo, o debate e a divulgação dos trabalhos realizados têm o propósito de enriquecer e ampliar possibilidades de reflexão e produção de saberes. Nesse sentido, a presente edição do Congresso dá continuidade aos diálogos inaugurados nas edições anteriores por meio do fomento às interações entre pesquisadores(as) e instituições de pesquisas nacionais e internacionais, de modo a ampliar os debates e proposições na luta antirracista.


Normas para envio de propostas de simpósios temáticos

Datas Importantes/Cronograma: 
17/01 a 15/02 - envio de propostas de simpósios temáticos - inscrições abertas!!!!!!!

29/02/2012 - divulgação dos resultados.

01/03 a 02/04/2012 - inscrições nos simpósios temáticos.

15/04 a 20/04/2012 – envio de carta aceite de participação nos simpósios.

01/05 a 31/05/2012 - inscrições para ouvintes.

16 a 20/07/2012 – COPENE.


Eixos Temáticos:

1. Pan-africanismo nas Américas
2. Identidades e identificações
3. Saúde da população negra
4. Diversidade, relações de gênero e sexualidade
5. Direito e justiça
6. Educação Básica
7. Artes e linguagens
8. Literaturas e diásporas
9. Memória e patrimônio
10. Comunidades tradicionais
11. África: cultura e história
12. História das diásporas
13. Comunicação, mídia e racismo
14. Racismo e questões urbanas
15. Ciências e tecnologia
16. Branquidade/Branquitude
17. Filosofia em África e diáspora
18. Desenvolvimento econômico e discriminação
19. Religiosidades
20. Juventudes
21. Educação superior
22. Raça e racismo
23. Políticas públicas e questões raciais
24. Corpo e Movimento

Promoção:

Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as)


Realização:

Universidade do Estado de Santa Catarina
Universidade Federal de Santa Catarina
Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as
Instituto Luiza Mahin


Contato/dúvidas sobre o evento:


Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB)
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)
Telefone: (48)3321-8525/8532


E-mail: viicopene@gmail.com

Um Simples Plano.


Turbanista.

Passando rápido para deixar uma dica tudo que achei dia desses por aí. Por aí, não, foi assim: no twitter, conheci uma moça do Rio chamada Élida Aquino. Ela me apresentou o Blog Favela Fina e lá, conheci o tumblr Turbanista.
Demais, demais. Cheio de vidas e cores, como eu, como a vida e a cor.




Terça-feira, Fevereiro 14, 2012

Bloco Afro Ilu Oba de Min, 17 de fevereiro, 19:30.


Tão perto, tão longe.

Estou a um tempo sem escrever aqui, mas continuo escrevendo por aí. Acabei de fazer um Facebook e, apesar de não achar a melhor coisa do mundo, aquela coisa te toma por algum tempo. Me prendo muito pelas imagens que tem ali, gosto de compartilhar textos e montar textos e fotos curtas, mas é só isso.
Achei o Facebook bem mais impessoal que o orkut. Não sei porque, mas não consigo estabelecer uma relação além disso que falei: escrever algo sobre coisas que me interessam e compartilhar. A cada dia que passa, tenho menos vontade de falar da minha vida. Pelo menos ali.
E aqui também.

Passei a greve inteira de Salvador muito tensa, por exemplo. Mas não pareceu. Não escrevi muito sobre isso. Algumas coisas me entristeciam, como pessoas me perguntando se o Carnaval ia acontecer ou não. Isso não era a coisa mais importante para mim, eu ficava pensando nas pequenas vendas de meu bairro sendo assaltadas por outras pessoas, com menos condições ainda. Ficava pensando se isso não aconteceria sempre e, agora, acabou virando "manchete" em jornal grande.

Se o Carnaval não acontecesse, se menos pessoas fossem para Salvador, tanto melhor (talvez). Quem sabe assim a gente pudesse curtir mais a nossa cidade sem precisar ter que ser cortês e gentil com os/as turistas que vem do mundo inteiro, passam trinta dias e querem sugar toda a nossa energia. Não quero entrar em detalhes sobre isso, é um assunto extenso e eu não quero falar sobre isso nem incitar nenhuma discussão. Só quero dizer, novamente, que eu estava completamente despreocupada se o Carnaval ia acontecer ou não.

Estou escrevendo todos os dias, essa é a minha condição agora. Sinto-me completamente tomada pelas palavras e elas me assaltam o tempo inteiro, dormindo, acordada, trabalhando, estudando. Estou feliz e excitada com o que tenho feito, onde eu tenho chegado. Há alguns dias, pelo Facebook, uma professora da Universidade onde me graduei disse estar muito orgulhosa de mim. Não consigo pensar nisso sem me emocionar demais. Ela foi uma das mulheres responsáveis por fazer-me sentir importante, bonita, inteligente. Ouvir isso assim, depois de um oi tímido, foi algo que eu realmente não esperava.

Todos os anos, quando começa o ano, eu tenho tantas surpresas com as crianças. Uma semana e já tantas histórias. Uma dessas crianças me tomou completamente: um menino negro de cinco anos que fala comigo como se me conhecesse há anos. Vejo nele tanta sabedoria que no primeiro dia que nos conhecemos, eu chorei sem saber o motivo. Do alto dos seus cinco anos, eu o vejo rei: senhor de sua própria vida, seguro de si e sem medo. Mesmo com todas as coisas que o assustam. Mesmo sendo tão frágil e sensível.

Perguntei, no quarto dia de aula

Você gosta de vir à escola?

E ele

Gosto, porque gosto de você.

Por essas coisas que eu (ainda) acho que não estou louca e o que eu preciso é muito pouco: estar junto, fazer junto. Ficar junto (se possível, abraçadinho).

Ainda no meio de tudo isso, histórias de amor.
Mas isso é outra coisa.
Como diz minha amiga Carol Garcia, o amor são umas pessoas.

Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012

Terça-feira, Janeiro 31, 2012

O Jardim de Ana.


Fui visitar umas amigas e ganhei uma plantinha de presente. Emocionada e boba, mas acho que na hora não dei a perceber.
Ana tem um jardim em sua casa. Plantas e flores. Ela mesma, uma flor.

Com minha plantinha, enfrentei ônibus, trens, metrôs e lotações. As pessoas olhavam estranhando ver planta no meio do concreto. A planta também deve achar estranho tanto concreto.
Cheguei viva, ela também.
Ana me disse, "não perca seu tempo".
Não perderei, então.


Sábado, Janeiro 28, 2012

Desencontros.

Ela era escritora.
Ele, músico. 

Mas ele só leu algo que ela escreveu quando, certa vez, sua empresária pediu pra ele musicar um poema. Viu o nome da poetisa e quase se emocionou. Era um cantor, porém. Não poderia dar-se a emoções baratas.

Mas, naquele dia, ao dormir, ele agradeceu a ela por ser tão perfeita. 

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Melanina Carioca.


Algumas músicas ficam na hora.
Outras, depois.
Pra depois, beeem depois.
Ou nunca mais.