Você que me lê, me ajuda a nascer.

sábado, maio 20, 2017

A vendedora de quebra-queixos.

Ela entrou na van e eu olhei para ela, olhar cansado.
Passava das sete da noite, era noite. Estava escuro. Ela entrou, não há passagem para circular, a van muito apertada e ela para ali, na frente. 
Oferece o quebra-queixo. Para, espera que alguém compre. Não parece ter pressa.

E, nesse momento, entre o momento em que ela ofereceu o quebra-queixo pela primeira vez e até quando o primeiro moço que estava na cadeira de uma das primeiras fileiras da van levantou a mão e disse quero um, meu coração foi tomado de amor por ela, um amor miúdo, mas satisfeito, amor. 

Eu não sei o motivo, eu não entendo quando e porque isso acontece, só sei que acontece e meus olhos enchem de água assim, uma aguinha pouca, mas presente. Um sorriso me confunde os sentidos, eu estendo a mão, um pouco hipnotizada, quero um, eu disse. Comprei, ela procura o troco na sua pochete com moedas, me entrega. Repete o oferecimento, mais gentes compram, ela pede que alguém da van lhe troque vinte reais para que possa vender mais um, não sei o que acontece ela passou por mim, está atrás de mim, não vejo. Fico feliz por ela vender alguns quebra-queixos, fico feliz por entender sua pausa e sua espera, sua calma. É muito rápido, mas tudo naquela van parece acontecer muito devagar, como o rosto dela parado, esperando compradores, pensativa, na frente da van. 

Vê-la ali tão jovem, tão linda, tão pano na cabeça sem ser fashion, tão absorta em seus pensamentos enquanto esperava, tão doce, tão negra, tão mulher, tão do interior, tão... me deu tanta gana de continuar a viver que eu nem consigo terminar esse texto.

quinta-feira, maio 18, 2017

No corpo.

Ouço as mulheres falando.
Uma delas conta histórias de amor. 
Diz que foi a primeira mulher do seu novo namorado, ele com 32 anos. Que ensinou pra ele tudo que ele gosta.
Ela tem 49 anos e faz amor quase todos os dias, quase.

Disse que tem pressão arterial, diabete, é gorda, mas 

sente tanta coisa ainda naquele corpo que ainda não quer parar

Fiquei com essa frase na cabeça o dia inteiro.

Sente tanta coisa no corpo que ainda não quer parar

Tem mais poesia pra hoje?
Acho que não precisa. Ela me lembra Toni Morisson, quando diz sobre nossa carne e como ela precisa (e quer) ser amada.

segunda-feira, maio 15, 2017

domingo, maio 14, 2017

Adolescências.

Mais uma vez, eu em casa, passava da meia noite. Ouço uma cantoria. Levanto pra ver e na rua meninos negros jovens, tem entre 13-16 anos. Cantam:

deixa, deixa mesmo de ser importante
vai deixando a gente pra outra hora
vai tentar abrir a porta esse amor
[...]

Um deles, o que vai à frente, grava tudo. Este parece mais sério e compenetrado, olha para a câmera. Os outros, amigos, parecem fazer aquilo para ajuda-lo a dizer alguma coisa para alguém. Um deles me vê. Continua a descer a rua e cantar, me dá um tchauzinho e eu retribuo, sorrio para ele.

Acho uma cena tão linda. Meninos jovens negros cantando o amor numa cidade pequena do recôncavo baiano. Pode não ser nada mas, ainda assim, por também não ser nada, é tudo.

(porque quando eu vejo na TV' e em todos os lugares, esses meninos só são maus e perigosos, eles só aprontam coisas ruins e nada que preste, e eu vi, EU VI meninos negros cantando o amor e se declarando, ajudando o amigo a declarar o amor, eu sou feliz, eu acredito no amor e na vida, eu já disse isso)

Vidas negras importam, amores importam, declarações importam.

sábado, maio 13, 2017

do you believe in life after love?

[sim, eu acredito em vida e amor, nessa ordem e em outras]

sexta-feira, maio 12, 2017

I'm back man in a white world, Michael Kiwanuka.


Eu não sei quem me apresentou Michael (acho que foi um exnamorado, não tenho certeza), mas ele é meu novo Ben Harper. Ouvindo seguidamente, eu preciso de todos os cds.

Mães.

Sou mais feliz ouvindo mulheres pretas conversando na entrada da escola sobre como criar suas crianças, todos os dias.
Elas dizem
não segura ela, deixa ela chorar um pouco, senão você sempre vai ter que ficar com ela no colo
vai, deixa

Do outro lado da rua eu passo, dou bom-dia, sou feliz.
Trabalhar num lugar onde as mães das crianças já são amigas antes delas entrarem na escola e

eu levo ela hoje pra mãe, passo na frente da casa
eu vim aqui porque vi todo mundo saindo e não vi a mãe dele, eu levo, eu moro aqui do lado, depois ela pega ele lá

Me faz mais forte que antes, me faz acreditar um pouquinho mais naquele largo sorriso que minha vizinha que nunca me viu na vida me deu depois de um bom dia. 

quinta-feira, maio 11, 2017

Ficando velha.

Descobri que tou ficando velha quando chorei com isso.

terça-feira, maio 09, 2017

E fim.

24 horas depois, não há mais nada aqui.
Saudade de um tempo em que não pensei no que iria ser, só pensava em ouvir uma voz, um sorriso, imaginar um rosto.

24 horas depois, não há mais nada aqui.
Mas também não há nenhum vazio.
Uma sensação de paz... um sentimento de que ainda pode ser verdade.
De que a vida é mais, as pessoas são mais. 
O tempo é mais, o amor é mais. E o sexo (vulgo fazer amor)?

O sexo é tempo, amor, verdade, pessoas e vida.
Vou repetir de novo: o sexo é tempo, amor, verdade, pessoas e vida. 

Se não tiver isso, não é fazer amor. FAZER AMOR, tem expressão mais bonita que essa pra dizer de corpos que conversam? 

24 horas depois, não há mais nada aqui.


segunda-feira, maio 08, 2017

cê vai se arrepender de não abrir os braços para mim

Flor da noite.


Quando acabou, essa música surgiu na lista. Era pra ser assim. 

sábado, maio 06, 2017

Amizades, amores e que tais.

Ele me disse que

poxa, Migh, é que eu já te amo, eu não posso me apaixonar por você

Engraçado, sorrimos. Mas nos amamos mesmo. Gosto de quando nos falamos e ele me diz eu te amo, eu também o amo, eu também digo, eu repito. Amar é bom,

amor é remédio de louco pra recuperar a razão

Não sei o que seria de mim sem meus amores amizades. 



terça-feira, maio 02, 2017

eu lhe disse que não bulisse
você buliu, assanhou
essa menina quando se assanha [...]

segunda-feira, maio 01, 2017

Visagem.

Dia desses, em casa, ouvi aqui de dentro um barulho de berimbau. Espiei pela janela e do primeiro andar vi do outro lado um senhorzinho todo de branco tocando um. Parecia visagem, corri a mão na máquina de fotografia.
Era tarde da noite, só ele, a lua e o berimbau. Ele passou devagar, tocando.
E eu fiquei paralisada. Toda vez que me sento nesta poltrona, na janela, sinto o som do berimbau subindo a rua. Lembro do rosto do senhorzinho que me fitou de longe e logo continuou sua caminhada sem se importar comigo. 

Foi sumindo na rua, tocando o berimbau.
Não tirei foto nenhuma, mas a imagem não sai da minha cabeça.

Get on Up.


Benjamim Clementine.


Você, camarote. Eu, pipoca.

E foi no dia mesmo que eu disse que na metáfora do Carnaval ele era camarote e eu pipoca que outro homem me disse que não sabia explicar, mas sentia muita energia vinda de mim, que eu levava a vida de forma intensa e isso era empolgante. Li a mensagem sorrindo envaidecida, mas é realmente isso que eu acho de mim. Uma energia empolgante em forma de gente, principalmente apaixonada. 

Claro que ele não concordou com minha analogia carnavalesca e resmungou que eu era Barra e não Campo Grande. "Não mesmo", pensei comigo. Mesmo que eu não tenha sido a pessoa mais carnaval do mundo e nunca ter ido à Barra no carnaval, eu sei que não sou Barra, talvez também por nunca ter ido. 

Agora, a graça na vida está não quando vejo a banda passar. Quero fazer parte da banda. 

Crianças Black Panthers (Exposição Todo poder ao povo!)




(Quando você tem pessoas que te ama, você não precisa estar no lugar e nem ter smartphone legal. Elas lembram de você o tempo todo. Ere, meu amor)

Sem ar.

E numa manhã dessas, bem cedinho, eu disse tudo de uma vez:

Não te acho sonhador, te admiro por ser lutador, é diferente de ser sonhador. Tu não desistiu, não desistiu da vida, ama seu filho e vê nisso motivo de aguentar as coisas da vida que não gosta, lutador por guerrear mesmo com as poucas armas que tem e ao mesmo tempo é sensível para sentir - e expressar! - emoções tão profundas... eu te admiro por ser um homem comum e em sendo comum, és extraordinário, tu escapa às definições que existem para te classificar. Quem te vê aí no trabalho pode não conseguir saber como você é lindo dentro e é isso que me aproxima de você, essa luz e essa força, tão certa, mas tão escondida... Te vejo como uma pedra preciosa não lapidada, mas que não precisa ser lapidada para ser mais linda. Você só precisa de espaço e tempo para aparecer e brilhar. Essa sua luz, ao invés de ofuscar meu olhar, me hipnotizou



Pros outros, Paula Matos.


pros outros pros outros pros outros

sábado, abril 29, 2017

Frente a frente.

você me põe de frente comigo mesmo

Ele me disse de um jeito despretensioso, como se não fosse nada, como se pensar assim não fosse algo rebuscado e profundo. Eu agora fico repetindo que ele me disse isso para todo mundo, achei tão forte, eu só pensei que eu queria dar um beijo nele, apertando os lábios, não de língua, só apertar o meu corpo de encontro ao dele, sentir sua pele, seu calor, seu cheiro, respiração. Aquele momento em que a sinfonia acontece. 

Estou apaixonada. 

A late night kiss in Harlem (photo by George S. Zimbel): 1951

quinta-feira, abril 27, 2017

Run to you, senhora Withney Houston.



Que esse não seja o hino das mulheres negras.

Noname.


É possível ser linda e demais de linda por mais de uma vez e sempre?

segunda-feira, abril 24, 2017

Esperando o caminhão do lixo.

Ele, homem negro. Jovem. 
Fazendo o serviço que muitos e muitas de nós fazemos desde sempre. 
Passa na rua dia sim, dia não.
Usa um óculos escuros, tem sempre um fone de ouvido.

Sobe, desce. Leva o lixo das casas, mas não parece ter perdido a coragem.

Ela, mulher negra. Mais jovem ainda. Na hora que o caminhão passa em sua porta, se posiciona, parece feliz. Ele vem subindo, junto com o caminhão de lixo. Recolhe o que há na rua, acena para algumas pessoas, está de luvas.
É uma cena linda. Eu o vejo, ele subindo. Eu a vejo, ela esperando ele chegar. 

Então acontece. Ele passa em frente a porta dela, ela sorri, chega perto. Ele lhe dá um beijo na boca, com cuidado para não tocá-la. Ela balança o corpo daquele jeito que fazemos quando não conseguimos aguentar a felicidade dentro.

Conversam um pouco e eu que tudo observo, já lavo minha alma com essa dose de alegria de manhã cedo. Mais beijos, mais balanços, ele corre, há que se pegar o lixo e dar-lhe alguma atenção, ele tem cuidado para não tocar-lhe, mas ainda assim não desiste dos beijos. Ela respeita o limite da roupa e da luva, não avança, embora pareça desejar muito. Imagino que aquele balanço intenso é parte do controle que faz para não agarrá-lo.

Um código de corpo que só tem amor.

Ela é jovem e há tanta vida nela que eu remocei alguns anos só de vê-la apaixonada e feliz. Ela é tanto sorriso e balanço que dá para limpar a cidade inteira de desamor e pessimismo. Ele? Ele é quem limpa a cidade da sujeira toda mesmo, ele não é poesia, não, mas, ainda assim, é por ele que o amor se faz 

Toda a rua sabem quando brigam e quando fazem as pazes, ela está lá, ela não está lá, ele não tira os fones, ele não para. Ele e ela me fazem mais corajosa de viver minha própria vida, minhas escolhas. Sem vergonha nem medo.

Sou mais forte vendo o amor ali, esperando o caminhão do lixo. E descobri assim que, ao invés de esperar o caminhão do lixo, o que eu estou esperando agora é ver o amor acontecer, dia sim, dia não, do lado da minha casa.