Você que me lê, me ajuda a nascer.

segunda-feira, julho 03, 2017

Meu amor é marisqueiro.

Meu amor é daqueles que cata marisco
Afunda a mão na lama preta, se suja e se confunde com o pretume da lama, o problema, a solução, a dor e a delícia

Enfia a mão mais um pouco, sente algo, algo se mexendo
É meu coração quase parando, mas ainda batendo

Meu amor é marisqueiro, meu amor é marisqueira
Acorda cedo pra assuntar a natureza alheia
Enfia a mão e braço inteiro, profundamente
No encanto e no rabo do teu olho
Na beleza que é não te ver sofrer
Ver teus dentes, carne, ver teu amargo sorriso
Que existe e segura a lágrima que nunca desce
De um pedaço teu que eu nunca vejo

Meu amor é daquele que leva pra casa marisco
Ostra, lambreta, sururu e siri
Leva o cansaço do dia, mas uma comida pra ti
Comida de alma, comida de vida
Leva a vontade de fazer tua tristeza um dia esquecida

Dormir intensamente depois do amor mariscado
Pra acordar cedo na certeza da cheia, do profundo, da lambreta, do pretume.
Do amor, da alma.
Do amor.

Teoria do amor, por Mainha Gal.

O gostar é côncavo, o amor é convexo

Aguardem.

sexta-feira, junho 30, 2017

Maya Angelou - E ainda resisto.


Betty e Coretta.



[fica batendo, parado, naquela estação]



E eu vou ficar aqui, no mesmo lugar
Parada, até te encontrar de novo
Enquanto o mundo gira

E eu vou ficar lá, no mesmo lugar
Caminhando, até te encontrar de novo, enquanto o mundo para.

quinta-feira, junho 29, 2017

Respiração.

Um passo, outro passo, paciência.
É como quando você ver o mar, você quer correr, mas aí para, para devagar ir sorvendo a delícia de olhar pra o azul e sentir por mais tempo a sensação da areia nos pés, afundar os pés na areia, aquela coisa irregular, é preciso equilíbrio para chegar até o mar, mas você não tem, nem sempre a gente tem, mas você vai e vai, olhando em frente, sempre em frente.
E quando olha pro lado, ou deitado lá na areia, ele está.
Um passo, outro passo [respira] paciência.



quarta-feira, junho 28, 2017

Moana.


Meu amor.


Um beijo na testa e seu corpo treme todo?
Diz minha amiga

se isso não é amor, nada mais é

Mas não foi pelo beijo na testa. Foi porque eu disse pra ela que eu disse a ele que eu

quero ele com todos os problemas que ele tem, até porque o que pode parecer problema, pra mim tudo bem. Que eu estou feliz por saber que gosto tanto dele assim - eu dizia isso sorrindo -, que é bom gostar, que eu quero ficar perto, que não importa a bagunça e a confusão, que eu quero, que agora eu quero, que eu sei querer, que antes eu não sabia, que eu quero agora porque não quis antes, porque tem tempo, porque eu sou feliz sentindo isso, porque nem sei explicar mas estou bem e eu quero e pela primeira vez eu quero, quero viver junto, ter uma vida, viver a dois, estar perto, chegar perto, dividir coisas, com ele eu quero, só com ele agora eu quero, eu quero.

De novo.

Passavam das 23h quando ele segurou a minha mão. Ele segurou ou fui eu quem segurei? Eu não sei. Mas eu sei que eu queria isso.
Estávamos ali, na entrada do metrô. Era noite, pouca gente na rua. Um homem e uma mulher juntos e parece "natural" segurar a mão do outro, sei lá se para mostrar que se está junto, para cuidar, para ficar perto, eu não sei direito. Mas, estávamos juntos? Eu não sei (mas eu sei que eu queria isso).
Ele envolveu minha mão na sua - ah, que mãos - e disse:

faz tanto tempo que eu não faço isso

E me deixou desconcertada. Quando eu fico assim eu falo de outra coisa, pergunto sobre como se faz para chegar na entrada do metrô, sei lá. Mas ele sempre fala algo, nunca deixa em branco, sempre preenche o momento com alguma frase, e eu sem jeito, toda cheia das palavras, nessas horas por vezes fico sem saber como fazer quando é alguém que me diz um carinho.

Nossas mãos dadas e eu sentia voar baixo pelo chão, segura por aquele fio de energia que nos unia assim, depois de tantos anos longe. Eu poderia parar ali e ficar só de mãos dadas com ele até acordar de novo. Sentamos no metrô e ele lembrou uma foto de beijo nossa num outro metrô, foto essa que nem existe mais. Muita coisa foi jogada fora depois de tudo. Muita coisa foi embora, inclusive o tempo. Muita coisa ficou, inclusive o frio na barriga quando ele encostou a cabeça no meu ombro. Eu estava desconcertada, mas ainda assim eu queria que ele repetisse a pergunta que me fez ainda no terminal de ônibus porque eu sabia que ele ia me dar um beijo, ele disse, olhando nos meus olhos

posso fazer uma coisa?

Mas eu de novo escorreguei, mudei de assunto e perguntei sobre o ônibus que a gente deveria tomar, ele não voltou a pergunta, porque não tinha como, ele notou que mudei de assunto, ele não sabia se deveria. Ele não perguntou mais, mas ao sair do metrô ele segurou de novo a minha mão e entrelaçou os dedos e de novo esfriou minha barriga por dentro, eu nem sei do beijo, só sabia que eu não queria que chegasse a hora de parar no próximo ponto, queria caminhar com ele toda a noite só pra segurar na sua mão por mais tempo, queria ir pra frente, em linha reta ou sinuosa, mas com ele.

E depois de sete anos eu descobri que é o que eu mais quero agora, por mais que pareça estranho e eu tenha dito que não aos quatro cantos por tanto tempo, eu nem estou com vergonha de ter mudado de ideia, de novo.


Foto extraída desse site.

segunda-feira, junho 19, 2017

Por amor.

Hoje encontrei-me novamente com uma moça, depois de 10 anos. 18 anos tem ela agora. 
Tínhamos nos conhecido em 2007, quando fui sua professora na segunda série (hoje terceiro ano).
Éramos muito próximas, ela morava bem perto da minha casa e fiz amizade com muita gente da família, mãe, avó, irmã.

Conversamos por algumas horas, tantas coisas. Tantas palavras. Olhares, beijos, afagos, sorrisos, abraços, eu não saberia dizer o que senti naquele tempo em que passamos juntas. Orgulho, vontade de voltar no tempo, de parar, vontade de continuar. Olhava para ela falando coisas tão inteligentes e dizendo que eu fui importante na sua vida, isso me deixava tão feliz e animada, me dava vontade de viver ainda mais e conhecer mais gente, falar mais coisas, ouvir outras tantas, continuar vivendo, continuar acreditando, sorrindo.

Perguntei para ela porque eu era tão especial e porque ela lembrava tanto de mim e ela me contou coisas que nem eu mesma lembrava que fazia! Fiquei emocionada e comovida, um encontro com ela e com uma pessoa que eu fui a dez anos atrás. Novamente, fiz as pazes comigo mesmo, fui feliz demais, chorei, sorri.

Dessas belezas que é participar, estar dentro da vida de outras pessoas. Não tem coisa mais legal do mundo do que estar viva e presente.

sexta-feira, junho 16, 2017

Um amor.

Eu senti um amor tão grande por ele, liguei e disse tudo que sentia e o quanto ele sempre seria especial na minha vida inteira, que as conversas com ele eram maravilhosas, que eu adorava o senso de autocrítica dele e tudo mais que ele tinha, a risada, a voz, tudo que eu tinha conhecido, eu disse tudo assim de uma vez e ele disse que ficava sem jeito com isso e como eu assustava com essa intensidade toda, que não estava acostumado com isso, não sabia como lidar.

A ligação precisou ser desligada, meus amigos chegaram e eu queria estar com eles.
E nunca mais, nunca mais mesmo, a gente se falou. Mas tudo que eu disse a ele é verdade.

quarta-feira, junho 07, 2017

terça-feira, maio 30, 2017

... e lá vamos nós.

vlut 
vlat 
zum
eu sempre estou indo pra um lugar, algum

segunda-feira, maio 29, 2017

Sobre o amor que se pode ver (tocar, sentir, cheirar).

Sentei-me ao lado da van em que pude ver o marido da professora de natação e seu filhote lá do outro lado da rua, oito da noite, esperando-a chegar.
O menino de três anos corria para lá e para cá, serelepe, parecia certo de que aquela van trazia a mulher que lhe botou no mundo, mulher esta esperada por seu pai todos os dias, mesmo horário, mesmo lugar.
Senti a lágrima brotando no canto do olho sorrateira, no mesmo dia em que decidi pôr fim a uma ideia maluca de fazer dar certo um amor solitário por alguém descorajoso.

Ela não saiu, a lágrima. A professora me deu tchau, segui viagem, com aquela imagem na cabeça. Pai e filho que esperavam uma das mulheres de suas vidas. Não chorei, mas senti tanto aquela imagem que até agora posso ouvir os ecos e gritos do neném que apontava para a van, o pai de braços cruzados, sorriso no rosto, esperando, esperando. 

Um amor concreto, feito de esperas, de estradas com mato e última van. Um amor. 

sábado, maio 27, 2017

é só isso, acabou, não tem mais jeito

quinta-feira, maio 25, 2017

(Des)coragens.

Ele por fim falou o que é que acontecia consigo.
Disse tudo, assim, na lata, sem pestanejar.
Foi quando precisei de um pouquinho de atenção e cuidado e ele não apareceu que pensei que ele sabia como deixar o jogo sem precisar nem tirar a camisa. 

Mas ele enfim me disse, com todas as letras, algo honesto mas não por isso menos doído. 

Ele disse que não tinha coragem de deixar a vida dele, isso era aventura demais. 
E essa descoragem foi tomando conta de sua cara, seu corpo, coração, vida.
Nada mais era feito, por medo das consequências, medo de não dar certo, medo de não conseguir voltar para onde estava, medo do medo, só medo, medão.

E nada o demovia do medo, nada o fazia pensar diferente, pelo menos não até hoje. Aceitava as coisas como vinham e muitas vezes, por aceitar, nunca descobria como poderia ser melhor de verdade. 

Assim que foi definhando aos poucos e em poucos dias virou mais uma história pra contar. 

sábado, maio 20, 2017

A vendedora de quebra-queixos.

Ela entrou na van e eu olhei para ela, olhar cansado.
Passava das sete da noite, era noite. Estava escuro. Ela entrou, não há passagem para circular, a van muito apertada e ela para ali, na frente. 
Oferece o quebra-queixo. Para, espera que alguém compre. Não parece ter pressa.

E, nesse momento, entre o momento em que ela ofereceu o quebra-queixo pela primeira vez e até quando o primeiro moço que estava na cadeira de uma das primeiras fileiras da van levantou a mão e disse quero um, meu coração foi tomado de amor por ela, um amor miúdo, mas satisfeito, amor. 

Eu não sei o motivo, eu não entendo quando e porque isso acontece, só sei que acontece e meus olhos enchem de água assim, uma aguinha pouca, mas presente. Um sorriso me confunde os sentidos, eu estendo a mão, um pouco hipnotizada, quero um, eu disse. Comprei, ela procura o troco na sua pochete com moedas, me entrega. Repete o oferecimento, mais gentes compram, ela pede que alguém da van lhe troque vinte reais para que possa vender mais um, não sei o que acontece ela passou por mim, está atrás de mim, não vejo. Fico feliz por ela vender alguns quebra-queixos, fico feliz por entender sua pausa e sua espera, sua calma. É muito rápido, mas tudo naquela van parece acontecer muito devagar, como o rosto dela parado, esperando compradores, pensativa, na frente da van. 

Vê-la ali tão jovem, tão linda, tão pano na cabeça sem ser fashion, tão absorta em seus pensamentos enquanto esperava, tão doce, tão negra, tão mulher, tão do interior, tão... me deu tanta gana de continuar a viver que eu nem consigo terminar esse texto.

quinta-feira, maio 18, 2017

No corpo.

Ouço as mulheres falando.
Uma delas conta histórias de amor. 
Diz que foi a primeira mulher do seu novo namorado, ele com 32 anos. Que ensinou pra ele tudo que ele gosta.
Ela tem 49 anos e faz amor quase todos os dias, quase.

Disse que tem pressão arterial, diabete, é gorda, mas 

sente tanta coisa ainda naquele corpo que ainda não quer parar

Fiquei com essa frase na cabeça o dia inteiro.

Sente tanta coisa no corpo que ainda não quer parar

Tem mais poesia pra hoje?
Acho que não precisa. Ela me lembra Toni Morisson, quando diz sobre nossa carne e como ela precisa (e quer) ser amada.

segunda-feira, maio 15, 2017

domingo, maio 14, 2017

Adolescências.

Mais uma vez, eu em casa, passava da meia noite. Ouço uma cantoria. Levanto pra ver e na rua meninos negros jovens, tem entre 13-16 anos. Cantam:

deixa, deixa mesmo de ser importante
vai deixando a gente pra outra hora
vai tentar abrir a porta esse amor
[...]

Um deles, o que vai à frente, grava tudo. Este parece mais sério e compenetrado, olha para a câmera. Os outros, amigos, parecem fazer aquilo para ajuda-lo a dizer alguma coisa para alguém. Um deles me vê. Continua a descer a rua e cantar, me dá um tchauzinho e eu retribuo, sorrio para ele.

Acho uma cena tão linda. Meninos jovens negros cantando o amor numa cidade pequena do recôncavo baiano. Pode não ser nada mas, ainda assim, por também não ser nada, é tudo.

(porque quando eu vejo na TV' e em todos os lugares, esses meninos só são maus e perigosos, eles só aprontam coisas ruins e nada que preste, e eu vi, EU VI meninos negros cantando o amor e se declarando, ajudando o amigo a declarar o amor, eu sou feliz, eu acredito no amor e na vida, eu já disse isso)

Vidas negras importam, amores importam, declarações importam.

sábado, maio 13, 2017

do you believe in life after love?

[sim, eu acredito em vida e amor, nessa ordem e em outras]

sexta-feira, maio 12, 2017

I'm black man in a white world, Michael Kiwanuka.


Eu não sei quem me apresentou Michael (acho que foi um exnamorado, não tenho certeza), mas ele é meu novo Ben Harper. Ouvindo seguidamente, eu preciso de todos os cds.

Mães.

Sou mais feliz ouvindo mulheres pretas conversando na entrada da escola sobre como criar suas crianças, todos os dias.
Elas dizem
não segura ela, deixa ela chorar um pouco, senão você sempre vai ter que ficar com ela no colo
vai, deixa

Do outro lado da rua eu passo, dou bom-dia, sou feliz.
Trabalhar num lugar onde as mães das crianças já são amigas antes delas entrarem na escola e

eu levo ela hoje pra mãe, passo na frente da casa
eu vim aqui porque vi todo mundo saindo e não vi a mãe dele, eu levo, eu moro aqui do lado, depois ela pega ele lá

Me faz mais forte que antes, me faz acreditar um pouquinho mais naquele largo sorriso que minha vizinha que nunca me viu na vida me deu depois de um bom dia. 

quinta-feira, maio 11, 2017

Ficando velha.

Descobri que tou ficando velha quando chorei com isso.